Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

O HOMEM  QUE NÃO TINHA IDADE

Fernando Correia


Se há coisas que se fazem com prazer é colocar aqui obras que o merecem e que, além disso, são escritas por grandes amigos. Se a primeira razão é por demais evidente, ou não estaria a ser referida neste lugar que criámos para os livros que amamos, já a segunda pode ser casual pela coincidência do sermos também amigos do autor. Mas compreende-se que traga maior satisfação. Fernando Correia, jornalista e homem do desporto, voz da rádio e da televisão admirada por muitos milhares de portugueses, é também um grande escritor com várias dezenas de livros abrangendo para além das obras de carácter desportivo, igualmente biografias, contos e ensaios. E quando, como aconteceu no seu anterior livro há cerca de um ano (também referido a seu tempo neste espaço) nos oferece agora de novo algo que nos transmite a sua forma de ser e de pensar, fica connosco a certeza de que ele entrou definitivamente numa das áreas que mais se pode admirar num escritor. É que para além de nos contar uma história, real como foi o caso da obra anterior ou semi-ficcional como este “Homem que não tinha idade”, ele se afirma, usando a sua escrita mais que perfeita, digna de pertencer aos privilegiados da literatura portuguesa (como se depreende da apresentação do livro feita por Manuel Sérgio), como um escritor do seu tempo que tem a responsabilidade de lançar um alerta contra algo de errado que ocorre na sociedade actual. A história de um João, homem dos oitentas, viúvo de alguém que muito amava, mas cujos filhos, com as suas vidas organizadas em casas próprias, resolvem colocá-lo, contra vontade, num lar de idosos, quando afinal ele se sentia ainda com capacidade para viver a sua vida, com direito a amar e ser amado, homem livre utilizando os meios que ainda encontrasse ao seu dispor mesmo em actividades intelectuais, é, sabemos todos, um retrato dos nossos dias. É. Mas não devia ser. E é essa denúncia numa espécie de grito que Fernando Correia lança. Não que seja felizmente a sua própria história. Mas Fernando e João têm a mesma idade. E Fernando sabe que apesar dos “oitentas” está no pleno uso das suas faculdades mentais. Apesar de a vida o ter atraiçoado com uma terrível doença que atingiu a mulher que tanto ama, ele  trabalha, desenvolve uma série de actividades à sua volta, tem amigos e sente-se verdadeiramente um Homem que não tem idade. Tal como afirma nesta sua obra, a idade cronológica, aquela que lhe diz no calendário que no dia tantos de tal será um velho, nada significa. Infelizmente são muitos os velhos de calendário que são abandonados, muitas vezes por aqueles que criaram, e que enchem esses depósitos de trapos e sombras. Neste livro, João não aceita ficar naquele quarto que os filhos diziam ser muito bonito, com duas janelas que não se abriam, um roupeiro, uma secretária, um cadeirão, uma jarra com flores de campo e a televisão, sempre que o desejasse, na sala de convívio. E, sentindo-se ainda na plenitude das suas principais aptidões, com um desejo enorme de viver, com forças para encontrar outros rumos que lhe trouxessem a alegria de viver, a amizade e até o amor (porque não?), diferente mas igualmente amor, João resolve fugir, levando consigo o indispensável. Dinheiro, cartão de cidadão, cartão multibanco para acesso à reforma de jornalista, o telemóvel e o retrato de Joana que nunca abandonava.
É então que Fernando Correia nos descreve de maneira original, numa espécie de  retrocesso desde os anos actuais aos primeiros anos do seu nascimento, as várias etapas da vida de João, o Homem que não quis ficar no asilo-depósito de velhos onde os filhos o tinham deixado. E todas essas etapas são descritas pelo autor com os pormenores mais relevantes de uma vida ficcionada, mas que não deixam de levantar os seus criteriosos comentários relacionados com a passagem dos anos pela qual todos nós passamos. Até que voltamos novamente aos dias do presente vivido por João, aquele que não deseja ser velho porque não se sente velho mas pelo contrário um homem com a enorme capacidade de admirar toda a Natureza que o rodeia e da qual faz parte. Chega o momento de Fernando Correia abrir o seu próprio espírito, vestindo a pele de João onde afinal se reflecte como por encanto a sua personalidade forte, tudo o que de mais constitui o seu pensamento de um grande humanista. E é ao mesmo tempo o autor que domina com excepcional maestria o poder da escrita. Tudo naquelas páginas que nos vão conduzir a um final inesperado revela o seu valor na criação literária. Ele não utiliza os artifícios fáceis no sentido de agradarem ao grande público dos dias de hoje onde são infelizmente raros os verdadeiros autores. Fernando Correia, ele também Um Homem Que Não Tem Idade, reafirma neste seu romance o grande poder da palavra escrita e oferece ao leitor momentos de reflexão que nos conduzem não só à introspecção como também – e isso é muito importante – a uma consciente análise do mundo que nos rodeia. Muito mais poderia aqui deixar sobre o valor literário desta obra mas julgamos estar suficientemente provado que ela merece, como tem sido sempre o critério das nossas escolhas, este seu lugar no nosso Amor pelos Livros. Que ela mereça como sempre a atenção de quem nos visita.


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