Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

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CENAS DA VIDA AMERICANA

Clara Ferreira Alves


Confessando o quanto admiro a escritora e jornalista Clara Ferreira Alves, tomo a liberdade, que nunca fiz, de reproduzir a cinta que cobre esta sua obra para início do que farei o possível por dizer sobre o seu conteúdo. De facto está ali tudo o que a autora nos vai contar. “Estes são os dias da América: o poder do dinheiro, os bastidores da política, as malhas da guerra, o quotidiano dos que não têm voz”. Clara Ferreira Alves, como aliás tem referido por várias vezes nos seus artigos e em intervenções televisivas, conhece bem a América, o nome pelo qual são designados os Estados Unidos da América. Percorreu todos os estados de uma costa à outra, desde 1980 até aos dias de hoje. Em muitas das cidades permaneceu durante vários dias e teve a possibilidade de avaliar o modo de viver do povo americano, não deixando de notar que desde Reagan até aos dias de hoje com Trump, os presidentes não conseguiram fazer desaparecer o grande fosso que divide ricos e pobres. Afinal a América da Liberdade, o país tantas vezes desejado por aqueles que acreditavam que ali iriam encontrar um futuro radioso para si e muitas vezes também para a família, vive do poder do dinheiro infiltrado nos bastidores da política. Chegavam pobres, pensando poder ali viver com alguma dignidade e segurança quando na maior parte das vezes ficavam pior do que nos seus países de origem. Clara Ferreira Alves encontrou muitos desses emigrantes em pequenas cidades do interior de muitos dos estados. O sonho americano que eles imaginavam que iriam encontrar naquele país não chegara a concretizar-se. A autora analisa, investiga as possíveis razões e leva-nos a percorrer como era a América nos dias de Reagan, dos Bush, de Clinton, mesmo de Obama e até como vai ela com o actual Trump. Assistimos ao verdadeiro desenrolar dos episódios conhecidos durante esses vários mandatos. Mas esta obra consegue descrever-nos com a exactidão da veia jornalística, não só o como, mas também a razão porque aconteceram as inúmeras cenas que apenas todos nós conhecíamos das notícias que foram sendo divulgadas durante todos esses anos. E sem qualquer sombra de dúvida é possível concluir como afinal estas cenas da vida americana nos revelam ser sempre o poder do dinheiro dos mais ricos que, como sempre, acaba por vencer e deixa sem o mínimo conforto os que não conseguiram alcançar o ambicionado sonho americano, velhos vagabundos, drogados, negros e brancos desempregados e também mulheres. Mulheres, muitas mulheres sem família, sem filhos, que os maridos abandonaram para tentar qualquer outro caminho que aquela América lhes negou, deixando-as em perfeita miséria, sujeitas aos piores sacrifícios que nunca pensaram ter de suportar. É verdade que a autora não nega, como afirma peremptoriamente, que a América salvou a Europa em momentos da história em que tudo parecia ruir neste nosso continente. E de tal modo isso foi verdade que o século XX chegou a ter o nome de século americano. Em Nova York persiste uma vida turbulenta que nos dá a ideia de que tudo vai bem. As grandes salas de espectáculo enchem-se das elites que sempre persistiram. E os bons restaurantes não faliram, pelo menos por enquanto. É lá que uma certa gentalha se reúne para combinar as grandes fraudes. Central Park ainda existe. Aliás sempre existiu. Mas de dia é uma coisa diferente do que ali se passa de noite. Não é seguro. Por lá proliferam os vagabundos e assaltantes. Nós próprios assistimos a isto quando lá estivemos certa vez em serviço. E já havia gente sentada nos degraus das portas de saída de muitas casas, estendendo a mão, pedindo uma esmola que cairia ou não no chapéu colocado à sua frente. Assistimos a isto em muitas ruas não muito longe do centro de Nova York. Também eu fiquei desiludido nesse tempo, antes dos anos que Clara Ferreira Alves nos conta nesta sua obra que reúne muitos dos artigos que publicou desde 1980. E parece que no essencial nada mudou. Estas suas “Cenas da Vida Americana” servem de facto para ficarmos a conhecer melhor o que é a América. Não conseguimos transmitir aqui com muito pormenor a mais pequena ideia de uma tão vasta história. Apesar do que nós próprios podermos ter visto, tudo o que sabíamos da América ficou agora totalmente transformado naquilo que constitui a verdade vivida por Clara Ferreira Alves. Claro que termina com a análise possível do que acontece presentemente com Trump, o homem que segundo ela “quer destruir o sistema, o amante da força bruta e da guerra total, o ditador dos media, o Goebbels de uma ópera bufa, a crueldade claramente vista”. Aconselhamos vivamente esta leitura.

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O “GRANDE JORNALZINHO”
DA RUA
DOS CALAFATES
Pedro Foyos

Este “Grande Jornalzinho” é o “Diário de Notícias”. E nasceu na Rua dos Calafates. O livro é a história dos seus primeiros anos desde que aquela folhinha, saiu à rua a 29 de Dezembro de 1864, composta por alguns dos mais ilustres tipógrafos daquele tempo, concretizando o sonho do seu director Eduardo Coelho. Foi precisamente há 150 anos. Comprometia-se então, como aliás estava escrito numa pequena coluna, curiosamente à esquerda, e dirigida “Ao público”, a “interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e comprehensível a todas as intelligências” e mais adiante afirmando concisamente como aliás também prometia ser “um jornal de todos e para todos”. Livro profusamente ilustrado, com reproduções e desenhos que ilustravam nesse tempo alguns dos artigos antes de, a seu tempo, virem a ser substituídos pelas primeiras fotografias dos repórteres. E depois a mudança para o edifício da Av. da Liberdade, curiosamente após ter sido dado o nome de Rua do Diário de Notícias à Rua dos Calafates em pleno Bairro Alto. Enfim, um olhar criterioso, profundo, histórico, rico de imagens e factos para relembrar ou dar a conhecer a muitos dos que nas últimas décadas não se dariam conta do que foi essa jornada tão cheia de grandes personalidades da literatura e da arte desse tempo que podemos agora acompanhar com todo o pormenor. E quem melhor do que um homem como Pedro Foyos, grande jornalista com uma notável carreira profissional, tendo integrado a chefia da Redacção do "Diário de Notícias", após catorze anos como redactor do "República" (único diário de oposição à Ditadura, dirigido pelo democrata Raul Rego), escritor de várias obras, não só da historiografia da imprensa como também de ficção, director de várias revistas periódicas, nomeadamente de fotografia, para nos dar esta “obra deliciosa e didáctica” nas palavras de Ernesto Rodrigues, “magnífico e tão necessário relato para a nossa memória colectiva”, segundo a jornalista e escritora Edite Esteves? Arriscamos dizer que, tal como está delineado, o rigor e a forma como nos descreve no essencial dos pormenores, na identificação de lugares e de grandes personagens que se cruzaram na intensa vida deste grande jornal diário que começou a ser vendido por dez reis, uma simples moeda daquele tempo, e que, tal foi o interesse com que foi recebido, quase duplicava a sua tiragem dos primeiros 5.000 exemplares para os 9.600 ao fim de um ano, não conhecemos ninguém que igualasse esta proeza jornalística. O autor descreve o ambiente que rodeava o aparecimento do “Grande Jornalzinho”, como foi designado pelo escritor Bulhão Pato. 
Não esqueçamos que se vivia a Monarquia com o Rei Dom Luiz, só uma minoria de vinte por cento da população urbana estava alfabetizada mas para esses a compra daquela nova publicação diária, se bem que a sua compra constituísse um acto de certo modo social, era também o acesso ao prometido mundo cultural que se anunciara no acto inaugural e ao relativo conhecimento da actualidade dentro e fora do país, pois apenas uma década passada e aparece pela primeira vez e na primeira página um mapa do Theatro da Guerra Russo-Turca. Aparece o verdadeiro jornalismo gráfico com as primeiras reportagens ilustradas por meio de desenhos. E esse foi um esforço conseguido pelos responsáveis da redacção e seus colaboradores. A leitura desta obra, acompanhada pelas ilustrações desse tempo e depois as fotografias passadas a desenho, mais tarde à sua própria impressão marcando a chegada dos repórteres fotográficos ao mundo da imprensa diária, torna-se uma viagem fascinante que acompanhamos com redobrado interesse. Quase conseguimos assistir, em directo, ao que aconteceu na redacção do jornal quando, já fechada a primeira página, a notícia do regicídio lança um verdadeiro alvoroço entre jornalistas e tipógrafos (não esquecer que se vivia ainda na época das letras de chumbo alinhadas cuidadosamente para se proceder à impressão gráfica). Mas o jornalzinho acabou por sair à rua ostentando no cabeçalho o “Gravíssimo attentado contra a família real”. Recorda-se a criação dos jornais infantis lançados pela administração. Pessoalmente, vou recordando um pouco da minha infância. Mas não só. Algo me liga também a esse tempo, até porque o director do “Cavaleiro Andante”, o escritor e poeta Adolfo Simões Muller, é de certo modo meu familiar. Vamos assistir também à aparição do ardina na cidade, os rapazes que distribuíam os jornais, correndo pelas ruas, subindo às encostas, a todos levando as últimas notícias. Pedro Foyos reserva também algumas riquíssimas páginas para nos dar, desde 1865 com o “Assassinato do Presidente Lincoln” a 1933 quando a “Fina Flor da Sociedade Portuguesa vem de longe para visitar a Feira do Campo Grande em Lisboa”, uma série de pequenas e grandes notícias que talvez estivessem perdidas no tempo se não estivessem agora aqui reproduzidas, todas elas acompanhadas das respectivas ilustrações desse tempo, assim como do seu descritivo temporal feito agora pelo autor. E isso também faz deste livro um documento valioso para a história do Jornalismo em Portugal. Mas a pérola, ou - como é costume dizer-se - a cereja no cimo do bolo, ainda fica reservada para o final, onde podemos ler uma curiosa entrevista póstuma a Eduardo Coelho, cofundador e primeiro director do “Diário de Notícias”, da autoria de Maria Augusta Silva, jornalista e escritora de reconhecidos méritos, esposa de Pedro Foyos, resultando de uma proposta feita em 1984 ao director Mário Mesquita e que a insigne jornalista consegue dar-nos, após pesquisa e consulta a inúmeros textos do primeiro director do Jornalzinho, neles se baseando para ser, ao invés do habitual, conduzida às perguntas que lhe deveria fazer. Espero ter conseguido demonstrar, com a minha humilde análise a esta obra, o interesse que ela representa no panorama literário português, o seu valor e quanto merece ser lida e apreciada.



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AUSCHWITZ – UM DIA DE CADA VEZ
Westher Mucznik

Auschwitz nunca mais! É este tipo de frase que apetece dizer, aliás utilizado em diversas ocasiões quando queremos expressar o nosso desejo de que determinados acontecimentos não se repitam. E quando neste caso, essa palavra maldita significa um dos maiores horrores que os homens praticaram, levando ao sofrimento e à morte de mais de um milhão de pessoas, homens, mulheres e crianças, vivendo os seus últimos dias – se é que a isso se pode chamar viver – sujeitos às maiores privações, desde a fome às torturas, espancamentos, sem qualquer tipo de assistência mas muito deles fazendo parte ainda de diabólicas experiências médicas, que os conduziam a males ainda maiores, quase duvidamos que essa gente que originou o gigantesco holocausto, na tentativa de destruir os que não eram da sua “raça” ariana, eliminando sobretudo judeus e ciganos, pudesse pertencer à espécie humana. Nunca na história da humanidade se perpetraram tais crimes, tão numerosos e com tanta violência. Os relatos que nos chegaram, através dos sobreviventes, ao longo dos anos que se seguiram à sua libertação, deram-nos a conhecer a forma como tais crimes eram cometidos, o que se passava nas câmaras de gás, nos esgotantes trabalhos forçados para ajudar a força de guerra nazi, nas casernas onde se amontoavam no total desconforto como se de animais se tratassem, centenas de presos, muitas vezes sem saber se estariam vivos no dia seguinte. Mas cada testemunho que nos chega, cada história contada, cada retrato da miserabilidade a que foram sujeitos esses muitos milhões de seres humanos é sempre algo que nos revolta ainda mais. Se é que é possível ser maior a revolta que já sentíamos. No passado dia 27 de Janeiro cumpriu-se mais vez o que está estabelecido para comemorar de 10 em 10 anos a libertação de Auschwitz em 1945. Foi há 70 anos portanto que o Exército soviético entrou pelo chamado Portão da Morte para retirar os poucos sobreviventes que ainda ali se encontravam depois dos nazis terem levado a quase totalidade, muitos deles acabando por morrer nas marchas de retirada. Nesta cerimónia, que contou com a presença de 11 líderes de países europeus e delegações de mais de 40 países, assistiu-se pela televisão à forte carga emotiva com que reagiram naturalmente os cerca de 300 sobreviventes que ali voltaram para prestar a sua homenagem, muitos deles a familiares e amigos mas não só, a todas as vítimas que perderam a vida naquele conjunto de campos na região sul da Polónia. E, tal como foi salientado pelos oradores, os próximos aniversários não contarão certamente, devido à sua avançada idade, com o número de sobreviventes que ali estiveram desta vez. Foram as suas vozes e de outros que já partiram que nos permitiram conhecer até que ponto foi possível tal capacidade humana para a extrema humilhação, desprezo e genocídio de outros seres, biologicamente seus iguais mas diferentes nas suas crenças ou religiões. E é aqui que todos devemos centrar a nossa atenção. É necessário não esquecer, não esquecer nunca, lembrar nas escolas e nos livros, para que passe de geração em geração e possamos garantir com toda a certeza: Auschwitz nunca mais! Também nós próprios desejámos trazer aqui mais um livro que saiu nestes últimos dias precisamente nesse contexto. Para que não se esqueça. E mais uma vez, reparámos que afinal ainda não sabíamos tudo. O que a autora, aliás já com outras obras publicadas sobre Auschwitz, nos faz chegar em relatos não só de certo modo reunidos pelas características do conteúdo em locais determinados mas também cronologicamente organizados de modo a ser conseguido um historial dos factos desde o nascimento destes campos até ao momento da libertação. Perante todo o potencial de sofrimento e dor é também a luta pela sobrevivência, abortar a gravidez para não morrer mãe e filho(a), até mesmo escolher entre a morte de dois ou apenas um, praticando o crime de que mais tarde virão a sentir remorsos. É reagir por vezes, lutando pelo que parece desnecessário face à morte anunciada para salvar a faculdade de ser alguém, onde a cada dia em vez de um “…preferia morrer” (…) decidir “lutar para sobreviver”. Da primeira à última página, adquirimos uma estranha vivência de tanto sofrimento e tanta dor, atingindo a suprema humilhação que desce ao mais imundo do carácter de quem a perpetrou. E o que agora lemos só foi possível porque existem pessoas como a autora, aliás com responsabilidades em vários organismos que se dedicam a perpetuar a memória do Holocausto, que responderam ao pedido feito pelos sobreviventes: “Não nos esqueçam!”. Não esqueceremos nunca, assim o creio. E, se outras razões não existissem, bastaria isso para dar também este meu humilde contributo de aqui deixar o convite para que leiam este livro de Esther Muchznik. Como é hábito vai ser possível proporcionar ao visitante deste espaço a leitura de alguns excertos dele. E posso afirmar que nunca me foi tão difícil a escolha. Porque na verdade todo o livro merece ser lido. Há mais, muito mais para ser conhecido. Bem-haja quem nos permitiu que assim fosse.


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QUERENÇA
Fernando Correia da Silva

Fernando Correia da Silva, o meu grande amigo Fernando, autor de assinalável obra literária e poética, merecedora dos elogios de grandes nomes do nosso meio artístico-literário como por exemplo António José Saraiva, está hoje aqui presente pelas piores razões: deixou-nos, à família e aos amigos, no passado dia 18 de Julho. Já há muito tempo que ele devia figurar aqui mas como várias vezes tenho afirmado não me é possível colocar neste espaço todos os livros e autores que gostaria nele figurassem. E para além da falta de tempo para o fazer numa modesta análise minimamente correcta, tenho dado preferência às edições ou reedições mais recentes. E apesar de uma importante actividade literária que Fernando Correia da Silva mantinha regularmente desde que em 1998 criou o site Vidas Lusófonas (clique e visite), sendo responsável pela coordenação de 169 biografias de vários autores nacionais e estrangeiros, em muitos casos escritas por ele próprio com uma originalidade que lhe era peculiar, publicara o seu último romance em 1996. E assim apesar de ter pensado por várias vezes colocar aqui alguns dos seus livros que estão em lugar de destaque numa das minhas estantes, o tempo foi passando até que o inesperado aconteceu. Tínhamos falado uma semana antes, recordando até a coincidência da nossa idade. A propósito do seu aniversário a 28 de Julho, cerca de um mês antes do meu, ainda me atirou a costumeira frase “Muito respeitinho pois sou um mês mais velho do que tu”. Sempre bem-disposto, nada faria antever o que se passaria. A nossa amizade nasceu em Campo de Ourique, quando da entrada para o primeiro ano no Liceu Pedro Nunes. Camaradas de turma, logo se iniciou uma amizade que iria manter-se nas actividades extra-escolares, entretenimentos e excursões, culminando na adopção dos mesmos ideais que cedo nos levaram ao MUD Juvenil. Cedo começariam as perseguições da PIDE que, ao contrário do que lhe aconteceu a ele, não conseguiam encontrar-me devido à diferença entre o meu nome familiar e o oficial. Preso em Caxias com 17 anos, viria a publicar dois anos depois COLHEITA,
que logo me ofereceu, um livro de poemas nos quais apresenta já muito das suas preocupações de carácter social, ao mesmo tempo que se compreende porquê futuramente na sua obra literária haveria de sempre coexistir uma forma algo poética de se exprimir. O Fernando não poderia nunca deixar de ser ele próprio, juntando, como poucos o souberam fazer, o coração e a razão, o que gostaria de ser e a realidade do que tinha de ser, o eu e o não eu, os outros, sempre os outros. E por isso coloco hoje aqui o seu romance que no meu entender melhor o define. Em QUERENÇA, que mais tarde viria a ser adaptado ao cinema por seu filho Edgar Feldman, Fernando Correia da Silva é ao mesmo tempo o autor e o narrador que criou como personagem principal. É que, curiosamente, Júlio Vera, o personagem é um contador de histórias que narra acontecimentos da sua vida, episódios e amigos da sua juventude e tem igualmente premonições de algo que virá a acontecer. E aqui e ali as palavras correm com um fervor poético. Júlio Vera joga com elas como se de poesia se tratasse. O autor está dentro e fora da Querença, aquela querença que é afinal o seu território ou foi e será. E se ao analisar o personagem-narrador que Fernando criou, foram muitos os que viram neste seu romance algo de auto-biográfico, como aliás se intui dentro da própria narrativa ficcionada, nele acontecem também nomes e personagens reais com os quais o autor conviveu. E não seria apenas O’Neill, Agostinho Neto ou Pinto de Andrade com os quais se cruzam em Lisboa a personagem de Querença e o autor que poderiam criar a suposta verdade. Leio Júlio Vera e estou ao mesmo tempo a ouvir as palavras que muitas vezes escutei deste meu grande amigo, fossem elas durante umas voltas pelas ruas de Campo de Ourique, sentado num café da Ferreira Borges ou num banco do jardim da Parada. Da situação política que atravessávamos, nosso tema preferido, lançava de repente com o seu costumeiro humor qualquer pergunta que envolvesse uma pequena aventura dos nossos tempos de juventude: Lembras-te Gil de como conseguimos a malhadinha, aquela pomba que querias para o teu pombal? (eu era aficionado columbófilo e ele ajudava-me a manter a bicharada). Na vida como na escrita, as revessas como ele as intitula em Lianor ou no Mata-Cães, outras das suas obras, são constantes. Tão rapidamente estamos ou, melhor, está no agora como recua dezenas ou centenas de anos para vestir a pele de Colombo ou Gama. Entre o que desejou ou foi e o que já não é porque afinal não aconteceu como previa, existem muitos acontecimentos que somos levados a repensar porque deles fomos testemunhas ou nos ensinaram de maneira muito diversa. Heróis que não o foram de facto, almas caridosas que apenas exerciam o seu poder sobre espíritos inocentes para mais facilmente os escravizarem, um mundo e uma história que não é, nunca foi, aquele em que mesmo os homens que chegaram a ser considerados seus defensores se reconheceram mais tarde as naturais imperfeições humanas. Fernando Correia da Silva, sendo o criador e a criatura que faz parte dos seus romances, consegue a estranha magia de ser um perfeito analista político que nos revela factos que a ele são exteriores mas nos quais tomou igualmente parte. E consegue tudo isso com extraordinário rigor, numa forma que nos prende da primeira à última página de cada um dos seus romances, onde se destacam o rigor, a crítica e até um certo bom humor que o caracterizava também na vida real. E por isso a sua obra, o criador e a criatura como Júlio Vera na Querença, transmitem-nos a noção de que a natureza humana é inalterável e de que apenas podemos acreditar numa utopia: será que um dia a humanidade atingirá a igualdade fraterna e universal? Queremos acreditar que acontecerá. Por isso e para isso vivemos e o recordamos quando lemos as suas obras. Fernando Correia da Silva está dentro delas.

Para ler um excerto de QUERENÇA e um poema de COLHEITA, o primeiro livro do autor, clique aqui

1974 - O Ano que começou em - ABRIL

António Luís Marinho
e Mário Carneiro

Mais um dos muitos livros que assinalaram as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril havia que colocar neste meu espaço onde já estão igualmente as capitãs de Abril. E mais uma vez, pelas mesmas razões. Tal como no anterior existia uma locutora/apresentadora, desempenhando funções idênticas às minhas, também nesta obra que hoje aqui deixo, ela se identifica com a profissão que exerço. É da responsabilidade de dois jornalistas, António Luís Marinho e Mário Carneiro, baseando-se nos excertos retirados de dois prestigiados órgãos da comunicação social:
Diário de Notícias e a Revista Flama, por coincidência dois em que também eu próprio colaborava regularmente, como jornalista que sou. Existe também portanto uma razão que me levaria, se outras não existissem – e é claro que existem – para aqui trazer outra das muitas obras que então se publicaram a respeito do 25 de Abril.
E de facto, como os autores salientam no prefácio, “se o 25 de Abril não tivesse acontecido naquele ano de 1974, este ficaria na História por outras e muitas variadas razões, desde as muitas celebridades que nele nasceram entre os quatro mil milhões que marcavam o também Ano Mundial da População, aos casos mediáticos da Índia se ter tornado a sexta potência nuclear do Mundo ou de um senhor desconhecido ter inventado aquele papelinho amarelo que se chama post it ou ainda de um outro que ao passar com a mão na areia da praia inventou o chamado código de barras que pela primeira vez foi experimentado e lido num pacote de pastilha elástica. Mas para todos nós, portugueses, 1974 foi o ano em que Abril nasceu ou melhor, como dizem os autores deste livro, “… o Ano que começou em Abril”. E a expressão está mais que correcta porque Abril era desde há muitos anos desejado e esperado pelo povo. Vivendo sob uma ditadura violenta que lhe retirava todos os direitos, desde a saúde à educação, martirizando e torturando aqueles – e foram muitos – que lutavam para derrotar esse regime, a grande maioria da população portuguesa esperava que numa qualquer madrugada, esse Abril nascesse. E essa grande alegria, que viria a devolver-nos a liberdade tão esperada, aconteceu exactamente numa madrugada do ano de 1974.
Tudo aconteceu, como se fosse de há muito minimamente preparado. A muitos terá parecido fácil. Foi a revolução dos cravos. Uma revolução de flores, onde não foi necessário que as armas disparassem. Um cravo no cano de uma espingarda tornou-se um símbolo que haveria de fazer nascer sorrisos nos rostos por onde tinham passado muitas angústias e corrido muitas lágrimas. Eu próprio sentira no seio da minha família as garras da Pide que numa das muitas vezes em que o meu Pai fora preso, esteve um mês encerrado na prisão da Torre do Bugio, com água até aos joelhos. E também comigo, a aventura principiaria bem cedo, antes das perseguições que a polícia política haveria de fazer a alguém cujo nome, não totalmente fictício, não aparecia exactamente do mesmo modo nos registos do Liceu ou da Faculdade. Mas isso é outra história que um dia talvez venha a contar. Apenas com três anos de idade, uns polícias pidescos retiraram-me do berço onde dormia, altas horas da noite, na nossa casa de Campo de Ourique, pensando que nela iria decorrer uma reunião e que debaixo dos lençóis alguém mais importante do que a criança que eu era estaria escondido. Mas voltemos a este livro que vai ficar como documento completíssimo de todo esse período que começa em Janeiro e termina em Dezembro de 1974, pleno de fotografias e notícias dos referidos Jornal e Revista, evocando na devida altura a grande história do nascimento de Abril, o antes e depois do grande dia 25, que todos nós não esqueceremos nunca mais.
O modo como os dois autores resolveram apresentar as imagens e excertos recolhidos dos ficheiros da Biblioteca Nacional, juntando-lhes os devidos comentários e descrições ao longo das cerca de 400 páginas que constituem este livro, permitem-nos de uma forma extremamente eficaz mas ao mesmo tempo simples, reviver o antes e o depois daquele período que foi considerado por muitos analistas internacionais um dos mais extraordinários exemplos de como um país se consegue libertar do atroz sofrimento a que esteve submetido durante largas décadas perante um poder absoluto onde reinava um ditador que envelheceu numa cadeira, rodeado apenas de alguns poucos amigos que alimentava com mordomias várias mas que a ele obedeciam cegamente, seguindo as suas ordens desumanas e terríficas. Este livro é o retrato fiel de como vivíamos nesses meses que antecederam o 25 de Abril, no auge de uma guerra colonial que continuava a levar os nossos jovens para o além mar, em defesa de territórios onde os grupos de libertação eram chamados de terroristas, enquanto nesta pátria empobrecida imperava a exploração do trabalho infantil, se proibia tudo o que pudesse relacionar-se com o sexo ou a igualdade de direitos da mulher. Mas algo se preparava de facto e o livro de um general do regime causa sensação e atordoa os membros do governo. “Portugal e o Futuro” escrito pelo General Spínola era um desafio sério à política do governo. Mas para quem se tenha esquecido, ele confessaria depois numa entrevista à Televisão Francesa que não considerava que contivesse quaisquer divergências com a política portuguesa. É bom que seja recordado, como fizeram muito bem os autores. E depois, tínhamos também as célebres “Conversas em Família” nas quais Marcelo Caetano tentava convencer-nos de que tudo estava a correr pelo melhor ou de que a sua política estava ao lado do povo. Não era assim de facto. E o povo saiu à rua, juntamente com o movimento dos militares de Abril, para o retirar e à sua equipa do Quartel do Carmo onde se tinham refugiado. Relembra-se também nestas páginas o que foram as comemorações do dia 1 de Maio na Alameda Afonso Henriques, juntando mais de um milhão de pessoas, comparadas, segundo escrevia o DN, às que marcaram a célebre libertação de Paris. “1974 – o Ano que começou em Abril” fica de facto para a história como documento único que marca de forma excepcional, através dos registos documentais, um ano memorável para o nosso país.

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UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS
A Ciência como uma Luz na Escuridão
Carl Sagan
Ed. Gradiva
Para que ninguém se assuste, o subtítulo é colocado também na capa (tal como aconteceu na edição original). Carl Sagan, o professor, cientista e investigador que certamente todos recordam, pelo menos pelo seu livro Cosmos, (que se seguiu à série de televisão homónima, vencedora de um Emmy e de um Prémio Peabody) considerado o livro de divulgação científica em língua inglesa mais vendido de sempre, vem precisamente nesta sua obra denunciar a ideia de que o mundo esteja infestado de demónios. Prémio Literário Los Angeles Times para Ciência e Tecnologia, ele desmonta toda uma série de mitos que ao longo dos tempos e mesmo no presente têm servido, por vezes com as mais malévolas intenções, destinadas a dominar as mentes mais desprotegidas do conhecimento. E é precisamente a ciência que tem sido essencial para resolver as possíveis dúvidas. Num exemplo muito simples que ele cita numa das páginas, a rotação do girassol de acordo com a posição do astro-rei foi considerada noutros tempos um milagre natural. Até que a ciência descobriu que o movimento da flor do girassol é devido a um tropismo, isto é, deve-se a um movimento que é executado através de acção hormonal que acontece na própria planta e orientado em relação a um estímulo externo, neste caso a luz solar, chamado fototropismo. Carl Sagan percorre nas páginas do seu livro os diversos períodos da nossa história e vai descrevendo os vários demónios que foram criados, ou melhor, inventados pelos homens. No mundo antigo, a crença nos demónios era generalizada. Ele relembra a própria crença existente em grandes figuras como Sócrates ou o seu discípulo Platão que consideravam que a sua criatividade tinha origens demoníacas. E até Aristóteles aceitava que os sonhos tinham origem em demónios. Que dizer então da gente simples dos povos dessas épocas? As figuras demoníacas estavam presentes para onde quer que se voltassem. E os demónios e os mitos foram ficando. Mesmo à medida que o tempo passava e alguns desapareciam, logo outros tomavam o seu lugar. O autor vai citando com enorme precisão os mais variados documentos histórico-culturais em que baseou o seu estudo. E assim vamos percorrendo o caminho da criatividade demoníaca. É espantoso como crenças ou religiões de todos os géneros sentiram necessidade de criar entidades, pretensamente maléficas, para justificar o que não era ainda compreensível ou não tinha sido descoberto. E não foram poucos os que chegaram a espalhar como credível aquilo em que eles próprios não acreditavam. Razões muito obscuras para eventualmente exercerem domínio sobre os seus seguidores. Tudo isso é analisado com muito pormenor e com a referência às obras consultadas pelo autor ou à sua experiência pessoal. E desse modo conclui que não é de admirar que a ideia tenha prevalecido e até ainda subsista hoje em algumas das pretensões da chamada pseudociência. Carl Sagan aborda com muita profundidade o caso dos discos voadores, óvnis e extraterrestres que falsos cientistas chegaram a defender. Lembra-nos as estranhas visões presenciadas por muita gente nos mais diversos locais do mundo, mas sobretudo na América, que constituem um prolongamento da ideia da existência de demónios pois se alguns, como o célebre “ET”, não tinham más intenções, outros teriam vindo anunciar catástrofes mundiais e até mesmo o fim do mundo. Por mais estranho que nos possa parecer, a tendência para a irracionalidade criativa persiste. E apenas a verdadeira ciência a poderá combater. É a tal Luz na Escuridão. Por isso o autor aproveita também para falar no modo como hoje em dia se processa o ensino e se preparam as mentes dos jovens. Muito do que se passa nos tablóides ou é difundido por noticiários sensacionalistas pode ter, esse sim, um efeito maléfico para o aparecimento de futuras superstições. Mas o oportunismo político continua a deixar que esse aparatoso divertimento tenha lugar. Em nome da paz defende-se o nuclear. E este é um demónio da era moderna. Enfim, da invenção de Satanás aos testemunhos visionários do monstro de LochNess ou à defesa do nuclear, o caminho é necessariamente longo. Não nos é possível aqui descrever a variedade enorme e surpreendente dos casos citados. Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford e grande escritor de divulgação científica britânico, escreveu que “recorrendo a um manancial de referências históricas e culturais, assim como à sua vivência pessoal, Sagan demonstra com enorme clareza e rigor que a tentação da irracionalidade é não apenas um erro cultural crasso como um salto perigoso para a escuridão, que põe em risco as nossas liberdades mais básicas”. E como Sagan não deixa de referir com grande insistência a actualidade das tecnologias que endeusam actividades como o nuclear, Dawkins interroga-se se não “estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição”. E até confessa que gostaria de ter sido ele a escrever este livro. Como não foi, diz que o mínimo que pode fazer é aconselhá-lo aos seus amigos. O mesmo convite dirigimos nós aos que nos estão a ler neste espaço.

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A Medicina e a Música
Armando Moreno
Ed. Medilivro

Mais um livro do Professor Armando Moreno que temos o enorme prazer de saudar. O título que o autor dá a esta sua obra relaciona mais uma vez a Medicina, que ele naturalmente domina como médico de excelência que sempre foi, com algo de importante na história da humanidade. De facto, desde os tempos mais primitivos que a Música tem sido uma das Artes a que o homem se dedicou e tem sido ao longo dos séculos uma forma de expressar os seus sentimentos e reproduzi-los em sons, com maior ou menor harmonia mas sempre apreciados, mesmo que diversamente, por quem os ouve. Na sequência do processo utilizado no seu anterior livro “A Medicina e as Mitologias”, presente também neste espaço e que reuniu um merecido êxito da parte do público leitor, Armando Moreno apresenta A Medicina e a Música efectuando, como ele próprio escreve, uma viagem ao admirável mundo dos sons naquilo a que pode chamar-se um casamento entre essas duas actividades, a médica e a musical. Provado que está e observando que os médicos procuram entregar as suas horas de lazer à criatividade artística, eles chamam a si o protagonismo na literatura e nas artes plásticas enquanto que na Música eles são o epicentro atractivo para motivos médicos. De facto, nomeadamente durante o romantismo, a doença está presente em muitas das Óperas mais apreciadas. O médico Armando Moreno que frequentou um curso no Conservatório de Música do Porto, está portanto, mais do que qualquer outro analista, habilitado para o estudo das relações entre a Medicina e a Música. Mas se pode julgar-se que essa faceta seria apenas o relato de ocorrências várias ao longo da História comum, o autor vai muito mais além. Ele analisa de forma ao mesmo tempo crítica mas construtiva o diálogo possível entre essas duas actividades. E ficamos maravilhados mais uma vez, tal como já acontecera com a Medicina e as Mitologias, com aquilo que nos desvenda sobre as ligações e as razões que podem ter originado o nascimento de muitas das obras musicais, quer relacionadas com o próprio tempo ou época em foram apresentadas quer do próprio entusiasmo ou não como foram recebidas da parte do público de então. Não esquecer também a importância didática desta obra, na qual deparamos para além de uma verdadeira história da Música e sua evolução, não só a erudita como a popular, a Música de capa e batina, a Música de filmes e, entre outras secções, como não podia deixar de ser, a Musicoterapia. Todos estes temas são intensamente documentados de uma forma que só um autor que não desdenha um trabalho exaustivo na procura dos elementos mais completos para nos oferecer conclusões credíveis e sérias, como acontece com este reconhecido professor universitário, apreciado pelos seus pares e pelos seus alunos, nos poderia dar. São abordadas biografias, nomeadamente de compositores e instrumentistas que foram vítimas de doenças várias e não basta lembrar a surdez de Beethoven que – e isto dizemos nós - apesar de não lhe ter sido possível ouvir a execução de algumas das suas últimas obras diria momentos antes de morrer: “A vida é bela. Desejaria vivê-la mil vezes”. Armando Moreno conduz-nos pela via do conhecimento profundo que tem destas duas actividades, a medicina e a música. E isso é um privilégio que desejou não guardar para si. Expõe-nos as suas análises com a clareza que sempre caracterizou os seus estudos de divulgação a que não serão estranhos os prémios recebidos por trabalhos de investigação onde usou certamente do poder convincente das conclusões a que chegara. O autor não necessita portanto dos elogios que lhe poderia fazer quanto às suas variadas actividades no domínio da divulgação e da docência. O seu nome é um exemplo na história da Medicina em Portugal, juntando entre as suas obras mais elogiadas “O Mundo Fascinante da Medicina” (12 volumes) e “Médicos Escritores Portugueses” (3 volumes). Que mais poderíamos dizer, se é que tal fosse necessário, para aconselhar a leitura desta obra que agora figura entre as mais destacadas da actual criatividade literária.

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A ÚLTIMA TESTEMUNHA DE AUSCHWITZ
Denis Avey
com Rob Broomby

Clube do Autor

O autor viveu de facto os episódios trágicos descritos neste seu livro que escreveu em conjunto com o jornalista britânico do BBC World Service que fora em tempos correspondente em Berlim. Denis foi feito prisioneiro de guerra e de acordo com a Convenção de Genebra ficou num campo especial criado pelo regime nazi para o exército inimigo. Estava no entanto muito próximo do de Auschwitz e foi-lhe fácil constatar como eram tratados os judeus ali encarcerados, forçados a trabalhar até já não terem forças e conduzidos depois para as câmaras da morte. Ora não é de estranhar que Denis tenha sido distinguido numa recente cerimónia como um dos 27 heróis britânicos do Holocausto. Muitos de nós recordamos ainda de tudo o que soubemos sobre as perseguições e atrocidades dantescas cometidas pelo governo alemão durante a segunda Guerra Mundial. O Holocausto nos campos de concentração para judeus foi uma dos episódios mais vergonhosos levados a cabo pelo nazismo. Muitos de nós recordamos os filmes que foram feitos sobre esse período de verdadeiro horror na história recente da Humanidade. Conhecemos os nomes de muitos dos que lutavam para conseguir a fuga e a liberdade para o ocidente de homens, mulheres e crianças em permanente perigo de vida. Aristides Sousa Mendes que foi cônsul de Portugal em França, durante a ocupação, desafiou o governo português e salvou a vida de milhares de pessoas, das quais cerca de 10 mil judeus, tendo sido chamado de "o Schindler português", outro diplomata alemão que também salvou muitas vidas dentro de a própria Alemanha. Também conhecemos e lemos o célebre Diário de Anne Frank. O que nos conta Denis Avey é como, enquanto vigiava cuidadosamente o que se passava no campo vizinho de Auschwitz, conseguia ter uma vaga ideia do que ia acontecendo aos prisioneiros judeus. E por isso mesmo, no desejo de tomar pleno conhecimento daquilo que lhe chegava aos ouvidos, acabou por infiltrar-se no outro campo e trocar a sua espécie de farda pelas vestes de um judeu que se encontrava em perigo de vida devido à sua debilitante condição física e aos laços familiares que ao mesmo tempo o prendiam ao exterior. Com essa atitude, acabaria por salvar a vida do judeu mas viveu ele os horrores dos dias passados junto aos corpos dos que iam sendo enterrados meios vivos ou das cinzas que saiam das câmaras de incineração. Mais um livro sobre o Holocausto, poderão dizer alguns. Mas trata-se do relato dos horrores passados e funcionam como testemunho vivo daquilo que presenciou que aqui retrata. É talvez compreensível que não seja agradável reler ou voltar a relembrar o que se passou. Mas também convém que tudo isto não seja esquecido. Trata-se de um relato envolvente. Tudo ali foi vivido. É verídico. Uma obra a não perder para que a humanidade não volte a viver este tipo de episódios que colidem com os direitos fundamentais do Homem e com a dignidade da nossa existência, no respeito pelas ideias de cada um, contra a opressão e o racismo.

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A CASA DA SABEDORIA
Jonathan Lyons
Editorial Presença

O Autor conta a história da célebre Casa da Sabedoria, dos califas que a apoiaram e das pessoas que nela trabalharam, a um ritmo absorvente e vibrante. E de facto, é extraordinário como foi entre os árabes que nasceram as grandes descobertas científicas daquele tempo e que depois foram trazidas para o ocidente. Neste livro está bem patente que ao longo da época medieval, ao contrário do que acontecia na Europa, as mais variadas áreas da cultura, desde a filosofia à matemática e a astronomia eram estudadas e largamente desenvolvidas pelas mentes dos sábios islâmicos que não se cansavam de inovar e apresentar soluções para problemas que intrigavam a humanidade. Aproveitando-se de um célebre académico cristão, chamado Adelardo, que viajou largamente pelo Oriente com o propósito de aumentar os seus conhecimentos, o autor acompanha-nos numa viagem espantosa às fontes de sabedoria que se centravam naquelas paragens longínquas, nomeadamente a célebre Biblioteca real de Bagdad, conhecida de facto como a Casa da Sabedoria. Ali se reunia toda a vasta série de descobertas originadas no pensamento oriental. É notável como a língua árabe foi durante muito tempo aquela que permitia uma troca valiosíssima de saberes e obras primitivamente escritas em idiomas ocidentais eram de imediato traduzidas para o árabe. Não existe aqui, nem essa foi a ideia do autor qualquer aprovação dos desmandos de etnias radicais e fundamentalistas que hoje fervilham nessas regiões. É curioso, no mundo actual e na presente crise, que parecem ambas dividir o Oriente e o Ocidente, concluirmos que os povos do outro lado desta barricada que se tem formado entre um mundo e o outro, foram de facto os iniciadores de todo o conhecimento que depois foi desenvolvido deste lado em que nos situamos. E é pena que não exista a paz e entendimento suficiente para tentarmos viver, num respeito mútuo pelas tradições particulares de cada um, sem coarctar a liberdade e respeitando os mais elementares direitos humanos. Não fosse de facto a crise actual e as divisões a que estamos a assistir e seria com um prazer muito maior que aqui deixaria esta Casa da Sabedoria no meu Amor pelos Livros, lugar que de facto merece pela verdade que nos transmite e pelos ensinamentos valiosos que nos traz.

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A MEDICINA E AS MITOLOGIAS
Mitos antigos e modernos
Armando Moreno
Ed. Medilivro


A obra mais recente de Armando Moreno, o insigne Médico e Professor Catedrático da Universidade Técnica de Lisboa, vem acrescentar mais um trabalho à sua importante área de escritor a que igualmente se dedicou. Se é de realçar o seu curriculum médico nomeadamente na área da Ortopedia e respectiva cirurgia, com dezenas de trabalhos científicos e de investigação publicados, temos de salientar a sua extensa obra literária. E bastaria citar dois exemplos como O Mundo Fascinante da Medicina, em 12 volumes, e Médicos Escritores Portugueses de que foram feitos 12 episódios transmitidos pela RTP, onde também esteve presente noutras séries de programas, para ser de facto uma referência no meio médico nacional e internacional. A sua carreira de cirurgião ortopedista é bem conhecida pelas inovações criadas nesse domínio, em épocas onde eram raras tais intervenções com sucesso. Mas a sua bibliografia abrange também o romance, contos, poesia e teatro e vários ensaios literários. Conheço bem muitas das suas obras e têm um lugar seguro nas minhas estantes, amigos que somos, eu e o autor, diria mesmo mais do que amigos tão grande é a amizade que nos une, franca e leal. Mas mesmo que tal não acontecesse esta sua obra teria de ficar aqui “receitada”, já que de um médico-escritor se trata, ressalvando no entanto como ele próprio o diz na badana da capa que nela “o leitor não encontra descrições de patologias, muito menos de terapêutica”. A Medicina e as Mitologias é o resultado evidente dos seus conhecimentos na área da Medicina e de um exaustivo trabalho de pesquisa nos mitos da História Antiga e Moderna. O autor extrai da comparação entre o mito e o pormenor existente na realidade médica a sua conclusão lógica. A excelência dos comentários com que finaliza a sua análise, seja ela médica ou simplesmente social, é bem demonstrativa da personalidade do autor. Exímio na escrita como o foi na medicina, onde foi galardoado com prémios internacionais pelas suas intervenções, Armando Moreno não deixa de nos surpreender, aliando ao vértice da exactidão histórica a transposição para preocupações actuais de carácter humanístico e social. Dir-se-ia que estamos muitas vezes perante um historiador e um crítico. Como ele próprio afirma na Introdução “a finalidade dos Comentários, a propósito de cada Mito e de cada área médica, consiste, antes de tudo, em trazer para a modernidade os Mitos que, sendo representantes da tradição popular, se encontram, em muitos casos, vivos entre nós. Como interpretar nos nossos dias o Mito da Pandora? Que significado pode assumir o mito de Prometeu na vida moderna?” De facto, é na descrição e na sua análise que vamos surpreender-nos com temas e factos que estariam esquecidos por muitos de nós ou mesmo nos seriam totalmente desconhecidos. Se quase todos sabem o que significa o Calcanhar de Aquiles, onde se situa esse órgão no corpo humano e quem foi Aquiles, muitos não conhecerão porque era frágil aquela parte quase escondida do nosso pé. E também serão muitos os leitores que desconhecem a relação entre Poirot e a Anatomia do Pâncreas. São mais de 3 centenas de mitos que se estendem pelas Mitologias Clássica, Celta, Nórdica, Egípcia, Árabe e outras, como ainda ao culto mariano e santos populares que se estendem pelos 6 capítulos em que a obra está dividida abrangendo a Anatomia, Fisiologia, Cirurgia e outras especialidades médicas, assim como temas relacionados com a saúde.

De salientar ainda as muitas reproduções a cores de grandes obras da Pintura Universal, ilustrando naturalmente alguns dos mitos. Haveria muito mais razões para justificar a presença d’ “A Medicina e as Mitologias” e do seu autor Armando Moreno neste espaço de Amor pelos Livros. Na impossibilidade de enumerá-las todas resta-me a esperança de que, por falta do meu engenho, a análise simples que aqui faço seja suficiente para despertar o interesse dos leitores. Este livro tem ainda uma característica importante nos dias de hoje: é a possibilidade de o ir lendo de vez em quando, conforme a nossa disponibilidade de tempo, sem o perigo de perder a continuidade necessária numa história ou no enredo de um romance. Isto, embora estando cientes de que o entusiasmo pela novidade e pelo que vamos aprendendo nas mais de 400 páginas nos levará bem depressa a chegar ao seu termo.

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OS DONOS DE PORTUGAL
Jorge Costa, Luís Fazenda,
Cecília Honório, Francisco Louçã,
Fernando Rosas
Edições Afrontamento

Julgo que serão poucas as pessoas que possam interrogar-se sobre o que significa de facto este título, apesar de alguns dos seus autores serem bem conhecidos da vida Política e Universitária. Não vou portanto debruçar-me sobre ideologias ou tendências políticas de cada um deles. Estamos perante um trabalho que julgamos criterioso e honesto das relações entre a vida política e o capital. Se alguém tivesse dúvidas sobre o que é isto de existirem Donos de Portugal afirmando que donos somos nós todos ou o Estado, que somos nós, ou então que é isso de existir um governo que numa república democrática também não deverá ser dono desse país e portanto não deveria haver donos porque ninguém, pelo menos após o 25 de Abril, poderia ser dono de Portugal. Ora é precisamente aí que nos enganamos. Existem de facto diversas personalidades – se assim lhes podemos chamar – que são de facto donos do nosso país. Donos porque são eles afinal que detém o poder, que tomam decisões que nos afectam, que se colocam acima de qualquer outra entidade que até pode ter sido eleita para nos governar. E o curioso é que, como os autores muito bem o demonstram, tem sido sempre assim. E alguns dos donos actuais descendem mesmo de outros donos de algumas décadas passadas. Este livro apresenta-nos a história da acumulação da riqueza e do seu poder desde 1910 até ao presente. De como nasceu, como foi protegida, como se protegeram entre si, como efectuaram ligações matrimoniais para garantir ainda maiores lucros e mantê-los confinados a uma burguesia que foi engordando cada vez mais sem se preocupar com o facto de ter explorado o trabalho de outrem em seu único proveito. Claro que tal só foi possível através de favorecimentos e privilégios que lhes foram concedidos por razões óbvias de contrapartidas e compadrios que acabavam sempre por aumentar o número dos detentores desse poder sobre o país. Se antes do 25 de Abril, eles seriam em menor número, sofreram nos primeiros anos da revolução um ligeiro desaire mas regressaram em força e aumentaram de sobremaneira a sua capacidade de domínio, atingindo hoje um escandaloso número muito elevado de algo a que alguém já chamou – não é o caso deste livro – a máfia portuguesa. Dos tabacos às lotarias da finança, acumulando latifúndios cada vez mais vastos, foi ao longo das décadas um acumular de riquezas sem modernizar, que aliás dá o título ao capítulo II deste livro. Aproveitamento da mão-de-obra barata, tudo sob a complacência dos governantes. Decidi não citar aqui nomes bem conhecidos das várias famílias que enriqueceram e enriquecem actualmente, sendo-lhes permitidos todos os processos na sua ascensão que parece – e insisto que parece - não ter fim. Um dos autores, dirigente político de esquerda adiantou numa entrevista que "Os donos de Portugal são os donos dos governos”, “uma história permanente do apoio do Estado à formação da riqueza”. “É uma oligarquia financeira fortíssima, protegida pelo Estado, apoiada pelo Estado, financiada pelo Estado, vivendo de rendas do Estado, uma grande família que tem dominado Portugal ao longo de 100 anos”. As fortunas das famílias citadas neste livro – nomes bem conhecidos de todos nós – na banca, nos seguros, no sector auto, no cimento ou nos adubos, no imobiliário e no turístico, no grande comércio como no petróleo e por aí fora, são feitas por vezes através de cruzamentos entre elas, vendas e compras de acções, dinheiro que rende lucros de milhões de euros, ao passar de mão em mão, por vezes no espaço breve de alguns meses. No entanto não se conhece muito bem onde acaba por ir parar. Será que é mesmo dinheiro? Nomes que fizeram parte de recentes governos encontram-se à frente de grandes empresas, curiosamente em muitos casos ligadas ao estado. Inalamos um cheiro acre a pura corrupção. Os valores esquecem-se. E de facto parece que tudo se processa como uma continuidade que vem de há muto neste país, com ligações externas, claro, porque isso lhes convém. Dentro e fora, protegem-se uns aos outros. Esta obra, ao traçar como a força económica foi dominante ao longo de cem anos da nossa história, apesar de todas diferenças no contexto político recordou-me algo que muitas vezes me chega à memória recente onde aquele que a si próprio se denominou Presidente do Conselho e se julgava ser o único dono de Portugal, já permitia à sua volta alguns senhores da alta burguesia que enriqueciam os bolsos e que hoje ainda fazem parte de uma faixa de grandes fortunas que se tornou mais vasta e poderosa, pois o chamado capitalismo liberal o permitiu. Na minha modesta opinião, apesar das diferenças que encerram em relação naturalmente ao nosso estado democrático e a muitos outros países do ocidente, os recentes acontecimentos no Egipto e o despontar de outros semelhantes em países árabes seus vizinhos, demonstram que chega sempre um momento em que os povos resolvem erguer a sua voz e dizem “basta”. Abaixo os donos que lhes tiram tudo a que têm direito e não lhes é permitido. E mais ou menos pacificamente, se possível, o tempo acabará por chegar. Vale a pena conhecer “Os Donos de Portugal” e compreender como foi possível que eles se fixassem e se agarrassem como lapas à sua rocha dourada. A maré chegará um dia, que pode não estar assim tão longe, para os varrer.

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JARDIM REPUBLICA
Pedro Foyos
Editorial Hespéria

Não foi fácil a história dos momentos que se viveram antes e depois da implantação da Republica que este ano se comemora. Nem todos os conservadores se comportavam como o meu Avô que sendo monárquico e um médico ilustre que também ficaria conhecido como figura importante na luta pela autonomia dos Açores, pagava do seu bolso a um dos seus filhos, ainda durante os últimos tempos da Monarquia, a edição de um pequeno jornal clandestino defendendo a Republica, do qual era responsável o meu Pai, ao tempo estudante em Coimbra. Foram duras e acesas as lutas entre os conservadores e os reformadores livres-pensadores do novo regime implantado a 5 de Outubro. Mais ou menos conhecidas as diversas manifestações ocorridas, através de relatos publicados nos jornais da época, alguns assinados por figuras ilustres da nossa literatura, o escritor Pedro Foyos resolveu revelar um dos factos históricos talvez mais ignorado mas que ilustra bem a irracionalidade de certas motivações. O autor dos recentes Criador de Letras e Botânica das Lágrimas é um excelente investigador que não desdenha a sua faceta jornalística de renome e consegue juntar, numa obra, a documentação histórica e rigorosa com a ficção fantástica. O seu Jardim Republica é uma obra encantadora. E esta classificação estende-se ao fenómeno de a sua leitura nos encantar ao ponto de não pararmos sem atingir a última página. E se não fosse suficiente o facto de ser uma obra que enaltece o amor pela Natureza que nos rodeia, defendendo a sua preservação para garantir a vida na Terra, existe a magia do autor ao descrever o que foi a história pela criação do Dia da Árvore.
De facto, o culto da árvore marca de forma insofismável a transição do regime monárquico para a Republica. E conforme nos descreve Pedro Foyos, nasce um aproveitamento político para acusar os republicanos de uma idolatria ateísta pelos novos deuses e de odiosos destruidores da moral cristã. Figuras eminentes da cultura portuguesa tentam desmentir tais falsidades interrogando os conservadores sobre como foi possível imaginar que Deus tivesse criado a árvore para depois se arrepender.
Começando pela descrição ficcionada de como uns tantos inimigos da recente Republica lançavam o seu ímpeto destrutivo contra tudo o que era espécie vegetal e invadiam pela calada da noite os locais onde tinham decorrido as plantações integradas no recém-criado Dia da Árvore, o autor descreve como em pleno Jardim Botânico todas as plantas se organizam para derrotar os vândalos invasores. E depois deste seu conto fantástico, Pedro Foyos apresenta-nos na segunda parte desta obra uma série de documentos que são o verdadeiro testemunho histórico dos acontecimentos que foram consolidando as celebrações do Dia da Árvore e levaram já após o 25 de Abril à sua passagem para Dia Mundial da Floresta.
Assinalemos como factor que muito enriquece esta obra a cuidada ilustração a preceito para um conto fantástico e a reprodução de registos iconográficos de vária ordem publicados na época, tudo razões mais do que suficientes para recomendar a sua leitura como algo imperdível e por isso merecedor da nossa classificação em Amor pelos Livros.

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MANÍACOS DE QUALIDADE
Joana Amaral Dias
A Esfera dos Livros

“Portugueses célebres na consulta com uma psicóloga” é o subtítulo deste livro que justifica de imediato o porquê de existirem maníacos de qualidade. Eles são então célebres e portanto é suposto neles existir qualquer espécie de qualidade, seja ela cultural, política ou social. Mas ao mesmo tempo neles existem ou melhor foram reconhecidos no seu tempo pequenos ou grandes distúrbios mentais, levando uma vida que muitos analisaram e apelidaram das mais diversas formas. Joana Amaral Dias, figura mediática bem conhecida, licenciada em Psicologia Clínica, docente e terapeuta familiar, com vastos conhecimentos adquiridos pela sua experiência e pela presença assídua nos areópagos da especialidade, resolveu debruçar-se sobre a vida de alguns portugueses que entraram em diversos ramos da nossa história. De todos eles, desde D.Afonso VI(dado como louco), Marquês de Pombal (um obsecado ou desequilibrado) ou a Rainha D. Maria I (considerada doida), mas também Fernando Pessoa (preocupado com a sua sanidade mental), Antero de Quental(que se suicidou) e João César Monteiro (o cineasta excêntrico), alguma coisa portanto sabíamos sobre o seu comportamento mais ou menos estranho. Menos conhecidos como portugueses célebres seriam Ângelo de Lima e António Gancho. Perante uma lista considerável de grandes vultos da nossa história com assinaláveis perturbações psíquicas ou como tal considerados e sentindo a necessidade de efectuar uma escolha que tivesse uma representatividade para a finalidade que se propunha neste seu livro, Joana Amaral Dias decidiu-se por dois critérios. Em primeiro lugar todos eles deveriam possuir “indícios fortes de grande sofrimento psíquico” mas o conjunto escolhido deveria também preencher a necessária “diversidade” que permitisse abranger um vasto leque de uma certa tipologia apelidada por uns de desvios de personalidade e por outros de verdadeira doença psíquica. A loucura é um tema recorrente na história da humanidade sendo até muito comum dizer-se que “de génio e de louco todo o mundo tem um pouco”. Seria natural portanto que figuras mais proeminentes ficassem também conhecidas pelos seus eventuais actos de uma certa loucura. E tudo isso seria igualmente uma classificação de terceiros. A investigação cuidada de Joana Amaral Dias vai mais longe e na impossibilidade de sentar num divã as personagens do livro baseia-se não só nos muitos documentos históricos mas também registos biográficos e mesmo auto-biográficos, diários, cartas, etc. É um trabalho muito honesto e tanto quanto possível correcto sobre a verdade do que foi dito e escrito mas sobretudo – e isso é importante – do que teria sido sentido pelos personagens que chamou para este livro. Em certos casos – e sempre que tal foi possível - eles aparecem mesmo num discurso directo quase parecendo que estamos a assistir a uma sessão de psicanálise. Quase nos permitimos dizer que a autora assim o entendeu de tal modo os vultos estudados nos aparecem nas páginas que oferece à nossa leitura. Nada foi ignorado - ou muito pouco - do que disseram terceiros, que pudesse ter importância para a análise feita. Digamos que esta obra se lê com a consciência de que ficamos mais conhecedores dos actuais conhecimentos sobre o que se passa no universo da mente humana apesar de Joana Amaral Dias nos afirmar que poderão existir alternativas às interpretações apresentadas. No entanto, quanto a nós, este estudo sobre alguns “Maníacos de Qualidade” que fazem parte da nossa História contribui firmemente para o nosso enriquecimento cultural. E por isso aconselhamos vivamente a sua leitura.

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MEMÓRIAS VIVAS DO JORNALISMO
Fernando Correia & Carla Baptista
Ed.Caminho

Do amor à profissão ao Amor pelos Livros, é perfeitamente lógico que este livro teria que merecer aqui um destaque especial. E não sei bem o que mais admirar. Por um lado, temos a criteriosa escolha que foi feita pelos autores para ouvir as memórias de jornalistas que já vêm de época recuada, concretizando nestas "Memórias Vivas do Jornalismo" um velho sonho de realizar uma antologia com os entrevistados possíveis e nem sempre obedecendo – como eles próprios confessam na Introdução - a uma estrutura de certo modo cronológica, partindo por exemplo de como acontecia o acesso à profissão, sem que existissem escolas de jornalismo, e depois saltando para descrições de episódios vividos pelos jornalistas, relacionando a sua vida privada com a profissional e com o clima que preenchia o ambiente de trabalho e o da vida política e económica do país. Por outro lado temos as várias descrições feitas por grandes nomes do jornalismo português como, sem desprimor para os não citados, Acácio Barradas, Edite Soeiro, José Carlos Vasconcelos, Manuela de Azevedo, Mário Ventura Henriques, Pedro Foyos ou Urbano Tavares Rodrigues. As relações com as chefias, a escolha das notícias, o envio delas pelos órgãos estatais, as declarações dos políticos, os castigos, a censura ou as tarefas atribuídas às diversas categorias profissionais e ao modo como se ascendia na carreira, tudo isso reflecte um manancial informativo da forma como era feita a comunicação impressa e radiofónica ou televisiva. Da caneta com aparo à máquina de escrever foi um caminho repleto de curiosidades pois ao mesmo tempo que representava a evolução pareceu-nos a nós, que também o vivemos e agora recordámos, representar igualmente um certo tipo imposto de estagnação que alguns jornalistas tentavam a todo o custo vencer. Mas … e é isso que convidamos na leitura desta obra … há muito mais a descobrir ou recordar.
Não querendo comparar-me, em termos de notoriedade ou de importância no jornalismo, aos colegas entrevistados e que com isso deram o seu valioso contributo a este livro, resolvi deixar aqui um episódio dos muitos que vivi na então Emissora Nacional. Entrei para a Estação Oficial devido a um artifício do meu nome oficial que ao tempo não incluía Montalverne como apelido o que só veio a acontecer tempos depois de já lá estar. Mas isso é outra história que já foi contada em várias ocasiões. Não se trata de o ter adoptado mas precisamente porque é essa a família que me criou desde os 2 meses mas tendo sido registado pelos P. biológicos com outros apelidos que eram de facto os oficiais. Desse modo a Polícia política não detectou na minha entrada para a E.N. que eu era o jovem Montalverne procurado pela PIDE nos tempos do Liceu e da Faculdade (em que o usava em listas da oposição ao regime). Também aí não me detectavam como pouco inteligentes que eram. Um dos dois nomes próprios era igual. Mas não havia computadores. Como já se adivinhou toda a minha família real (não biológica) - e eu desde muito novo - pertencíamos à oposição. E haveria de ir parar à estação oficial pelo gosto que tinha pela Rádio. Lá também tínhamos um grupo que reunia às escondidas, altas horas num estúdio. Mas afastei-me do episódio, apesar de ser necessário, para o entender melhor, explicar as ideias que defendia. Liberdade, defesa dos direitos humanos, Paz e igualdade para todos…e tudo o resto que era a luta contra o ditador e os seus sequazes. E afinal onde eu tinha ido parar! No meu carrito, que tinha conseguido comprar em segunda mão, colocara um dia a meio do vidro traseiro, um autocolante bem visível com o conhecido símbolo criado por Bertrand Russel e as palavras “Fate l’Amore non la Guerra”, que ainda hoje, velhinho, conservo.

Poucos dias depois fui chamado pelo Director de Programas, cujo nome não importa revelar, mas que era totalmente afecto ao regime salazarista. Avisou-me então de que aquele autocolante no meu carro não lhe parecia muito indicado para um funcionário da EN e que poderia vir a ter alguns dissabores por isso mesmo. Respondi que não, não era nada do que ele pensava, Eu apenas preferia o amor à guerra, nem sabia quem era Bertrand Russel e achara piada ao autocolante. E resolvi não o retirar. Passadas algumas semanas, fui novamente chamado. Dessa vez, o aviso foi de tal modo insidioso sobre o que me poderia vir a acontecer que, ao voltar a casa e pensando no meu futuro e no da família, arranquei o autocolante que ainda hoje conservo. Este foi apenas um dos muitos sapos que tive de engolir naquela casa até ao dia 25 de Abril. Ainda havia de passar pelo episódio do enterro do Ditador para o qual levava apenas umas palavrinhas escritas muito bem pensadas e simples, quando de repente ao terminar o texto, o assistente me diz que tinha de continuar porque o caixão parara à porta onde eu estava. Havia que dizer mais alguma coisa dali. De improviso, escorreguei nas palavras, lentamente para ganhar tempo, descrevi o que ia vendo e falei nas criancinhas (que tinham sido postas, claro) à volta do caixão e “que ele tanto amava”, etc. etc. Imaginem! Que ele tanto amava. Como se ele amasse alguma coisa que não fosse as suas, tão faladas hoje em dia conquistas amorosas. E assim, por essas exactas palavras, que os militares foram detectar na gravação feita e apesar de toda a comissão de trabalhadores e outros testemunhos apresentados demonstrarem a minha maneira de pensar, ainda fui suspenso 8 dias, para dar o exemplo (foi a razão apresentada) e poder castigar outros que de facto eram afectos ao regime. Coisas da história deste simples jornalista que apenas se conseguia aguentar naquela casa por ser essencialmente escolhido para tratar temas de Ambiente, Natureza, Ciência e pouco mais.
Mas neste livro vão encontrar histórias muito mais interessantes do que esta e que demonstram a verdade de como era feito o Jornalismo nos anos 60, década que os autores escolheram pela importância social, política e económica desse período para o nosso país. E no caso do jornalismo um clima profissional com características únicas.

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HISTÓRIA DE PORTUGAL
Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa
Nuno Gonçalo Monteiro
A Esfera dos Livros

Com a idade que tenho (vai muito longe o tempo em que aprendi a História de Portugal sentado uma carteira da Escola Primária de Campo de Ourique e também o tempo da cadeira de História no Liceu Pedro Nunes) certamente que passaram por mim e pela leitura que sempre esteve presente nas minhas horas vagas e de lazer os mais variados volumes sobre a História de Portugal. Relembro até e vejo-as numa das divisões de minha casa, as várias edições em vários volumes, da autoria de personalidades consagradas nesta área e que, compreenda-se, funcionam mais como obras de consulta. Igualmente, como é natural, os consultei, folheando por onde desejava aprofundar qualquer assunto. Não é portanto em relação a estes volumes, que vou fazer qualquer referência de comparação com a obra da responsabilidade de Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Monteiro, professores universitários da nova geração de historiadores, que acaba de ser editada pela Esfera dos Livros. Mas ao lado das restantes – e são várias – que nos apresentaram com certa dignidade o caminho da nossa História ao longo de quase um milénio, esta que acabo de analisar - pois difícil seria ler as 777 páginas no tempo disponível – tenho que afirmar com total convicção que se trata de uma obra ímpar no panorama literário e cultural em língua portuguesa. Pela primeira vez, é possível acompanhar a História de Portugal, desde a Idade Média até aos nossos dias, com toda a sequência de episódios que todos mais ou menos conhecemos, de uma forma que ousaríamos chamar de romanceada. Apesar de os autores terem feito naturalmente um esforço de síntese não pretenderam levá-lo ao extremo de esquecer, como alguns historiadores que os antecederam, o que era primordial e antes pelo contrário quiseram sobretudo torná-lo mais claro para o leitor. Esclarecer de modo a dar o conhecimento preciso. E conseguiram fazê-lo de modo tão eficiente e de certo modo sábio que o leitor fica de facto preso ao que – e mais uma vez o dizemos – ousamos chamar de romance histórico. Em alguns dos capítulos revisitei figuras conhecidas da nossa História e fiquei ao mesmo tempo admirado com as revelações de algo que nunca me tinha sido dado descortinar mas também desejoso de continuar a leitura e saber o que se passou na sequência desses factos. Que me perdoem se a ignorância era minha mas nunca qualquer obra nesta matéria me soube cativar como esta agora ao nosso dispor. E numa última ousadia deixaria aqui um desejo. Claro que nunca uma obra como esta poderia fazer parte dos manuais escolares (e não será o caso dos universitários da respectiva licenciatura) mas talvez fosse possível elaborar o de História de Portugal seguindo idêntico processo de a contar aos alunos de modo a torná-la interessante e cativante. Seria um meio de aumentar o nível de cultura dos nossos jovens que tão afastado anda do que se desejaria para um futuro mais promissor.

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O SÍMBOLO PERDIDO DESCODIFICADO
Simon Cox
Publicações Europa-América

Desde que O Código Da Vinci apareceu nos escaparates mundiais e se tornou rapidamente um best-seller, passámos a reconhecer no seu autor Dan Brown um enorme poder criativo não só pelo suspense dos enredos criados mas pela quantidade de simbolismos necessariamente enigmáticos que passavam desde aí a encher as suas obras. Apesar de em algumas das situações Dan Brown nos explicar por intermédio do professor Langdom, a personagem que elegeu para figura principal do seu romance, o que significavam determinados pormenores de conhecimentos científicos que para alguns leitores seriam novidade, muito ficava por explicar nem tal seria possível tal a quantidade de situações recheadas de simbólicas figuras e deduções filosofias ou religiosas. E é para resolver essa natural falha que o próprio Dave Brown não se dispunha naturalmente a fazer que aparece na sua peugada um segundo autor que viria a ganhar celebridade ao desmistificar e descodificar o que Dan Brown escrevera. Sem dúvida que as obras de Simon Cox, um investigador e famoso conferencista por vezes intitulado “o historiador do obscuro” aparece de facto em auxílio de todos os leitores que desejam saber mais sobre aquilo que Dave Brown apresenta nos seus romances. E achamos de facto, pese embora algumas críticas que nos absteremos de classificar, que muito ficamos a ganhar para conhecer até onde irá a fantasia de Dan Brown nos seus códigos e símbolos e o que existirá de verdade. Sem dúvida que qualquer dos dois autores se rodeou, cada um na sua função, de um número quase inesgotável de fontes históricas e até mesmo científicas para concluir a sua obra. Nós diremos então muito simplesmente que se completam. Ficamos certamente a ganhar ao ler um romance como o que está colocado mesmo antes desta referência, mais abaixo, “O Símbolo Perdido” de Dan Brown, como ficaremos igualmente a ganhar ao completar os nossos conhecimentos com as explicações que Simon Cox nos fornece em o “O SÍMBOLO PERDIDO DESCODIFICADO”. Tal como já fizera nos anteriores, com O Código Da Vinci e Anjos e Demónios, Simon Cox veio desta vez guiar-nos no decifrar dos mistérios da Maçonaria e dos seus símbolos e rituais que Dan Brown nos apresenta envolvidos de certa nebulosidade própria de um romance de ficção. Mas com Simon Cox, o historiador, o leitor de Dan Brown vai descobrir as respostas que este romancista não nos quis dar, nem era essa a sua intenção, no seu empolgante romance.

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O SÍMBOLO PERDIDO
Dan Brown
Bertrand Editora

Quando em 2003 Dan Brown apresentou O Código Da Vinci, o público reagiu em todo o mundo com um entusiasmo fora do vulgar. Em pouco tempo o livro tornou-se um best-seller e de facto, recuando um pouco no tempo, em Portugal não se falava de outra coisa. As pessoas eram vistas com o livro nos mais variados locais. Aquelas 540 páginas tinham de ser lidas sem grandes interrupções pois o desenrolar do enredo, recheado de elementos científicos, necessitava que estes estivessem bem presentes na nossa memória para acompanharmos as deduções do conceituado historiador Robert Langdom, personagem criada pelo autor mas que mais parecia existir de facto, algures em Harvard. Confesso que o li durante umas pequenas férias, num recanto calmo, como sempre procuro ter para o efeito, e não peguei em mais nenhum enquanto não terminei. E confesso também que relembrei coisas esquecidas como a célebre sequência Fibonacci, a proporção áurea, e muitas outras. O filme feito a partir do romance foi de certo modo uma decepção. Era impossível conter toda a riqueza que o livro encerrava. Dan Brown entusiasmou-se naturalmente pela sua personagem e Robert Langdom viria a aparecer nas obras que se seguiram igualmente nos tops das vendas. Eis agora O SÍMBOLO PERDIDO que parece destinado a conquistar igualmente o público. Dan Brown conduz-nos habilmente através de sucessivas descobertas entre simbologias exotéricas e maçónicas. São de novo códigos enigmáticos com os quais nos prende numa maestria a que se habituou, fruto certamente de muito trabalho e muita investigação. Ele tem aliás o cuidado de nos dizer que tudo o que relata tem fundamento e o essencial em que se baseiam os factos descritos é puramente verídico. Desta vez a história passa-se na mais famosa cidade da América e quem conhecer Washington parecer-lhe-á que por vezes acompanha a par e passo Robert Langdom. Dan Brown é mestre do suspense sem dúvida e mais uma vez nos prende nestas perto de 600 páginas disposto a atingir os milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

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