Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

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UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS
A Ciência como uma Luz na Escuridão
Carl Sagan
Ed. Gradiva
Para que ninguém se assuste, o subtítulo é colocado também na capa (tal como aconteceu na edição original). Carl Sagan, o professor, cientista e investigador que certamente todos recordam, pelo menos pelo seu livro Cosmos, (que se seguiu à série de televisão homónima, vencedora de um Emmy e de um Prémio Peabody) considerado o livro de divulgação científica em língua inglesa mais vendido de sempre, vem precisamente nesta sua obra denunciar a ideia de que o mundo esteja infestado de demónios. Prémio Literário Los Angeles Times para Ciência e Tecnologia, ele desmonta toda uma série de mitos que ao longo dos tempos e mesmo no presente têm servido, por vezes com as mais malévolas intenções, destinadas a dominar as mentes mais desprotegidas do conhecimento. E é precisamente a ciência que tem sido essencial para resolver as possíveis dúvidas. Num exemplo muito simples que ele cita numa das páginas, a rotação do girassol de acordo com a posição do astro-rei foi considerada noutros tempos um milagre natural. Até que a ciência descobriu que o movimento da flor do girassol é devido a um tropismo, isto é, deve-se a um movimento que é executado através de acção hormonal que acontece na própria planta e orientado em relação a um estímulo externo, neste caso a luz solar, chamado fototropismo. Carl Sagan percorre nas páginas do seu livro os diversos períodos da nossa história e vai descrevendo os vários demónios que foram criados, ou melhor, inventados pelos homens. No mundo antigo, a crença nos demónios era generalizada. Ele relembra a própria crença existente em grandes figuras como Sócrates ou o seu discípulo Platão que consideravam que a sua criatividade tinha origens demoníacas. E até Aristóteles aceitava que os sonhos tinham origem em demónios. Que dizer então da gente simples dos povos dessas épocas? As figuras demoníacas estavam presentes para onde quer que se voltassem. E os demónios e os mitos foram ficando. Mesmo à medida que o tempo passava e alguns desapareciam, logo outros tomavam o seu lugar. O autor vai citando com enorme precisão os mais variados documentos histórico-culturais em que baseou o seu estudo. E assim vamos percorrendo o caminho da criatividade demoníaca. É espantoso como crenças ou religiões de todos os géneros sentiram necessidade de criar entidades, pretensamente maléficas, para justificar o que não era ainda compreensível ou não tinha sido descoberto. E não foram poucos os que chegaram a espalhar como credível aquilo em que eles próprios não acreditavam. Razões muito obscuras para eventualmente exercerem domínio sobre os seus seguidores. Tudo isso é analisado com muito pormenor e com a referência às obras consultadas pelo autor ou à sua experiência pessoal. E desse modo conclui que não é de admirar que a ideia tenha prevalecido e até ainda subsista hoje em algumas das pretensões da chamada pseudociência. Carl Sagan aborda com muita profundidade o caso dos discos voadores, óvnis e extraterrestres que falsos cientistas chegaram a defender. Lembra-nos as estranhas visões presenciadas por muita gente nos mais diversos locais do mundo, mas sobretudo na América, que constituem um prolongamento da ideia da existência de demónios pois se alguns, como o célebre “ET”, não tinham más intenções, outros teriam vindo anunciar catástrofes mundiais e até mesmo o fim do mundo. Por mais estranho que nos possa parecer, a tendência para a irracionalidade criativa persiste. E apenas a verdadeira ciência a poderá combater. É a tal Luz na Escuridão. Por isso o autor aproveita também para falar no modo como hoje em dia se processa o ensino e se preparam as mentes dos jovens. Muito do que se passa nos tablóides ou é difundido por noticiários sensacionalistas pode ter, esse sim, um efeito maléfico para o aparecimento de futuras superstições. Mas o oportunismo político continua a deixar que esse aparatoso divertimento tenha lugar. Em nome da paz defende-se o nuclear. E este é um demónio da era moderna. Enfim, da invenção de Satanás aos testemunhos visionários do monstro de LochNess ou à defesa do nuclear, o caminho é necessariamente longo. Não nos é possível aqui descrever a variedade enorme e surpreendente dos casos citados. Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford e grande escritor de divulgação científica britânico, escreveu que “recorrendo a um manancial de referências históricas e culturais, assim como à sua vivência pessoal, Sagan demonstra com enorme clareza e rigor que a tentação da irracionalidade é não apenas um erro cultural crasso como um salto perigoso para a escuridão, que põe em risco as nossas liberdades mais básicas”. E como Sagan não deixa de referir com grande insistência a actualidade das tecnologias que endeusam actividades como o nuclear, Dawkins interroga-se se não “estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição”. E até confessa que gostaria de ter sido ele a escrever este livro. Como não foi, diz que o mínimo que pode fazer é aconselhá-lo aos seus amigos. O mesmo convite dirigimos nós aos que nos estão a ler neste espaço.

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A ÚLTIMA TESTEMUNHA DE AUSCHWITZ
Denis Avey
com Rob Broomby

Clube do Autor

O autor viveu de facto os episódios trágicos descritos neste seu livro que escreveu em conjunto com o jornalista britânico do BBC World Service que fora em tempos correspondente em Berlim. Denis foi feito prisioneiro de guerra e de acordo com a Convenção de Genebra ficou num campo especial criado pelo regime nazi para o exército inimigo. Estava no entanto muito próximo do de Auschwitz e foi-lhe fácil constatar como eram tratados os judeus ali encarcerados, forçados a trabalhar até já não terem forças e conduzidos depois para as câmaras da morte. Ora não é de estranhar que Denis tenha sido distinguido numa recente cerimónia como um dos 27 heróis britânicos do Holocausto. Muitos de nós recordamos ainda de tudo o que soubemos sobre as perseguições e atrocidades dantescas cometidas pelo governo alemão durante a segunda Guerra Mundial. O Holocausto nos campos de concentração para judeus foi uma dos episódios mais vergonhosos levados a cabo pelo nazismo. Muitos de nós recordamos os filmes que foram feitos sobre esse período de verdadeiro horror na história recente da Humanidade. Conhecemos os nomes de muitos dos que lutavam para conseguir a fuga e a liberdade para o ocidente de homens, mulheres e crianças em permanente perigo de vida. Aristides Sousa Mendes que foi cônsul de Portugal em França, durante a ocupação, desafiou o governo português e salvou a vida de milhares de pessoas, das quais cerca de 10 mil judeus, tendo sido chamado de "o Schindler português", outro diplomata alemão que também salvou muitas vidas dentro de a própria Alemanha. Também conhecemos e lemos o célebre Diário de Anne Frank. O que nos conta Denis Avey é como, enquanto vigiava cuidadosamente o que se passava no campo vizinho de Auschwitz, conseguia ter uma vaga ideia do que ia acontecendo aos prisioneiros judeus. E por isso mesmo, no desejo de tomar pleno conhecimento daquilo que lhe chegava aos ouvidos, acabou por infiltrar-se no outro campo e trocar a sua espécie de farda pelas vestes de um judeu que se encontrava em perigo de vida devido à sua debilitante condição física e aos laços familiares que ao mesmo tempo o prendiam ao exterior. Com essa atitude, acabaria por salvar a vida do judeu mas viveu ele os horrores dos dias passados junto aos corpos dos que iam sendo enterrados meios vivos ou das cinzas que saiam das câmaras de incineração. Mais um livro sobre o Holocausto, poderão dizer alguns. Mas trata-se do relato dos horrores passados e funcionam como testemunho vivo daquilo que presenciou que aqui retrata. É talvez compreensível que não seja agradável reler ou voltar a relembrar o que se passou. Mas também convém que tudo isto não seja esquecido. Trata-se de um relato envolvente. Tudo ali foi vivido. É verídico. Uma obra a não perder para que a humanidade não volte a viver este tipo de episódios que colidem com os direitos fundamentais do Homem e com a dignidade da nossa existência, no respeito pelas ideias de cada um, contra a opressão e o racismo.

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A CASA DA SABEDORIA
Jonathan Lyons
Editorial Presença

O Autor conta a história da célebre Casa da Sabedoria, dos califas que a apoiaram e das pessoas que nela trabalharam, a um ritmo absorvente e vibrante. E de facto, é extraordinário como foi entre os árabes que nasceram as grandes descobertas científicas daquele tempo e que depois foram trazidas para o ocidente. Neste livro está bem patente que ao longo da época medieval, ao contrário do que acontecia na Europa, as mais variadas áreas da cultura, desde a filosofia à matemática e a astronomia eram estudadas e largamente desenvolvidas pelas mentes dos sábios islâmicos que não se cansavam de inovar e apresentar soluções para problemas que intrigavam a humanidade. Aproveitando-se de um célebre académico cristão, chamado Adelardo, que viajou largamente pelo Oriente com o propósito de aumentar os seus conhecimentos, o autor acompanha-nos numa viagem espantosa às fontes de sabedoria que se centravam naquelas paragens longínquas, nomeadamente a célebre Biblioteca real de Bagdad, conhecida de facto como a Casa da Sabedoria. Ali se reunia toda a vasta série de descobertas originadas no pensamento oriental. É notável como a língua árabe foi durante muito tempo aquela que permitia uma troca valiosíssima de saberes e obras primitivamente escritas em idiomas ocidentais eram de imediato traduzidas para o árabe. Não existe aqui, nem essa foi a ideia do autor qualquer aprovação dos desmandos de etnias radicais e fundamentalistas que hoje fervilham nessas regiões. É curioso, no mundo actual e na presente crise, que parecem ambas dividir o Oriente e o Ocidente, concluirmos que os povos do outro lado desta barricada que se tem formado entre um mundo e o outro, foram de facto os iniciadores de todo o conhecimento que depois foi desenvolvido deste lado em que nos situamos. E é pena que não exista a paz e entendimento suficiente para tentarmos viver, num respeito mútuo pelas tradições particulares de cada um, sem coarctar a liberdade e respeitando os mais elementares direitos humanos. Não fosse de facto a crise actual e as divisões a que estamos a assistir e seria com um prazer muito maior que aqui deixaria esta Casa da Sabedoria no meu Amor pelos Livros, lugar que de facto merece pela verdade que nos transmite e pelos ensinamentos valiosos que nos traz.

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A CRIAÇÃO
E.O. Wilson
Gradiva

É interessante encontrar um dos mais eminentes Biólogos da actualidade, defensor incontestável das teorias evolucionistas que defende com grande convicção a ideia de que elas não são na sua essência contrárias à existência de uma qualquer religião. Este facto não é muito vulgar, apesar de não constituir uma excepção à regra. Criacionistas e evolucionistas sempre se têm defrontado nos areópagos de várias conferências, parecendo irreconciliáveis as duas ideias. O Professor de Harvard, laureado com uma notável colecção de prémios e de distinções por todo o mundo científico, escreveu há já alguns anos um livro que então foi editado entre nós em que faz um apelo para salvar a vida na Terra. O livro voltou recentemente a ser falado, talvez motivado pelas recentes comemorações que assinalaram em todo o mundo a 1ª edição d’A Origem das Espécies de Charles Darwin e do bicentenário do seu nascimento. Wilson é naturalmente um darwinista e a sua intenção nesta obra, ao demonstrar a evidência da teoria da evolução, defende que não podem ser as fronteiras entre a religião e o ateísmo que podem obstar a que lado a lado não possam lutar ambos os seus seguidores pela conservação da biodiversidade neste planeta que é afinal o único que temos para viver. O livro é escrito numa espécie de conversa do autor com um pastor religioso. Em cada um dos capítulos, abordando temas e teses importantes para a explicação da existência da vida, desde a formação das primeiras moléculas até ao aparecimento do Homo Sapiens, ele principia sempre dirigindo-se ao seu convidado, o pastor católico, colocando-se igualmente ao seu lado e no seu oposto para concluir que alguns dos principais problemas com que a humanidade se debate nos dias de hoje poderiam ser resolvidos se fosse conseguida uma espécie de aliança, onde fossem respeitados os princípios básicos de cada uma das partes, mas lutando por um objectivo comum. A ciência e a religião podem conciliar-se nesta finalidade, mas a Criação de E. O. Wilson deve ser igualmente lida por todos aqueles que desejam aprofundar os seus conhecimentos sobre aspectos menos conhecidos da Biologia, como apareceram e se formaram as diversas espécies, as que desapareceram e as que estão em perigo de desaparecer, tudo enfim que nos pode levar a repensar ou confirmar a certeza de que algo pode e deve ser feito para salvar a vida na Terra. Segundo ele e com facilidade o demonstra, se eliminássemos todos as inúmeras espécies de insectos – e muitas desaparecem diariamente – seria o suficiente para que o resto da vida e da humanidade desaparecessem da face da Terra. Será que ainda pode existir alguém que duvide disso?

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O SÍMBOLO PERDIDO
Dan Brown
Bertrand Editora

Quando em 2003 Dan Brown apresentou O Código Da Vinci, o público reagiu em todo o mundo com um entusiasmo fora do vulgar. Em pouco tempo o livro tornou-se um best-seller e de facto, recuando um pouco no tempo, em Portugal não se falava de outra coisa. As pessoas eram vistas com o livro nos mais variados locais. Aquelas 540 páginas tinham de ser lidas sem grandes interrupções pois o desenrolar do enredo, recheado de elementos científicos, necessitava que estes estivessem bem presentes na nossa memória para acompanharmos as deduções do conceituado historiador Robert Langdom, personagem criada pelo autor mas que mais parecia existir de facto, algures em Harvard. Confesso que o li durante umas pequenas férias, num recanto calmo, como sempre procuro ter para o efeito, e não peguei em mais nenhum enquanto não terminei. E confesso também que relembrei coisas esquecidas como a célebre sequência Fibonacci, a proporção áurea, e muitas outras. O filme feito a partir do romance foi de certo modo uma decepção. Era impossível conter toda a riqueza que o livro encerrava. Dan Brown entusiasmou-se naturalmente pela sua personagem e Robert Langdom viria a aparecer nas obras que se seguiram igualmente nos tops das vendas. Eis agora O SÍMBOLO PERDIDO que parece destinado a conquistar igualmente o público. Dan Brown conduz-nos habilmente através de sucessivas descobertas entre simbologias exotéricas e maçónicas. São de novo códigos enigmáticos com os quais nos prende numa maestria a que se habituou, fruto certamente de muito trabalho e muita investigação. Ele tem aliás o cuidado de nos dizer que tudo o que relata tem fundamento e o essencial em que se baseiam os factos descritos é puramente verídico. Desta vez a história passa-se na mais famosa cidade da América e quem conhecer Washington parecer-lhe-á que por vezes acompanha a par e passo Robert Langdom. Dan Brown é mestre do suspense sem dúvida e mais uma vez nos prende nestas perto de 600 páginas disposto a atingir os milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

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FÚRIA DIVINA
José Rodrigues dos Santos
Gradiva

Curiosamente na mesma semana em que era apresentada uma nova edição da Bíblia que segundo os editores levou 32 anos a preparar, incluindo os textos do Antigo e Novo Testamento juntamente com os Deuterocanónicos, e em que José Saramago apresentou o seu último livro dedicado à figura de Caím, lançando a polémica entre cristãos que se sentem ofendidos pelas suas palavras negando a existência de Deus, José Rodrigues dos Santos, apresentou o seu novo romance no qual, misturando ficção e realidade, relata aspectos verídicos da religião islâmica. A sua “Fúria Divina”, como ele próprio escreve numa nota inclusa, é uma história ficcional com personagens ficcionais mas como acontece em todas as suas obras, muitas das coisas que o livro revela não constituem qualquer invenção. E cita o caso de documentos e declarações dos dirigentes da Al-Qaeda sobre a intenção de deflagrar um engenho nuclear. Para esta obra consultou variadíssimos textos de mentores do islamismo radical, obras gerais sobre o islão, o próprio Alcorão e outras reveladas com pseudónimo, para além do facto deste livro ter sido revisto por um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda. O livro é portanto um romance, baseado em informações verídicas que nos revelam várias facetas consideradas estranhas e mesmo ignoradas do radicalismo islâmico, na turbulenta época em que vivemos. A avaliar pelo público que encheu a praça central de um conhecido centro comercial de Lisboa para escutar o premiado jornalista José Rodrigues dos Santos e conceituado escritor já traduzido além fronteiras, este seu livro, quer pela forma romanceada como o autor tem sabido impor a sua escrita prendendo os leitores da primeira à última página quer pela actualidade do tema, vai certamente juntar-se aos êxitos das suas obras anteriores e mesmo ultrapassá-los.

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CAIM
José Saramago
Editorial Caminho

Mais um livro de José Saramago para o meu AMOR PELOS LIVROS. Não é de estranhar que assim seja. O consagrado escritor, amado por muitos e odiado por uns tantos – os primeiros por reconhecerem o seu valor na história da Literatura contemporânea e os segundos por discordarem das suas ideias e da liberdade de expor com frontalidade aquilo que pensa – desde há muito que é um dos meus favoritos. E as suas 42 obras que trouxe ao mundo das letras desde 1947 preenchem uma parte da minha humilde biblioteca. Esta história de Caim que cristãos e ateus conhecem da Bíblia mereceu-lhe sempre uma séria preocupação desde muito jovem – confessou na apresentação do livro na Culturgest. De vez em quando aparecia-lhe no espírito como algo a que tinha de se debruçar. E assim aconteceu há quatro meses - que foi quanto durou a gestação. "Porque preferiu Deus Abel a Caim? Porque não os aceitou a ambos como iguais em méritos, visto que o eram, provocando desse modo a morte de um deles e a desgraça do outro?" Eis a questão que preocupa José Saramago. Caim foi escolhido por Deus para matar o irmão e de seguida, também por Deus, foi condenado a errar pelo mundo sujeito às mais incríveis desventuras. Saramago conduz então Caim numa viagem imaginária a alguns dos mais emblemáticos lugares do Velho Testamento - a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, Jericó, a Arca de Noé e outros, numa visitação crítica a aspectos em que se baseia a civilização ocidental. Desta história mais do que conhecida da Bíblia, Saramago constrói um romance de onde poderemos naturalmente tirar as nossas ilações, utilizando o seu direito de liberdade de expressão, mas desagradando à Igreja que se sente ofendida pela leitura literal que o autor faz ao livro sagrado. A polémica estalou, com insultos e blasfémias, o que curiosamente fez não só vender o livro como a própria Bíblia. Ainda bem que a compraram – a esta, diz Saramago – para que mais gente a fique a conhecer melhor. Enfim, por mim, li aquelas 180 páginas, quase sem parar. A mais recente edição da Bíblia, com 2400páginas, lançada quase em simultâneo, pelo Círculo de Leitores e Temas e Debates, levou 32 anos a traduzir e aí está para que o público melhor a conheça e se possível a entenda. A história de Caim por José Saramago é apenas um pequeno episódio que a igreja diz ser abstracto e que afinal tanto ataca na visão do nosso prémio Nobel da Literatura. Apetece-nos dizer: “Assim seja”.

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O HOMEM QUE PROCURAVA O SENTIDO DA VIDA
Ramiro Calle
A Esfera dos Livros

Talvez não seja por acaso que inicio esta actividade com o recente livro de Ramiro Calle. Trata-se de uma obra em que o autor do Livro do Amor, onde defende que “a única força capaz de transformar o ódio, a violência, a angústia e de aproximar as pessoas é o Amor (…) algo de que o mundo necessita urgentemente”, nos transporta numa viagem capaz de transformar as nossas vidas. Professor da Universidade Autónoma de Madrid, tendo estudado os efeitos terapêuticos das psicologias orientais, Ramiro Calle relata neste romance uma viagem ao mesmo tempo física e espiritual onde os profundos diálogos entre as duas principais personagens, em face das aventuras proporcionadas pela busca de uma sabedoria mística que resolva os graves problemas da sociedade actual, constituem valores que talvez nos animem a encontrar as respostas que todos desejamos. Interessante pelo conteúdo e pela actualidade, consegue prender-nos de maneira absoluta.

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