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Confessando o quanto admiro a escritora e jornalista Clara
Ferreira Alves, tomo a liberdade, que nunca fiz, de reproduzir a cinta que
cobre esta sua obra para início do que farei o possível por dizer sobre o seu
conteúdo. De facto está ali tudo o que a autora nos vai contar. “Estes são os
dias da América: o poder do dinheiro, os bastidores da política, as malhas da
guerra, o quotidiano dos que não têm voz”. Clara Ferreira Alves, como aliás tem
referido por várias vezes nos seus artigos e em intervenções televisivas,
conhece bem a América, o nome pelo qual são designados os Estados Unidos da América.
Percorreu todos os estados de uma costa à outra, desde 1980 até aos dias de
hoje. Em muitas das cidades permaneceu durante vários dias e teve a
possibilidade de avaliar o modo de viver do povo americano, não deixando de
notar que desde Reagan até aos dias de hoje com Trump, os presidentes não
conseguiram fazer desaparecer o grande fosso que divide ricos e pobres. Afinal
a América da Liberdade, o país tantas vezes desejado por aqueles que
acreditavam que ali iriam encontrar um futuro radioso para si e muitas vezes
também para a família, vive do poder do dinheiro infiltrado nos bastidores da política.
Chegavam pobres, pensando poder ali viver com alguma dignidade e segurança
quando na maior parte das vezes ficavam pior do que nos seus países de origem.
Clara Ferreira Alves encontrou muitos desses emigrantes em pequenas cidades do
interior de muitos dos estados. O sonho americano que eles imaginavam que iriam
encontrar naquele país não chegara a concretizar-se. A autora analisa,
investiga as possíveis razões e leva-nos a percorrer como era a América nos
dias de Reagan, dos Bush, de Clinton, mesmo de Obama e até como vai ela com o
actual Trump. Assistimos ao verdadeiro desenrolar dos episódios conhecidos
durante esses vários mandatos. Mas esta obra consegue descrever-nos com a
exactidão da veia jornalística, não só o como, mas também a razão porque
aconteceram as inúmeras cenas que apenas todos nós conhecíamos das notícias que
foram sendo divulgadas durante todos esses anos. E sem qualquer sombra de
dúvida é possível concluir como afinal estas cenas da vida americana nos
revelam ser sempre o poder do dinheiro dos mais ricos que, como sempre, acaba
por vencer e deixa sem o mínimo conforto os que não conseguiram alcançar o
ambicionado sonho americano, velhos vagabundos, drogados, negros e brancos
desempregados e também mulheres. Mulheres, muitas mulheres sem família, sem
filhos, que os maridos abandonaram para tentar qualquer outro caminho que
aquela América lhes negou, deixando-as em perfeita miséria, sujeitas aos piores
sacrifícios que nunca pensaram ter de suportar. É verdade que a autora não
nega, como afirma peremptoriamente, que a América salvou a Europa em momentos
da história em que tudo parecia ruir neste nosso continente. E de tal modo isso
foi verdade que o século XX chegou a ter o nome de século americano. Em Nova
York persiste uma vida turbulenta que nos dá a ideia de que tudo vai bem. As
grandes salas de espectáculo enchem-se das elites que sempre persistiram. E os
bons restaurantes não faliram, pelo menos por enquanto. É lá que uma certa
gentalha se reúne para combinar as grandes fraudes. Central Park ainda existe.
Aliás sempre existiu. Mas de dia é uma coisa diferente do que ali se passa de
noite. Não é seguro. Por lá proliferam os vagabundos e assaltantes. Nós
próprios assistimos a isto quando lá estivemos certa vez em serviço. E já havia
gente sentada nos degraus das portas de saída de muitas casas, estendendo a
mão, pedindo uma esmola que cairia ou não no chapéu colocado à sua frente.
Assistimos a isto em muitas ruas não muito longe do centro de Nova York. Também
eu fiquei desiludido nesse tempo, antes dos anos que Clara Ferreira Alves nos
conta nesta sua obra que reúne muitos dos artigos que publicou desde 1980. E
parece que no essencial nada mudou. Estas suas “Cenas da Vida Americana” servem de facto para ficarmos a conhecer
melhor o que é a América. Não conseguimos transmitir aqui com muito pormenor a
mais pequena ideia de uma tão vasta história. Apesar do que nós próprios podermos
ter visto, tudo o que sabíamos da América ficou agora totalmente transformado
naquilo que constitui a verdade vivida por Clara Ferreira Alves. Claro que
termina com a análise possível do que acontece presentemente com Trump, o homem
que segundo ela “quer destruir o sistema, o amante da força bruta e da guerra
total, o ditador dos media, o Goebbels de uma ópera bufa, a crueldade
claramente vista”. Aconselhamos vivamente esta leitura.
Para ler alguns excertos desta obra clique aqui
QUERENÇA
Fernando Correia da Silva
Fernando
Correia da Silva, o meu grande amigo Fernando, autor de assinalável obra
literária e poética, merecedora dos elogios de grandes nomes do nosso meio
artístico-literário como por exemplo António José Saraiva, está hoje aqui
presente pelas piores razões: deixou-nos, à família e aos amigos, no passado
dia 18 de Julho. Já há muito tempo que ele devia figurar aqui mas como várias
vezes tenho afirmado não me é possível colocar neste espaço todos os livros e
autores que gostaria nele figurassem. E para além da falta de tempo para o
fazer numa modesta análise minimamente correcta, tenho dado preferência às
edições ou reedições mais recentes. E apesar de uma importante actividade
literária que Fernando Correia da Silva mantinha regularmente desde que em 1998
criou o site Vidas Lusófonas (clique e visite), sendo responsável pela coordenação de 169
biografias de vários autores nacionais e estrangeiros, em muitos casos escritas
por ele próprio com uma originalidade que lhe era peculiar, publicara o seu
último romance em 1996. E assim apesar de ter pensado por várias vezes colocar
aqui alguns dos seus livros que estão em lugar de destaque numa das minhas
estantes, o tempo foi passando até que o inesperado aconteceu. Tínhamos falado
uma semana antes, recordando até a coincidência da nossa idade. A propósito do
seu aniversário a 28 de Julho, cerca de um mês antes do meu, ainda me atirou a
costumeira frase “Muito respeitinho pois sou um mês mais velho do que tu”.
Sempre bem-disposto, nada faria antever o que se passaria. A nossa amizade
nasceu em Campo de Ourique, quando da entrada para o primeiro ano no Liceu
Pedro Nunes. Camaradas de turma, logo se iniciou uma amizade que iria manter-se
nas actividades extra-escolares, entretenimentos e excursões, culminando na
adopção dos mesmos ideais que cedo nos levaram ao MUD Juvenil. Cedo começariam
as perseguições da PIDE que, ao contrário do que lhe aconteceu a ele, não
conseguiam encontrar-me devido à diferença entre o meu nome familiar e o
oficial. Preso em Caxias com 17 anos, viria a publicar dois anos depois
COLHEITA,
que logo me ofereceu, um livro de poemas nos quais apresenta já muito
das suas preocupações de carácter social, ao mesmo tempo que se compreende
porquê futuramente na sua obra literária haveria de sempre coexistir uma forma
algo poética de se exprimir. O Fernando não poderia nunca deixar de ser ele
próprio, juntando, como poucos o souberam fazer, o coração e a razão, o que
gostaria de ser e a realidade do que tinha de ser, o eu e o não eu, os outros,
sempre os outros. E por isso coloco hoje aqui o seu romance que no meu entender
melhor o define. Em QUERENÇA, que mais tarde viria a ser adaptado ao cinema por
seu filho Edgar Feldman, Fernando Correia da Silva é ao mesmo tempo o autor e o
narrador que criou como personagem principal. É que, curiosamente, Júlio Vera,
o personagem é um contador de histórias que narra acontecimentos da sua vida,
episódios e amigos da sua juventude e tem igualmente premonições de algo que
virá a acontecer. E aqui e ali as palavras correm com um fervor poético. Júlio
Vera joga com elas como se de poesia se tratasse. O autor está dentro e fora da
Querença, aquela querença que é afinal o seu território ou foi e será. E se ao
analisar o personagem-narrador que Fernando criou, foram muitos os que viram
neste seu romance algo de auto-biográfico, como aliás se intui dentro da
própria narrativa ficcionada, nele acontecem também nomes e personagens reais
com os quais o autor conviveu. E não seria apenas O’Neill, Agostinho Neto ou
Pinto de Andrade com os quais se cruzam em Lisboa a personagem de Querença e o
autor que poderiam criar a suposta verdade. Leio Júlio Vera e estou ao mesmo
tempo a ouvir as palavras que muitas vezes escutei deste meu grande amigo,
fossem elas durante umas voltas pelas ruas de Campo de Ourique, sentado num
café da Ferreira Borges ou num banco do jardim da Parada. Da situação política
que atravessávamos, nosso tema preferido, lançava de repente com o seu
costumeiro humor qualquer pergunta que envolvesse uma pequena aventura dos
nossos tempos de juventude: Lembras-te Gil de como conseguimos a malhadinha,
aquela pomba que querias para o teu pombal? (eu era aficionado columbófilo e
ele ajudava-me a manter a bicharada). Na vida como na escrita, as revessas como
ele as intitula em Lianor ou no Mata-Cães, outras das suas obras, são
constantes. Tão rapidamente estamos ou, melhor, está no agora como recua
dezenas ou centenas de anos para vestir a pele de Colombo ou Gama. Entre o que
desejou ou foi e o que já não é porque afinal não aconteceu como previa,
existem muitos acontecimentos que somos levados a repensar porque deles fomos
testemunhas ou nos ensinaram de maneira muito diversa. Heróis que não o foram
de facto, almas caridosas que apenas exerciam o seu poder sobre espíritos
inocentes para mais facilmente os escravizarem, um mundo e uma história que não
é, nunca foi, aquele em que mesmo os homens que chegaram a ser considerados
seus defensores se reconheceram mais tarde as naturais imperfeições humanas.
Fernando Correia da Silva, sendo o criador e a criatura que faz parte dos seus
romances, consegue a estranha magia de ser um perfeito analista político que
nos revela factos que a ele são exteriores mas nos quais tomou igualmente
parte. E consegue tudo isso com extraordinário rigor, numa forma que nos prende
da primeira à última página de cada um dos seus romances, onde se destacam o
rigor, a crítica e até um certo bom humor que o caracterizava também na vida
real. E por isso a sua obra, o criador e a criatura como Júlio Vera na
Querença, transmitem-nos a noção de que a natureza humana é inalterável e de
que apenas podemos acreditar numa utopia: será que um dia a humanidade atingirá
a igualdade fraterna e universal? Queremos acreditar que acontecerá. Por isso e
para isso vivemos e o recordamos quando lemos as suas obras. Fernando Correia
da Silva está dentro delas.
Para
ler um excerto de QUERENÇA e um poema de COLHEITA, o primeiro livro do autor,
clique aqui
1974 - O Ano que começou em - ABRIL
António Luís
Marinho
e Mário Carneiro
Mais um dos muitos
livros que assinalaram as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril havia que
colocar neste meu espaço onde já estão igualmente as capitãs de Abril. E mais
uma vez, pelas mesmas razões. Tal como no anterior existia uma
locutora/apresentadora, desempenhando funções idênticas às minhas, também nesta
obra que hoje aqui deixo, ela se identifica com a profissão que exerço. É da
responsabilidade de dois jornalistas, António Luís Marinho e Mário Carneiro,
baseando-se nos excertos retirados de dois prestigiados órgãos da comunicação
social:
Diário de Notícias
e a Revista Flama, por coincidência dois em que também eu próprio colaborava
regularmente, como jornalista que sou. Existe também portanto uma razão que me
levaria, se outras não existissem – e é claro que existem – para aqui trazer
outra das muitas obras que então se publicaram a respeito do 25 de Abril.
E de facto, como os
autores salientam no prefácio, “se o 25 de Abril não tivesse acontecido naquele
ano de 1974, este ficaria na História por outras e muitas variadas razões,
desde as muitas celebridades que nele nasceram entre os quatro mil milhões que
marcavam o também Ano Mundial da População, aos casos mediáticos da Índia se
ter tornado a sexta potência nuclear do Mundo ou de um senhor desconhecido ter
inventado aquele papelinho amarelo que se chama post it ou ainda de um outro
que ao passar com a mão na areia da praia inventou o chamado código de barras
que pela primeira vez foi experimentado e lido num pacote de pastilha elástica.
Mas para todos nós, portugueses, 1974 foi o ano em que Abril nasceu ou melhor,
como dizem os autores deste livro, “… o Ano que começou em Abril”. E a
expressão está mais que correcta porque Abril era desde há muitos anos desejado
e esperado pelo povo. Vivendo sob uma ditadura violenta que lhe retirava todos
os direitos, desde a saúde à educação, martirizando e torturando aqueles – e
foram muitos – que lutavam para derrotar esse regime, a grande maioria da
população portuguesa esperava que numa qualquer madrugada, esse Abril nascesse.
E essa grande alegria, que viria a devolver-nos a liberdade tão esperada,
aconteceu exactamente numa madrugada do ano de 1974.
Tudo aconteceu,
como se fosse de há muito minimamente preparado. A muitos terá parecido fácil.
Foi a revolução dos cravos. Uma revolução de flores, onde não foi necessário
que as armas disparassem. Um cravo no cano de uma espingarda tornou-se um
símbolo que haveria de fazer nascer sorrisos nos rostos por onde tinham passado
muitas angústias e corrido muitas lágrimas. Eu próprio sentira no seio da minha
família as garras da Pide que numa das muitas vezes em que o meu Pai fora
preso, esteve um mês encerrado na prisão da Torre do Bugio, com água até aos
joelhos. E também comigo, a aventura principiaria bem cedo, antes das
perseguições que a polícia política haveria de fazer a alguém cujo nome, não
totalmente fictício, não aparecia exactamente do mesmo modo nos registos do
Liceu ou da Faculdade. Mas isso é outra história que um dia talvez venha a
contar. Apenas com três anos de idade, uns polícias pidescos retiraram-me do
berço onde dormia, altas horas da noite, na nossa casa de Campo de Ourique,
pensando que nela iria decorrer uma reunião e que debaixo dos lençóis alguém
mais importante do que a criança que eu era estaria escondido. Mas voltemos a
este livro que vai ficar como documento completíssimo de todo esse período que
começa em Janeiro e termina em Dezembro de 1974, pleno de fotografias e notícias
dos referidos Jornal e Revista, evocando na devida altura a grande história do
nascimento de Abril, o antes e depois do grande dia 25, que todos nós não
esqueceremos nunca mais.
O modo como os dois
autores resolveram apresentar as imagens e excertos recolhidos dos ficheiros da
Biblioteca Nacional, juntando-lhes os devidos comentários e descrições ao longo
das cerca de 400 páginas que constituem este livro, permitem-nos de uma forma
extremamente eficaz mas ao mesmo tempo simples, reviver o antes e o depois
daquele período que foi considerado por muitos analistas internacionais um dos
mais extraordinários exemplos de como um país se consegue libertar do atroz sofrimento
a que esteve submetido durante largas décadas perante um poder absoluto onde
reinava um ditador que envelheceu numa cadeira, rodeado apenas de alguns poucos
amigos que alimentava com mordomias várias mas que a ele obedeciam cegamente,
seguindo as suas ordens desumanas e terríficas. Este livro é o retrato fiel de
como vivíamos nesses meses que antecederam o 25 de Abril, no auge de uma guerra
colonial que continuava a levar os nossos jovens para o além mar, em defesa de
territórios onde os grupos de libertação eram chamados de terroristas, enquanto
nesta pátria empobrecida imperava a exploração do trabalho infantil, se proibia
tudo o que pudesse relacionar-se com o sexo ou a igualdade de direitos da
mulher. Mas algo se preparava de facto e o livro de um general do regime causa
sensação e atordoa os membros do governo. “Portugal e o Futuro” escrito pelo
General Spínola era um desafio sério à política do governo. Mas para quem se
tenha esquecido, ele confessaria depois numa entrevista à Televisão Francesa
que não considerava que contivesse quaisquer divergências com a política
portuguesa. É bom que seja recordado, como fizeram muito bem os autores. E
depois, tínhamos também as célebres “Conversas em Família” nas quais Marcelo
Caetano tentava convencer-nos de que tudo estava a correr pelo melhor ou de que
a sua política estava ao lado do povo. Não era assim de facto. E o povo saiu à
rua, juntamente com o movimento dos militares de Abril, para o retirar e à sua
equipa do Quartel do Carmo onde se tinham refugiado. Relembra-se também nestas
páginas o que foram as comemorações do dia 1 de Maio na Alameda Afonso
Henriques, juntando mais de um milhão de pessoas, comparadas, segundo escrevia
o DN, às que marcaram a célebre libertação de Paris. “1974 – o Ano que começou
em Abril” fica de facto para a história como documento único que marca de forma
excepcional, através dos registos documentais, um ano memorável para o nosso
país.
CAPITÃS DE ABRIL
Ana Sofia Fonseca
As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril trouxeram à actualidade
literária um enorme conjunto de obras que focaram os mais diversos aspectos do
significado das conquistas de Abril nesse grande momento da nossa história
recente. Como era viver nos tempos da ditadura, a polícia política, a censura
na comunicação social, os livros proibidos, as inaugurações de fachada, a
guerra colonial, a luta académica, os exilados, tudo isto e muito mais a que
estávamos sujeitos antes dessa data memorável. Publicaram-se livros de
entrevistas, biografias e os mais variados ensaios políticos sobre o tema. Escolhemos
para este nosso espaço, onde não podíamos deixar de assinalar a efeméride, um
livro de uma jornalista que nos conta a revolução dos cravos no feminino. As
Capitãs de Abril revela-nos, pela primeira vez, quem foram, o que fizeram e
como viveram as mulheres dos militares que fizeram a revolução que derrubou a
maior ditadura da história europeia. De Ana Coucello, casada com o adjunto
operacional de Otelo Saraiva de Carvalho no Regimento de Engenharia 1 na
Pontinha, a Natércia Salgueiro Maia ou Teresa Alves, respectivamente viúvas do
grande Capitão de Abril Salgueiro Maia e do Major Vítor Alves, são descritos os
momentos decisivos dos dias que antecederam aquela célebre madrugada vividos
por 13 das mulheres que a jornalista conseguiu entrevistar para nos dar a
conhecer exemplos de muita coragem e abnegação que também eram vividos em
família numa certa clandestinidade. Ana Sofia Fonseca relata-nos com
extraordinária precisão como elas viviam, algumas nos locais onde se travava a
luta contra os chamados “turras” nas antigas colónias portuguesas, sempre
aguardando a chegada dos maridos que tinham partido de manhã para a frente
militar, espingarda na mão e umas tantas granadas à cintura. Será que
voltariam? Nos ouvidos o som das bombas a rebentar lá longe ou a passagem do
helicóptero que transportava feridos para o hospital próximo. Será que ele vai
ali? Outras em Lisboa, fingindo que nada se passava, escondendo o receio
daquilo que se preparava, visitando com eles locais chave que haveriam de dar
que falar. Enfim, nas horas antes daquela madrugada, as palavras dos futuros
heróis que, embora confiantes, não podiam deixar de transparecer o receio de
que “a coisa” corresse mal. ”Olha, é esta noite” diz o marido a Teresa Alves.
“É esta noite o quê” pergunta Teresa ao Vítor. E ouve de imediato a resposta:
“A revolução que temos andado a preparar”. “É hoje. Liga o rádio e se ouvires
aquela canção do Adeus já sabes que começou”. E lá ficavam presas, de olhos
fixos no pequeno transístor aguardando a canção que tinham ouvido dias antes no
Festival televisivo. Mas para Dina que sempre acompanhara o marido nas missões
no ultramar, Otelo foi ainda mais preciso: “Se ouvires o nosso comunicado é
porque tudo correu bem”. “- E o que é que acontece se correr mal”. Pergunta Dina,
escondendo o desassossego que a enche. “Eh pá, sei lá? Enfiam-me no Tarrafal e
é esta a última vez que aqui estamos a falar”. Todas estas situações nos são
contadas neste livro com grande precisão. Como se estivéssemos a presenciá-las
no foro íntimo das personagens da história memorável que foi o 25 de Abril.
Facto curioso que a autora resolveu e muito bem incluir é o de existirem
duas mulheres que sem serem casadas com militares de Abril desempenharam também
o papel de “Capitães” ao lado das restantes. É o caso de Celeste Caeiro,
empregada num self-service a colocar
flores nas mesas dos clientes. Naquela manhã, o gerente mandou-a para casa pois
o estabelecimento ia fechar devido a algo que se passava nas ruas. E que
levasse as flores com ela pois já não eram precisas. Celeste agarrou nelas e
foi de metro para a baixa. À saída, soldados por todo o lado. Aproxima-se de um
e pergunta: “O que é que estão aqui a fazer?”. “ – Uma revolução”. É a
resposta. “- Precisam de alguma coisa? Como é que posso ajudar?”. “Se tiver um
cigarrinho...um cigarro calhava bem.”. “- Bem gostava mas nunca fumei... Olhe,
tome lá um cravo que tanto se oferece a uma senhora com a um senhor.” O militar
agradece e põe o cravo no cano da G3. Celeste distribui o molho inteiro pelos
militares com que se cruza. Gosta da Ideia – confessa mais tarde – antes cravos que
balas. E o exemplo foi seguido por outras vendedeiras de flores nesse dia e nos
seguintes. Quem diria que foi graças à Celeste que apareceu o nome de
“Revolução dos Cravos”.
O outro caso, também de uma mulher não casada com um militar mas também
Capitã de Abril é o de Clarisse Guerra, nessa época locutora do Rádio Clube
Português e que, encontrando-se em casa quando às 4 da manhã é avisada por uma
colega de que ia haver um revolução, corre a ligar a telefonia e vai ouvindo os
comunicados lidos de quando em vez pelo seu colega Joaquim Furtado. “Aqui posto de comando do Movimento das
Forças Armadas...”. Corre para o telefone, avisa alguns amigos e sai de
casa com a filha, a caminho do Rádio Clube, ali a 10 minutos da casa onde mora,
em Campolide. Vai
para a mesa de locução, passa canções e músicas censuradas, mas são eles, as
vozes masculinas, o Joaquim e o Luís Filipe Costa que vão lendo os comunicados.
Então e eu? Pergunta. Até que finalmente, cerca das 2 e meia da tarde, Joaquim
Furtado olha para ela e pergunta-lhe se quer ler. Clarisse responde que sim
claro. O chefe dos noticiários confirma “até é bom uma mulher ler”. Clarisse
Guerra respira fundo, afasta os nervos, nunca antes lera noticiários. O
documento acabara de chegar da Pontinha. E ela vai ler as palavras dos heróis.
A única mulher a ler aos microfones de uma estação de rádio um comunicado do
Movimento das Forças Armadas. (A única, sabemo-lo bem, pois na E.N. onde eu era
colega dela, apenas às vozes masculinas foi dada essa oportunidade, eu, um deles).
Mais do que possamos acrescentar sobre este livro que ficará por certo para a
história do 25 de Abril poderá ser lido nas suas páginas e é isso que
recomendamos.

Conspiração OCTOPUS
Daniel Estulin
Ed. A Esfera dos Livros
Daniel Estulin tornou-se mundialmente conhecido com os livros em que descreveu tudo o que até aí tinha sido silenciado sobre as célebres reuniões dos membros do Clube Bilderberg. Neste mesmo espaço poderão rever as notas que então escrevi sobre essas obras. 3 milhões de obras vendidas em 75 países dão uma ideia do interesse despertado no público que ficou a saber como eram montados os cordelinhos da política – estava tentado a dizer “dos politiqueiros” – no mundo em que vivemos e sofremos. Quem são, como agem, quem os informa, enfim, tudo isso Estulin conseguiu investigar. E o certo é que desde então pouco se tem ouvido falar de tais reuniões. Desta vez, o consagrado jornalista e escritor, resolveu trazer-nos o seu primeiro romance no género Thriller . E nada de mais actual do que na grave crise económica que o mundo atravessa, descrever mais uma vez como uma poderosa organização secreta que dá pelo nome de Octopos, ou seja o Polvo, tenta reunir os códigos de contas dos grandes especuladores bancários, das enormes contas que uns tantos corruptos reuniram à custa do trabalho dos que mais sofrem. E embora as intenções de tal seita também não esteja imbuída dos mais elementares escrúpulos humanistas, o que o autor, com a sua enorme experiência de investigador, nos vai descrevendo são novamente os meandros de um mundo obscuro onde prevalecem os falsos valores que dominam a actualidade. O que poderia ser um simples thriller está baseado em informações seguras que ele conseguiu sempre obter. A crise mundial em que vivemos só poderia ser salva por um homem que no livro acaba por ser assassinado. Claro que nos fica a pergunta de como seria isso possível. Sonho imaginado de alguém que não é suposto poder existir e que conseguisse dominar todos os recantos onde se esconde todo o tipo de especulação que oprime os mais fracos e desprotegidos, não seria assim que o problema mundial se resolveria. Mas o livro vale pela descrição que novamente o autor consegue trazer-nos, agora sob a forma romanceada que pode e deve ser lida de modo diferente dos seus livros anteriores, do que se está passando à nossa volta. Digamos que é um outro modo de nos informar sobre aquilo que se passa. E talvez seja também um modo de nos ajudar a melhor pensar e reagir sobre a forma como sair deste fosso em que alguns, poucos, lançaram o resto da humanidade. Os resultados estão todos os dias nas notícias difundidas pelos órgãos da comunicação social sobre a situação nos mais diversos países, mesmo aqueles que até há pouco tempo julgávamos livres e ilesos do alcance de uma crise que tal como dizia alguém que muito admiramos, escritor insigne, muitas vezes aqui lembrado: “A crise actual não é uma crise económica. É uma crise de valores.
Para ler um excerto desta obra clique aqui

OS DONOS DE PORTUGAL
Jorge Costa, Luís Fazenda,
Cecília Honório, Francisco Louçã,
Fernando Rosas
Edições Afrontamento
Julgo que serão poucas as pessoas que possam interrogar-se sobre o que significa de facto este título, apesar de alguns dos seus autores serem bem conhecidos da vida Política e Universitária. Não vou portanto debruçar-me sobre ideologias ou tendências políticas de cada um deles. Estamos perante um trabalho que julgamos criterioso e honesto das relações entre a vida política e o capital. Se alguém tivesse dúvidas sobre o que é isto de existirem Donos de Portugal afirmando que donos somos nós todos ou o Estado, que somos nós, ou então que é isso de existir um governo que numa república democrática também não deverá ser dono desse país e portanto não deveria haver donos porque ninguém, pelo menos após o 25 de Abril, poderia ser dono de Portugal. Ora é precisamente aí que nos enganamos. Existem de facto diversas personalidades – se assim lhes podemos chamar – que são de facto donos do nosso país. Donos porque são eles afinal que detém o poder, que tomam decisões que nos afectam, que se colocam acima de qualquer outra entidade que até pode ter sido eleita para nos governar. E o curioso é que, como os autores muito bem o demonstram, tem sido sempre assim. E alguns dos donos actuais descendem mesmo de outros donos de algumas décadas passadas. Este livro apresenta-nos a história da acumulação da riqueza e do seu poder desde 1910 até ao presente. De como nasceu, como foi protegida, como se protegeram entre si, como efectuaram ligações matrimoniais para garantir ainda maiores lucros e mantê-los confinados a uma burguesia que foi engordando cada vez mais sem se preocupar com o facto de ter explorado o trabalho de outrem em seu único proveito. Claro que tal só foi possível através de favorecimentos e privilégios que lhes foram concedidos por razões óbvias de contrapartidas e compadrios que acabavam sempre por aumentar o número dos detentores desse poder sobre o país. Se antes do 25 de Abril, eles seriam em menor número, sofreram nos primeiros anos da revolução um ligeiro desaire mas regressaram em força e aumentaram de sobremaneira a sua capacidade de domínio, atingindo hoje um escandaloso número muito elevado de algo a que alguém já chamou – não é o caso deste livro – a máfia portuguesa. Dos tabacos às lotarias da finança, acumulando latifúndios cada vez mais vastos, foi ao longo das décadas um acumular de riquezas sem modernizar, que aliás dá o título ao capítulo II deste livro. Aproveitamento da mão-de-obra barata, tudo sob a complacência dos governantes. Decidi não citar aqui nomes bem conhecidos das várias famílias que enriqueceram e enriquecem actualmente, sendo-lhes permitidos todos os processos na sua ascensão que parece – e insisto que parece - não ter fim. Um dos autores, dirigente político de esquerda adiantou numa entrevista que "Os donos de Portugal são os donos dos governos”, “uma história permanente do apoio do Estado à formação da riqueza”. “É uma oligarquia financeira fortíssima, protegida pelo Estado, apoiada pelo Estado, financiada pelo Estado, vivendo de rendas do Estado, uma grande família que tem dominado Portugal ao longo de 100 anos”. As fortunas das famílias citadas neste livro – nomes bem conhecidos de todos nós – na banca, nos seguros, no sector auto, no cimento ou nos adubos, no imobiliário e no turístico, no grande comércio como no petróleo e por aí fora, são feitas por vezes através de cruzamentos entre elas, vendas e compras de acções, dinheiro que rende lucros de milhões de euros, ao passar de mão em mão, por vezes no espaço breve de alguns meses. No entanto não se conhece muito bem onde acaba por ir parar. Será que é mesmo dinheiro? Nomes que fizeram parte de recentes governos encontram-se à frente de grandes empresas, curiosamente em muitos casos ligadas ao estado. Inalamos um cheiro acre a pura corrupção. Os valores esquecem-se. E de facto parece que tudo se processa como uma continuidade que vem de há muto neste país, com ligações externas, claro, porque isso lhes convém. Dentro e fora, protegem-se uns aos outros. Esta obra, ao traçar como a força económica foi dominante ao longo de cem anos da nossa história, apesar de todas diferenças no contexto político recordou-me algo que muitas vezes me chega à memória recente onde aquele que a si próprio se denominou Presidente do Conselho e se julgava ser o único dono de Portugal, já permitia à sua volta alguns senhores da alta burguesia que enriqueciam os bolsos e que hoje ainda fazem parte de uma faixa de grandes fortunas que se tornou mais vasta e poderosa, pois o chamado capitalismo liberal o permitiu. Na minha modesta opinião, apesar das diferenças que encerram em relação naturalmente ao nosso estado democrático e a muitos outros países do ocidente, os recentes acontecimentos no Egipto e o despontar de outros semelhantes em países árabes seus vizinhos, demonstram que chega sempre um momento em que os povos resolvem erguer a sua voz e dizem “basta”. Abaixo os donos que lhes tiram tudo a que têm direito e não lhes é permitido. E mais ou menos pacificamente, se possível, o tempo acabará por chegar. Vale a pena conhecer “Os Donos de Portugal” e compreender como foi possível que eles se fixassem e se agarrassem como lapas à sua rocha dourada. A maré chegará um dia, que pode não estar assim tão longe, para os varrer.
Para ler um excerto desta obra clique aqui.
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