Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

NOTA DO AUTOR
Gil Montalverne

Este local que criei com muito carinho e dedicação tem estado sem actualização normal mas isso não significa que esteja encerrado. Por razões que se prendem com o excesso de trabalho e porque foi e continua a ser meu desejo colocar aqui os títulos com a minha análise pessoal, o que me obriga a ler com atenção o seu conteúdo, eles estão comigo mas não tive oportunidade de fazer essa análise convenientemente, o que penso será resolvido em breve.

Entretanto abri uma excepção que se segue a esta nota com um texto da minha autoria que assinala o aniversário do falecimento de José Saramago, o Grande Homem e ilustre escritor, cuja Biografia, por simples coincidência, é precisamente a mais recente obra colocada neste espaço.
À vossa atenção, se o desejarem, ficam as palavras que lhe dediquei.

ATÉ SEMPRE SARAMAGO!
Gil Montalverne

Faz hoje um ano que ele partiu. Para onde não sabemos ao certo. O que temos a certeza é que só ele conhecia pois como escreveu no Memorial do Convento "…não subiu para as estrelas, se à terra pertencia". Numa cerimónia que hoje teve lugar em frente à Casa dos Bicos, futura sede da Fundação, reunindo familiares e amigos, tal como era seu desejo, Pilar depositou parte das suas cinzas junto à oliveira centenária vinda de Azinhaga da Fonte, sua terra natal, junto da qual se sentava quando ali se deslocava e que existia desde os seus tempos de menino. Em vez de uma estátua está à sua sombra um banco de jardim - "para que as pessoas ali se possam sentar, recordar o escritor ou ler as suas obras". Inscrita no chão está igualmente a frase que cita no seu romance. Ali, à sombra da sua Oliveira e junto às suas cinzas, a que pelas mãos do Presidente da Câmara de Lisboa foi depositada terra que veio de Lanzarote, onde terá vivido uma das fases mais felizes da sua vida, fica-nos em todos um sentimento único de que estamos com ele. Ele estará sempre connosco. Saramago, o homem que mais do que a si próprio amava toda a humanidade, não partiu. Até sempre Amigo! Até sempre, Saramago.
Faz amanhã um ano que eu “estive com ele” como sempre. E então encontrei-me a escrever assim:
A notícia apareceu de repente, inesperada para muitos de nós, embora sabendo que o teu estado de saúde, ou de doença, nestes últimos tempos não augurava nada de bom. Mas como a esperança é a última coisa a desaparecer, pensávamos que mais uma vez irias recuperar. Assim não aconteceu. A notícia anunciou o teu falecimento às 12.30 deste dia 18 de Junho. Mas uma coisa é certa: ao resolver partir para onde - como tu acreditavas - nada existe, a morte não te levou. Tal como dizia o poeta “és daqueles a quem a lei da morte libertou”. Não morrerás porque os homens como tu são verdadeiramente imortais. Não apenas – e já seria muito – pelo merecido Prémio Nobel que honrou a Literatura Portuguesa, inscrevendo o teu nome nessa lista de grandes celebridades mundiais que ficarão para as gerações futuras, nem pelos outros grandes prémios com que foste distinguido e os mais diversos doutoramentos Honoris Causa, mas pelas obras que nos deixaste, pela coerência do teu pensamento, pela tua paixão em prol das liberdades e dos direitos de toda a comunidade, pelo teu profundo humanismo, pela bondade expressa nos teus actos, pelo teu olhar em defesa dos mais desfavorecidos. É curioso até como chegavas não só a respeitar como até por vezes a amar os teus próprios inimigos. Uma alma grande como a tua faz-nos realmente falta. Lamento não poder ler mais nenhuma das tuas obras que haverias ainda de nos legar. Terei de limitar-me a reler as que escreveste e que tenho comigo. Reler os teus cadernos onde deixaste, em minha modesta opinião, o teu verdadeiro retrato, as tuas preocupações com o caminho que o mundo ia percorrendo, desmascarando as vilanias que o povoam ou enaltecendo quem defendia a verdade e a justiça. Ali, nesses escritos diários, está sempre e sempre toda a grandeza do homem que és (ia a dizer que foste), aquele homem que não esqueceu nunca os dias da sua infância pobre e simples apesar de ter subido tão alto, o teu enorme e profundo sentido do que é ser um homem verdadeiramente Bom, a tua preocupação permanente em encontrar soluções para o que julgamos ter perdido.
A última mensagem deixada no teu blogue que ia sendo actualizado nestes últimos tempos por ti, pela Pilar e pela Fundação mas nestes dois últimos casos com os textos que são teus, fica bem como sinal das tuas preocupações com o mundo actual e com um conselho que talvez valha a pena seguir:

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Assim é de facto Querido Amigo (se me permites). Precisamos de pensar e reflectir. Precisamos de encontrar as ideias que tendem em faltar-nos, sobretudo se apenas pensarmos em nós próprios. É preciso, como tantas vezes disseste, olhar bem à nossa volta e repensar o que andamos a fazer. Isto, se quisermos reencontrar a verdadeira felicidade perdida. É que ela só existirá quando a virmos reflectida em tudo à nossa volta. E por estar convencido - e certamente não sou o único – que ao continuar a ter-te a meu lado com o que escreveste e com o que és (novamente ia a dizer “que foste”) é que te digo com toda a sinceridade: Até Sempre Saramago!

JOSÉ SARAMAGO – Biografia
João Marques Lopes
Guerra e Paz Edições

Esta é uma “pequena” Biografia de José Saramago (“pequena” porque tem apenas 165 páginas sobre a vida de uma grande Homem). Isso não desmerece, naturalmente, o autor nem o biografado. Foi escrita e publicada antes do falecimento do Nobel da Literatura Portuguesa. Entre os títulos já publicados pelo autor, Licenciado em Filosofia pela Universidade de Letras de Lisboa, contam-se as biografias de Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Mas esta é na verdade a primeira biografia de um dos escritores mais importantes da Literatura Portuguesa. José Saramago nunca escondeu, antes pelo contrário, os primeiros anos da sua vida nascido na Aldeia da Azinhaga, Golegã, num meio dos rurais mais desfavorecidos, numa casa de terra batida que já pertencera ao seu avô, guardador de porcos. Nas muitas crónicas e artigos que escreveu, sempre relatou em pormenor as dificuldades passadas nesses primeiros anos, assim como viria a contar, ao mesmo tempo que comentava episódios da actualidade com aquela independência e agudeza que sempre caracterizou a sua obra, momentos difíceis da sua meninice que por vezes chegavam a ser apresentados com certa nostalgia como se afinal tivessem sido importantes – e foram certamente – para a sua formação intelectual. É que ele também tivera os seus sonhos como qualquer criança e sobretudo aprendera a conhecer o que significa a existência da desigualdade que separa os homens entre si. Mais tarde, quando desempenhava funções no Diário de Notícias, saía ao fim da tarde para ir passar longas horas, até lhe ser permitido, numa das salas de Leitura do Palácio Galveias, devorando as mais variadas obras dos grandes escritores e pensadores, o que de certo contribuiu para o conhecimento mais profundo do significado da vida e dos verdadeiros valores humanitários. Adorado por muitos e odiado por alguns que nunca aceitaram a sua independência e a sua defesa dos valores em que acreditava, combatendo a mentira e a falta dos mais elementares princípios éticos, Saramago permaneceu igual a si próprio até aos últimos momentos. Como já aqui dissemos neste mesmo espaço do AMOR PELOS LIVROS, no próprio dia em que viria a falecer, ao escutar os comentários feitos por alguns dos seus amigos que em voz baixa, num recanto do quarto onde ele se encontrava deitado, falavam sobre a crise actual, Saramago ainda foi capaz de juntar o seu, dizendo: “Não se trata de uma crise económica mas de uma crise de valores”. Que lucidez extraordinária a daquele homem ao qual restavam apenas algumas poucas horas de vida. Mas afastei-me da essência desta Biografia publicada antes da sua morte e à qual só agora tive acesso. É a Biografia possível para definir perfeitamente o que foi o seu trajecto de vida, a sua acção em defesa dos ideais muito próprios em que acreditava, um pouco do histórico do muito que deixou escrito, para além dos seus livros memoráveis, em jornais e revistas da época, em Portugal e nos outros países. O autor relembra portanto para além das suas obras mais significativas, as crónicas no “Jornal do Fundão” e na “Capital” ou a crítica literária que fazia na “Seara Nova”. Em todo esse vasto mundo que descrevia e nos personagens que criou, Saramago mostrou o reflexo de muitas das suas lutas, das afrontas de que foi alvo por pensar como pensava e escrever como pensava, sempre fiel à verdade em que acreditava e desmascarando o que muitas vezes se esconde sob falsas crenças e atitudes. Faltará por certo escrever a grande Biografia da sua vida, para tornar mais fácil o muito que ele próprio deixou escrito sobre ela. Mas esta Biografia de João Marques Lopes merece ser lida por quem queira conhecer o essencial do seu trajecto até praticamente aos últimos dias da sua vida.

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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA
Victor J. Katz
Fundação Calouste Gulbenkian

Longe de mim ter a pretensão de vir aqui “dissertar” sobre o conteúdo deste livro. Então porquê a sua inclusão neste espaço? O ensino da Matemática tem sido desde há vários anos objecto e tema para os mais variados debates e muitas das causas das fraquíssimas notas dos nossos alunos dos primeiros anos do ensino secundário nessa matéria foram sendo apresentadas como devidas ao fraco ou mesmo mau ensino da matemática. Foram nomeadas comissões de personalidades ligadas ao ensino, à ciência, filosofia, pedagogia e a muitos outros ramos do saber, inclusive da literatura, a fim de resolver essa situação. De um modo geral, a questão que acabava sempre por se colocar era o porquê da falta de interesse dos alunos pela Matemática. E muitos concordaram que seria necessário criar nos jovens uma apetência de carácter mais rigoroso do interesse que a Matemática sempre teve, tem e continuará a ter em quase todos os problemas do nosso dia-a-dia, qualquer que seja a ocupação ou a formação universitária. Ela está e estará sempre presente para resolver os problemas, tecnológicos ou não. Victor Katz, Doutorado em Matemática e professor emérito da Universidade de Colúmbia, dedicou-se à História da Matemática e sua utilização pedagógica, sendo autor de conceituados livros de estudo sobre as teorias da Matemática e de interessantes artigos nesse âmbito na Revista American Scientist. Victor Katz recebeu o Prémio Watson Davis da Sociedade de História da Ciência, por este seu livro agora traduzido por uma equipa de tradutores proposta pelo Prof. Nuno Crato, com revisão e uniformização do Prof. Jorge Nuno Silva do Departamento de História e Filosofia da Universidade de Lisboa. Esta obra preenche exactamente os fundamentos que presidem a criação pela Fundação Gulbenkian da sua colecção de Manuais Clássicos, destinados a auxiliar estudantes e professores que nem sempre conseguem encontrar as obras necessárias para o incentivo e auxílio nas matérias que pretendem estudar ou melhor compreender o seu alcance a nível social. O próprio Victor Katz escreve no prefácio que “o conhecimento de história da Matemática mostra aos estudantes que a matemática é um empreendimento humano importante. A Matemática não foi criada em forma polida com que aparece nos livros de texto, foi antes desenvolvida muitas vezes de forma intuitiva e experimental respondendo à necessidade de resolver problemas. A evolução dos conceitos matemáticos pode ser utilizada com sucesso na sensibilização e motivação dos estudantes de hoje.”
Se outras razões não existissem isto bastaria para que esta obra pertencesse ao Amor pelos Livros mas existem outras razões. Pelo que já nos foi dado ler e apesar das restrições impostas pela formação profissional que não possuo nesta área, posso garantir que nas cerca de mil e cem páginas encontrei nos diversos capítulos em que a obra está dividida muita informação que para além de curiosa me ajuda a ter uma noção completamente diferente da própria História das diversas civilizações nas quais a Matemática teve sempre um papel importante. Desde escrita em plenas rochas, placas de argila ou papiros por cuidadosos escribas há milhares de anos antes de Cristo, é fantástico como ela presidia a muitas decisões que tinham de ser tomadas pelos soberanos ou sacerdotes para os mais variados fins. Era necessário calcular por exemplo o nº de operários ou de pães para os alimentar a fim de construir edificações, algumas das quais ainda hoje podemos admirar. E se isso foi por exemplo feito na Mesopotâmia 3.500 a.C. também foram encontrados registos nos famosos “ossos oráculo”, curiosos fragmentos de ossos com inscrições gravadas, datados de 1.700 a.C. na China, durante a dinastia Shang. Ficamos melhor informados de como foi sempre um problema de contagem a noção da matemática mais simples, desde por exemplo a conhecida anotação por barras sucessivas para representar números. Mas desde os primórdios que os chineses já usavam potências de 10 num sistema multiplicativo. A variedade é possível para qualquer pessoa com um mínimo de conhecimentos poder encontrar valiosas contribuições para os aumentar. Existem por exemplo dois capítulos dedicados à Astronomia e Matemática, Biografias de destacadas figuras em caixas separadas, tópicos especiais como por exemplo a discussão da influência egípcia na matemática grega. Encontramos a cada passo a explicação real de muitos probleminhas que nos são muitas vezes apresentados em jornais e revistas como curiosidades do mundo da matemática sob a forma de entretenimento. Quantas pessoas que conhecem livro de poemas Rubaiyat de Omar Khayyam, traduzido em quase todos os idiomas como uma das maravilhas da Poesia Persa, saberão que ele foi também um dos grandes matemáticos do seu tempo? Platão, o grande filósofo, discípulo de Sócrates, foi também um geómetra excepcional que ajudou a resolver pelo menos um problema, onde eram necessárias noções de cálculo, durante uma curiosa visita ao Egipto. Tratava-se por exemplo nessa época de saber como duplicar um cubo, isto é um cubo que tivesse o dobro do volume do original, Isto num tempo em que não se conhecia a operação de raiz cúbica nem tampouco de raíz quadrada. No tempo da civilização Inca, ainda sem qualquer linguagem escrita, já existia um sistema de numeração lógico fazendo os registos por meio cordas e nós. A obra também inclui um capítulo dedicado ao nosso grande matemático Pedro Nunes. E ao longo da História da Matemática também já nos tempos mais próximos se fala de alguém, o matemático Babbage, que foi segundo se julga o primeiro criador de uma máquina que viria dar a origem ao nosso computador actual. E naturalmente vem depois Alain Turing e por aí fora até aos dias de hoje. Portanto, creio que consegui demonstrar o interesse para todos os que desejarem ampliar os seus conhecimentos em ler algumas partes desta obra, sendo que outras serão efectivamente mais indicadas para estudantes e professores dessa matéria tão importante que é a Matemática.

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Diga Adeus aos Mitos
Dr. AAron Carrol / Dra.Rachel Vreeman
Ed. Guerra e Paz

De um modo geral quase podemos afirmar que a maior parte das pessoas sabe o que é um mito. E quando a pergunta lhes é feita responderá de imediato que se trata de algo que não é verdade. O problema mais importante é quando não se sabe distinguir o mito da realidade. E ao longo de toda a história do homem na terra ele sempre necessitou de acreditar nos seus mitos. Sempre teve necessidade de acreditar em qualquer coisa para viver mais feliz, para esconder os seus medos, para justificar fenómenos que não compreendia. E assim mesmo antes de ser conhecida a escrita, nasciam relatos simbólicos, passados oralmente, de geração em geração, narrando e explicando determinados factos ou fenómenos. Não é necessário lembrar a mitologia grega ou romana, para só citar duas delas, onde se encontram bem definidos os deuses e deusas nos quais o povo acreditava. E não queremos entrar mais profundamente neste tema para não concluir como desse modo nasceram todas as religiões antigas e actuais. Digamos portanto que, embora, quase sem excepção, tenham dado origem a guerras e carnificinas e mesmo actualmente nos radicalismos que subsistem tal continue a verificar-se não é desses mitos que os autores deste livro resolveram falar. Como médicos e professores na Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, eles dedicaram as suas investigações a um outro tipo de mitos que têm a ver com o nosso corpo e com a nossa saúde. Quase todas as pessoas ouvem ou pensam diariamente em coisas sobre o nosso corpo e a nossa saúde que não são verdade. A maior parte delas não foram sequer testadas ou foram cientificamente comprovadas falsas. E no entanto continuamos a vê-las nas revistas ou na televisão e ouvi-las até em reuniões de amigos. Mascar pastilha elástica ajuda a lavar os dentes ou os “andarilhos” ajudam os bebés a andar mais cedo são apenas dois dos mais de 80 mitos que este livro vos convida a esclarecer. E a sua utilidade é de facto enorme. Os mitos apresentados estão na sua grande parte comprovados pela ciência. E mesmo alguns cuja positividade possa não estar plenamente esclarecida e reconhecendo que nem sempre é possível provar uma negação de que algo possa não vir a acontecer, tal não quer dizer que se deva esperar que aconteça. Apesar de, como médicos que são (e sabemos como isso é comum acontecer), nem sempre o que eles dizem é a verdade absoluta, quando existem provas irrefutáveis estarão sempre do lado da ciência. Muitos destes mitos aqui apresentados foram anteriormente publicados no British Medical Journal em 2007 provocando as reacções mais contraditórias. Mas, como sabemos, existirá sempre alguém que não suporta a queda de um mito. É difícil, claro, destruir algo que foi contado e ouvido durante centenas, senão mesmo milhares de anos. Os dois autores têm a noção de que é vulgar hoje em dia existir muita gente que considera que nem sempre os médicos possuem a solução exacta para resolver determinados problemas. Mas o certo é que eles baseiam as suas respostas a esses casos na sua aprendizagem e nos seus conhecimentos para melhor os poderem resolver. E com base em tais deduções estarão com toda a certeza muito perto da verdade. Pelo menos melhor do que aqueles que o não são. Os leitores devem estar preparados para aceitar os factos relatados que foram cientificamente comprovados. E se num caso ou noutro tal não acontecer, ficamos a saber que, pelo menos, nada há de concreto sobre a matéria. E tal como dizíamos atrás, sempre que não seja possível ter provas de que determinado facto possa não vir a acontecer não significa que ele aconteça. Num tempo em que se tem um enorme acesso a muita informação médica não é lógico que nos deixemos influenciar por crenças que dizem respeito à nossa saúde e bem-estar. Devemos portanto pôr fim aos mitos e neste livro estão alguns bem presentes ainda no nosso dia-a-dia.

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Uma Dor Silenciosa
Francisco Guerra
Editora Livros d'Hoje

Há cerca de dois anos, trouxe a este mesmo espaço um livro a que me referi na altura como desejando não ter tido necessidade de o citar, melhor dizendo, que ele não tivesse sido escrito ou alguém não tivesse tido necessidade de o escrever. Bernardo Teixeira, uma das vítimas do Processo Casa Pia resolvera divulgar a sua história, ao mesmo tempo que se interrogava Porquê a Mim?, título do livro. Fora já testemunha no processo que se arrastava há anos perante o espanto da esmagadora maioria do povo português. Abandonado pela família quando tinha 11 anos, Bernardo fora entregue aos cuidados daquela instituição onde acabou por ser violentamente abusado e usado quando era suposto que o Estado o devia proteger. O livro foi leitura obrigatória para quantos acompanhavam o desenrolar do processo. Mas Bernardo não foi o único a testemunhar. Já depois do recente julgamento que terminou como todos sabemos com algumas condenações, adiadas por interpelação de recursos dos arguidos e enquanto aguardamos de novo o que se seguirá, é bom que se leia a história comovente de outra vítima que sofreu atrozmente os abusos violentos dos pedófilos envolvidos e que, sem citar os seus nomes, não é difícil reconhecer nas suas palavras. Francisco Guerra, considerado a principal testemunha do processo Casa Pia, muitas vezes citado como FG, conta-nos em “Uma Dor Silenciosa” a terrível história que, como confessa, destruiu os seus sonhos de criança. Exactamente. É que por mais cruel que infelizmente, algumas vezes e pelas mais diversas razões, a infância possa ser, todas as crianças constroem os mais belos sonhos que desejam ver realizados no futuro. Francisco Guerra foi retirado da guarda da família com cerca de 5 anos de idade e é toda a história a partir desse instante que ele nos conta, culminando com o enorme sofrimento que passou na sua passagem pela Casa Pia, de cujo processo se tornou a principal testemunha. Com alteração dos nomes dos envolvidos, revela todo o desenrolar do seu infortúnio durante a infância e porque resolveu contribuir para que se fizesse a justiça possível. São estas as palavras em que explica as razões porque resolveu escrever este livro: “A primeira de todas é para que a Casa Pia não seja esquecida e não deixe de estar na mira do país inteiro e, sobretudo, de quem deve zelar por ela (…) Em segundo lugar para que toda a gente saiba a verdade do que realmente se passou, em terceiro, e esta a menos importante de todas as três razões, porque talvez seja uma maneira de conseguir encerrar um capítulo muito triste e muito doloroso da minha vida. Embora saiba que nunca conseguirei esquecer o que se passou…”Com prefácio da Dra. Catalina Pestana eis um livro que não deveria ter sido possível contar como história verídica porque esta não deveria existir num mundo onde todas as crianças estivessem a salvo da maldade dos homens. É esse o mundo que todos deveríamos fazer o possível por construir. E por isso aqui aconselho a sua leitura. Para que a verdade seja conhecida e porque, infelizmente, como tudo leva a crer, a rede internacional de pedofilia continua activa em Portugal.

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OS DONOS DE PORTUGAL
Jorge Costa, Luís Fazenda,
Cecília Honório, Francisco Louçã,
Fernando Rosas
Edições Afrontamento

Julgo que serão poucas as pessoas que possam interrogar-se sobre o que significa de facto este título, apesar de alguns dos seus autores serem bem conhecidos da vida Política e Universitária. Não vou portanto debruçar-me sobre ideologias ou tendências políticas de cada um deles. Estamos perante um trabalho que julgamos criterioso e honesto das relações entre a vida política e o capital. Se alguém tivesse dúvidas sobre o que é isto de existirem Donos de Portugal afirmando que donos somos nós todos ou o Estado, que somos nós, ou então que é isso de existir um governo que numa república democrática também não deverá ser dono desse país e portanto não deveria haver donos porque ninguém, pelo menos após o 25 de Abril, poderia ser dono de Portugal. Ora é precisamente aí que nos enganamos. Existem de facto diversas personalidades – se assim lhes podemos chamar – que são de facto donos do nosso país. Donos porque são eles afinal que detém o poder, que tomam decisões que nos afectam, que se colocam acima de qualquer outra entidade que até pode ter sido eleita para nos governar. E o curioso é que, como os autores muito bem o demonstram, tem sido sempre assim. E alguns dos donos actuais descendem mesmo de outros donos de algumas décadas passadas. Este livro apresenta-nos a história da acumulação da riqueza e do seu poder desde 1910 até ao presente. De como nasceu, como foi protegida, como se protegeram entre si, como efectuaram ligações matrimoniais para garantir ainda maiores lucros e mantê-los confinados a uma burguesia que foi engordando cada vez mais sem se preocupar com o facto de ter explorado o trabalho de outrem em seu único proveito. Claro que tal só foi possível através de favorecimentos e privilégios que lhes foram concedidos por razões óbvias de contrapartidas e compadrios que acabavam sempre por aumentar o número dos detentores desse poder sobre o país. Se antes do 25 de Abril, eles seriam em menor número, sofreram nos primeiros anos da revolução um ligeiro desaire mas regressaram em força e aumentaram de sobremaneira a sua capacidade de domínio, atingindo hoje um escandaloso número muito elevado de algo a que alguém já chamou – não é o caso deste livro – a máfia portuguesa. Dos tabacos às lotarias da finança, acumulando latifúndios cada vez mais vastos, foi ao longo das décadas um acumular de riquezas sem modernizar, que aliás dá o título ao capítulo II deste livro. Aproveitamento da mão-de-obra barata, tudo sob a complacência dos governantes. Decidi não citar aqui nomes bem conhecidos das várias famílias que enriqueceram e enriquecem actualmente, sendo-lhes permitidos todos os processos na sua ascensão que parece – e insisto que parece - não ter fim. Um dos autores, dirigente político de esquerda adiantou numa entrevista que "Os donos de Portugal são os donos dos governos”, “uma história permanente do apoio do Estado à formação da riqueza”. “É uma oligarquia financeira fortíssima, protegida pelo Estado, apoiada pelo Estado, financiada pelo Estado, vivendo de rendas do Estado, uma grande família que tem dominado Portugal ao longo de 100 anos”. As fortunas das famílias citadas neste livro – nomes bem conhecidos de todos nós – na banca, nos seguros, no sector auto, no cimento ou nos adubos, no imobiliário e no turístico, no grande comércio como no petróleo e por aí fora, são feitas por vezes através de cruzamentos entre elas, vendas e compras de acções, dinheiro que rende lucros de milhões de euros, ao passar de mão em mão, por vezes no espaço breve de alguns meses. No entanto não se conhece muito bem onde acaba por ir parar. Será que é mesmo dinheiro? Nomes que fizeram parte de recentes governos encontram-se à frente de grandes empresas, curiosamente em muitos casos ligadas ao estado. Inalamos um cheiro acre a pura corrupção. Os valores esquecem-se. E de facto parece que tudo se processa como uma continuidade que vem de há muto neste país, com ligações externas, claro, porque isso lhes convém. Dentro e fora, protegem-se uns aos outros. Esta obra, ao traçar como a força económica foi dominante ao longo de cem anos da nossa história, apesar de todas diferenças no contexto político recordou-me algo que muitas vezes me chega à memória recente onde aquele que a si próprio se denominou Presidente do Conselho e se julgava ser o único dono de Portugal, já permitia à sua volta alguns senhores da alta burguesia que enriqueciam os bolsos e que hoje ainda fazem parte de uma faixa de grandes fortunas que se tornou mais vasta e poderosa, pois o chamado capitalismo liberal o permitiu. Na minha modesta opinião, apesar das diferenças que encerram em relação naturalmente ao nosso estado democrático e a muitos outros países do ocidente, os recentes acontecimentos no Egipto e o despontar de outros semelhantes em países árabes seus vizinhos, demonstram que chega sempre um momento em que os povos resolvem erguer a sua voz e dizem “basta”. Abaixo os donos que lhes tiram tudo a que têm direito e não lhes é permitido. E mais ou menos pacificamente, se possível, o tempo acabará por chegar. Vale a pena conhecer “Os Donos de Portugal” e compreender como foi possível que eles se fixassem e se agarrassem como lapas à sua rocha dourada. A maré chegará um dia, que pode não estar assim tão longe, para os varrer.

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MEMÓRIAS Rómulo de Carvalho
Coord. Frederico de Carvalho
Fundação Gulbenkian

É com um misto de prazer e muita dificuldade que vou aqui falar mais uma vez daquele a quem chamo “meu querido Professor”. Como devo então falar deste livro de Memórias que ele próprio ia escrevendo a partir de certa altura da sua vida para, como nelas confessa por diversas vezes, ser lido mais tarde pelos seus tetranetos e que está agora à nossa disposição numa cuidada edição, a que o seu filho, Frederico de Carvalho, juntou imagens que se encontravam dispersas e que agora aparecem reunidas no fim da obra? Frederico de Carvalho, construíu também um índice remissivo por pensar que teria utilidade para o leitor que pretendesse localizar facilmente este ou aquele assunto ou nome de personagem, sobretudo importante para quem pretender servir-se das “Memórias” como instrumento de estudo e trabalho. É de facto um prazer para este seu aluno plenamente convencido de que Rómulo de Carvalho, pelo lugar que sempre ocupou na minha vida e na minha memória, a ele lhe devo com toda a certeza muito do que sou. Mas é com dificuldade que encontrarei as palavras exactas para classificar esta obra que certamente representa algo de muito valioso para a história do nosso país durante o período que abrange toda a vida deste professor, pedagogo, poeta e humanista, contada a partir do momento em que nasceu, para o que recorreu naturalmente a consultas dos jornais da época, até aos últimos dias. A propósito recordo que durante as suas aulas no Liceu Pedro Nunes, toda a turma estava concentrada em escutar o que dizia com uma atitude completamente diferente do que acontecia em outras disciplinas. Será que é necessário explicar tal atitude daqueles jovens? Muito simplesmente todos estavam presos das suas palavras na forma como nos explicava os fenómenos da química e da física. Era algo de maravilhoso o que conseguia transmitir-nos. Era a sua eloquência simples e o seu saber mas também a sua bondade e a sua ternura. Foi provavelmente por eu ter pertencido à Estação Emissora do Liceu Pedro Nunes, da qual Rómulo de Carvalho era Director e estava sempre pronto a ajudar-nos e a entusiasmar-nos no que fazíamos, que a minha vida acabou mais tarde por se mudar da Faculdade de Ciências onde cursava os primeiros anos de Engenharia para a paixão da Rádio, tornando-me profissional da C.S. Mas voltemos a este livro de memórias. Não consegui ainda ler na totalidade as 500 páginas onde nos descreve (e a mim me leva a recordar até algumas coisas que tinha esquecido) factos ocorridos durante a sua infância (e como era a vida na cidade ou fora dela como eu ainda conheci), desde o modo como se batia à porta de um prédio com uma peça em forma de mão presa a ela ou um ou mais toques num badalo puxado por um arame (os repenicados para os lados esquerdos dos andares) até ao modo de chamar o merceeiro da rua a partir da janela. O dia-a-dia da vida na cidade, que ele observava e descreve, pode daqui a alguns anos ser uma verdadeira surpresa para quem o ler. E daí a importância histórica que o livro tem se outras não houvesse. Como ele próprio escreve numa simples folha de caderno escolar (reprodução em fac-simile): “Memórias que para instrução e divertimento de seus tetranetos escreveu certa pobre criatura que, entre milhares de milhões de outras, vagueou por este mundo na última centúria do segundo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo”, Rómulo de Carvalho está a contar aos seus prováveis leitores (e nem imaginaria que este conjunto de memórias viesse a ser transformado num livro) algo de muito pessoal e íntimo, utilizando as palavras cuidadas da sua escrita única e nunca igualada de um verdadeiro pedagogo que sabia como ensinar e prender a atenção dos seus alunos para lhes transmitir conhecimentos ou, melhor ainda, a forma de os saberem apreender no futuro. Constantemente, ao longo dos vários capítulos que ele próprio definiu, dirige-se particularmente aos tetranetos, citando mesmo muitas vezes o facto de que no tempo deles já nada daquilo subsistirá e constituirá certamente um mistério de como a vida e os costumes eram no seu tempo, como ele a viveu e assim descreve. O livro tem ainda a riqueza de reproduzir fotografias, recortes de jornais, ilustrações, cartões-de-visita (como o da parteira que assistiu ao seu nascimento), cartas, alguns poemas, etc. que ele guardou durante a sua vida e que estão hoje depositados na Biblioteca Nacional. A ideia de escrever as suas memórias apareceu já numa idade adiantada, mais precisamente em Junho de 1985, ao regressar de uma intervenção cirúrgica a que fora sujeito num hospital, embora, como também declara essa ideia lhe teria aparecido de há um certo tempo. E então confessa que “isto só me interessa a mim, e quando nisto falo aos filhos dos netos dos meus netos é na vaguíssima esperança de acharem graça em imaginar a figura de um seu antepassado movimentando-se num ambiente que muito pouco se deverá parecer com o seu, expondo sentimentos que o tempo tornará ridículos. E prossegue dizendo e descrevendo quase o momento do seu nascimento em 24 de Novembro de 1906, data anual que por decisão, no aniversário dos 90 anos, em 1996, foi decidida, pelo reconhecimento do mérito da sua obra, como Dia Nacional da Cultura Científica. Agnóstico, que respeitava as crenças de muitos dos seus amigos e até familiares, desafecto ao salazarismo e crítico do regime ditatorial em que o país viveu durante 50 anos, a sua análise a muitos dos acontecimentos ocorridos desde os tempos da Monarquia até ao 25 de Abril e aos dias difíceis que se lhe sucederam, é todo um rico manancial de factos observados, vividos e sentidos, com a clareza da liberdade de pensamento, não sujeito a ideias ou partidos. Ele próprio apenas, na sua simplicidade e no seu verdadeiro sentido humanista de preocupação com o ser humano, de o compreender, mesmo que tivesse de o aceitar ou criticar. É de facto uma visão do mundo e da história, como poucas vezes tem acontecido ser descrita com o notável pormenor que enriquece o conhecimento. E temos depois António Gedeão, o poeta, que escrevia poemas para si próprio e depois rasgava mas que um dia numa espécie de concurso numa Associação resolve fazer um teste para sentir como reagiam e se surpreende de tal modo que passa a publicar com esse nome que também se transformou num ícone da poesia dos oprimidos ou dos sonhadores desses tempos. Daí para o sucesso das adaptações às canções foi um pequeno passo. E estão registadas no livro as suas transmissões e entrevistas nas Rádios, os recitais, as inúmeras conferências dadas durante a sua vida. Como foi possível que um professor dedicado com todo o coração à arte de ensinar conseguisse preencher de modo tão intenso as suas horas livres com a variedade infinita da escrita e das suas actividades em prol do seu semelhante? O visitante a este espaço dirá certamente que ainda não consegui dizer o que queria. E é verdade. Adivinhava essa dificuldade. E difícil vai ser também escolher os excertos que sempre escolho para estes livros que amo. O livro estará com toda a certeza à vossa espera. E ficarão maravilhados e presos à sua leitura, tanto como eu, de tal modo o interesse se desdobra página a página. Tal como é meu hábito referir-me a Rómulo de Carvalho. Obrigado, meu Querido Professor.

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O LIVRO DA CONSCIÊNCIA
António Damásio
Temas e Debates – Círculo de Leitores

O mundialmente reconhecido neurocientista que há muitos anos saiu de Portugal e resolveu radicar-se nos Estados Unidos onde ocupa actualmente o lugar de Professor da cátedra de Neurociência, Neurologia e Psicologia da Universidade de Southern California, onde dirige o Brain and Creativity Institute, há mais de 30 anos que juntamente com sua mulher Hanna, também neurocientista, estuda a mente e o cérebro humanos. As suas investigações e os livros publicados mereceram os mais variados prémios e distinções entre os quais o Prémio Príncipe das Astúrias e recentemente o Prémio Internacional Honda Prize pelo esforço pioneiro e notável no domínio da Neurociência. Notavelmente reconhecido pelo público e pela crítica logo a partir do seu primeiro livro o Erro de Descartes (Damásio defendeu que contrariamente à afirmação “Penso – Logo existo” o que faz sentido é dizer “Existo – Logo penso”), seguiram-se O Sentimento de Si e Ao Encontro de Espinosa. n’O Livro da Consciência Damásio apresenta-nos as suas reflexões sobre como é que o cérebro constrói a mente e como é que torna essa mente consciente. No entanto ele próprio confessa que “seria disparatado partir do princípio que é hoje possível obter uma resposta definitiva”. Claro que existem diversas teorias antigas e recentes que abordam os problemas relacionados com essas questões e sobretudo de que forma nascem os sentimentos e tentam explicar a complexidade da real formação daquilo a que cada um de nós chama o nosso “eu”. Mas Damásio vai por outro caminho e além de nos explicar com uma clareza acessível aos leitores comuns a forma como é construída a estrutura do cérebro de forma a que seja possível a existência de um ser consciente e a formação dos mais variados sentimentos, está ao mesmo tempo a estabelecer a ligação possível entre a biologia e a cultura. É curioso o autor ter colocado na epígrafe um poema de Fernando Pessoa que, como ele afirma, tanto trabalhou a consciência. “Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos a tangem, cordas e harpas, tímbales e tambores dentro de mim. Só me conheço como sinfonia” (do Livro do Desassossego). E também cita o grande físico Feynmam: “O que não consigo construir não consigo compreender”. É como se afinal se tratasse de uma tentativa para ir mais além e descortinar o que nos obriga a desconhecer. E para isso nada melhor do que analisar os dados conhecidos, reflectir sobre eles e no fundo, como confessa, chegar à conclusão de que há muita coisa que não sabemos mas gostaríamos muito de saber. Uma coisa é certa. O livro está repleto de conhecimentos que nos ajudam a compreender melhor esta quase crise existencial que nos seria apetecível entender de facto mas apenas está a uma certa distância de lá chegar. E sobretudo aprende-se muito com este livro de Damásio. Ele não é apenas o professor a falar para os seus alunos da Universidade numa aula de neurociência. Ele está connosco, mesmo os que possam não saber nada do assunto, de como as células ou os mais pequenos organismos possuem estruturas específicas para seguir em determinada direcção – porquê uma e não a outra. Mas mesmo sem ir por aí, questões como a razão porque nem sempre o nosso eu controla as nossas decisões, mistérios que podem ser desvendados, podendo embora conduzir a outros para os quais não conhecemos o significado. O brilhante neurocientista ensaia a relação entre sentimentos e consciência. Nem sempre o que parece óbvio culmina na verdade. Não me atreveria a dizer que o autor chegaria à conclusão socratiana de “só sei que nada sei”. E é precisamente pelo seu saber, pela sua investigação e pelo que nos revela neste livro tão magnífico que vale a pena lê-lo. Aprendemos de facto, sobretudo os que nada sabem. Vai ser um novo êxito editorial. Disso estamos certos.

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OS SENHORES DA SOMBRA
Daniel Estulin
Publicações Europa-América

O premiado Jornalista de Investigação e autor do best-seller “Toda a Verdade sobre o Clube de Bilderberg” vem mais uma vez revelar-nos as ligações mais tenebrosas existentes entre governos, serviços secretos, grandes empresas, entidades bancárias e – imaginem – traficantes de droga e terroristas todos em conjunto com as famílias nobres de Bilderberg envolvendo numa ardilosa teia os destinos do mundo actual. Preparam ou alimentam as guerras que mais convêm aos seus desígnios, colaboram na lavagem do dinheiro dos mais temíveis traficantes e metem no bolso dos senhores da sombra fortunas incalculáveis para o comum dos mortais. As revelações obtidas por Estulin através dos seus informadores, muitos deles vivendo no interior das reuniões de Bilderberg mas também prisioneiros que acabaram por ser apanhados nas operações delineadas pelos senhores da sombra e tornando-se por isso criminosos indefensáveis, acabam por nos deixar estupefactos perante o que se passou por exemplo – e só para citar dois casos – no envenenamento inexplicável do antigo espião da KGB Litvinenko, ou nos acontecimentos da guerra do Kosovo. Litvinenko, envenenado por um raro elemento radioactivo a mando pretensamente de Putin, teria sido vítima de outras origens que tinham todo o interesse em colocar numa posição pouco agradável o antigo primeiro-ministro da Rússia. Os kosovares recebiam armas a troco de toneladas de droga que seguiam depois para a Europa Ocidental, vendidas por muitos milhares de milhões de dólares que encheram os bolsos das elites europeias. Nada disto fora divulgado e provado até agora com documentação obtida por Daniel Estulin. Relembremos no entanto que já em Junho de 2010 Estulin falou pela primeira vez no Parlamento Europeu sobre o Clube Bilderberg. Neste livro agora publicado fica de facto demonstrada como se formou uma espécie de Companhia Mundial LTD decidida a utilizar todos os seus poderes para tomar decisões que passam a afectar imensamente a vida económica das Nações, sendo que os governos ficam limitados na sua responsabilidade directiva. Estulin não deixa de reafirmar que uma aristocracia eletista da Europa e dos Estados Unidos consegue manipular o planeta criando uma rede de cartéis que são mais poderosos do que as próprias nações, destinada a controlar as necessidades vitais do resto da humanidade. Parece quase inacreditável que um grupo de Senhores tenha incluído no seu seio os mais poderosos grupos financeiros que dominam de tal modo as trocas do seu mercado de modo a levar à falência quem desejam, tanto empresas como as próprias nações que estão mesmo na origem da chamada actual crise mundial. Estulin não deixa de nos esclarecer, na intenção de nos levar a acreditar que é necessário uma união de toda a cidadania que conserva os seus reais valores humanitários de modo a evitar a constante supremacia dos Senhores da Sombra. O livro encontra-se dividido em 6 capítulos: 1 - Conspiradores, 2 - A violação económica da Rússia, 3 - A guerra do Club Bilderberg no Kosovo, 4 - A vulnerabilidade dos negócios do costume, 5 - Mercador da Morte? e 6 - O Bluff nuclear. No final são ainda apresentados uma série de Documentos e fotografias que ajudam a demonstrar a veracidade das suas afirmações. Aproveitamos para lembrar aos leitores interessados a que utilizem os seus momentos de melhor reflexão para o fazerem, sendo da maior utilidade que recolham regularmente algumas notas a fim de conseguirem acompanhar melhor as diversas explicações que o autor vai apresentando. Tudo é apresentado e identificado com datas e locais onde são descritos os acontecimentos. A sensação final com que ficamos é que de facto desde há muito que o mundo na sua globalidade se encontra nas mãos de uns tantos senhores, não poucos por acaso, e que só uma acção de perfeita consciência do que se está passando e da tomada das medidas necessárias para contrapor aos seus desígnios nos poderá libertar de um trágico final. É necessário que estes factos revelados por Daniel Estulin sejam conhecidos e compreendidos por todos nós. Leia e divulgue é aquilo que melhor se pode aconselhar. Quanto maior for o número dos que tomarem consciência do que se está a passar maior será a força para deter os Senhores da Sombra. Caso contrário, passaremos todos a ser simples escravos de uma elite devoradora dos nossos direitos e do nosso bem estar. Estaremos sujeitos às suas guerras engendradas para nos distrair do essencial e perderemos a total liberdade de decidirmos o nosso próprio futuro. Os Senhores da Sombra tomá-lo-ão a seu cargo.

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UM REFÚGIO PARA A VIDA
Nicholas Sparks
Ed. Presença

Haverá talvez quem se interrogue sobre as razões do sucesso deste romancista que agora lança a sua 17ª novela, certamente destinada a tornar-se mais um best-seller. Não é por acaso que seis delas foram adaptadas ao cinema e outras se preparam para seguir o mesmo caminho. Antes de tentar obter uma resposta, lembremo-nos que em Portugal a célebre “Message in a bottle”, o título original de “As palavras que nunca te direi”, já incluída neste espaço, vai presentemente na 54ª Edição. A explicação não parece fácil se nos debruçarmos sobre o seu trajecto literário. Nicholas Sparks que desde muito novo, ainda estudante numa Universidade de Notre Dame na Califórnia, escreveu uma novela que não conseguiu publicar, o mesmo acontecendo com uma segunda novela escrita já depois do seu licenciamento em economia, acabou por ser descoberto por uma editora que analisou profundamente um terceiro título, o célebre Diário de uma Paixão, e resolveu representá-lo e vender os direitos à Warner Books, tornando-se best-seller do New York Times numa única semana. Finalmente apareceram as referências no New York Times e os prémios. Finalmente, o público podia rever nas suas palavras a profundidade dos seus sentimentos. Nicholas Sparks, analisa com realismo o drama humano que por vezes atravessa inesperadamente as nossas vidas, quando o mistério daquilo a que muitas vezes erradamente se chama destino, nos faz balançar entre os apelos do coração e a frieza da razão. E é precisamente porque ele nos explica que o coração acaba por vencer, mesmo quando tudo parece desabar nas nossas vidas, por mais difícil que sejam as contradições encontradas, que alcançamos aquela serenidade de espírito, sempre desejada por todos os que anseiam encontrar a felicidade. Os seus leitores habituais já estão habituados a que Sparks lhes conte algo que na realidade poderia acontecer a qualquer deles. Se gostariam ou não que isso lhes acontecesse exactamente é o que duvido, tal a intensidade dos dramas sofridos. Mas quase passar pela experiência e no final ficar com uma sensação de que algo de maravilhoso foi vivido é quanto lhes basta. Particularmente neste romance alguém procura de facto um refúgio numa comunidade diferente daquela onde a vida não lhe sorriu e, pelo contrário, lhe retirou a vontade de criar novos laços afectivos. Contrariamente a essa tomada de decisão, acaba por integrar-se e prender-se a uma nova paixão. E é perante isso que irá acontecer a luta entre o seu promissor presente e o passado que continua a persegui-la. Como vencer essa luta é o que nos vai descrever Sparks em “Um Refúgio para a Vida”. O estranho segredo com o qual chegara acaba por ser desvendado e entra mesmo em conflito com a sua vida presente. Será que afinal temos todos de aprender a viver com as nossas sequelas por mais profundas que sejam? Até que ponto nos temos que submeter a um passado que não queremos ou alcançar a libertação por mais penosa que seja? Fica o convite para o lerem.

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MENSAGEM
Fernando Pessoa
Ed. Centro Atlântico

É a Hora! Assim termina essa extraordinária obra que o poeta dedicou à sua Pátria e onde descreve a sua origem e passado, esquecendo o presente mas visionando o futuro deste país. Terá sido essa a ideia que presidiu à criação. Tendo publicado em vida vários poemas dispersos por jornais e revistas literárias, a Mensagem viria a ser o único livro que se permitiria publicar antes de morrer, a pedido de um membro do regime, seu amigo, mas que haveria de ser retirado por não possuir o número mínimo de páginas requerido para concorrer ao Prémio Antero de Quental. Viria a receber um outro Prémio especialmente criado para si. Ao longo do tempo, os estudiosos e críticos pessoanos não se cansaram de elogiar o significado da Mensagem. São muitos e variados esses estudos e naturalmente importantes para a compreensão do significado da Mensagem. Pessoa tem sido considerado mais importante na literatura poética do que o próprio Camões com os Lusíadas ou pelo menos igualmente importante. Para o grande público, no entanto, a Mensagem é uma espécie de símbolo criado pelo poeta dos heterónimos mas ao lê-la é por vezes difícil compreender o tão profundo ela se enraíza no que nos pertence ou pertenceu e na visão que o autor pretendia dar do seu país que um dia havia de renascer. Já depois de lhe ser atribuído o tal prémio especial, é o próprio Pessoa que realça o profundo simbolismo que esta obra encerra num modo onde poderemos percepcionar os seus desejos de uma fraternidade universal. Ora é esta profundidade que por vezes escapa ao comum dos leitores. Por isso “É a Hora”, quando decorrem as celebrações do 75º aniversário da sua morte, de aparecer uma edição especial da responsabilidade da Centro Atlântico que nos oferece para além do grande poema épico o acompanhamento na página adjacente do significado das palavras ou expressões utilizadas pelo poeta. Até onde chega afinal o sentido verdadeiro que ele lhe quis dar. E é esse contributo valiosíssimo, da responsabilidade de duas licenciadas em Filologia Românica, Auxilia Ramos e Zaida Braga. Sabia por exemplo o que significam exactamente aquelas estrofes tão conhecidas: “Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!” e que depois termina com a frase: “Para que fosses nosso, ó mar!”? Pois cada estrofe ou conjunto de estrofes está explicada de forma acessível e compreensível para todos, de modo a não prejudicar minimamente a leitura fluente do poema épico. Uma Mensagem a não perder, esta que descreve talvez o que de mais verdadeiro existe na condição universalista de ser português. Mas terá de ser bem compreendida para lá chegarmos. E, não sendo a única, é essa a grande virtude desta magnífica edição.

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O ANJO BRANCO
José Rodrigues dos Santos
(Ed. Gradiva)

Uma das coisas que mais admiro na obra de José Rodrigues dos Santos tem sido a sua grande capacidade de nos prender no desenrolar dos acontecimentos que relata, quer sejam de carácter ficcionista ou parcialmente verídicos. Para mim que não sou crítico literário mas um leitor atento e entusiasmado – ia quase a confessar apaixonado – como se cumpre afinal este espaço dedicado ao meu Amor pelos Livros, é essa uma das facetas que deve caracterizar um romancista. E José Rodrigues dos Santos que vai com este livro no seu 8º romance tem sido como tal reconhecido pelo público que esgota as numerosas edições que têm sido feitas dos vários títulos. Não estamos nem minimamente convencidos que tal seja devido ao facto de ser igualmente um jornalista de grande mérito como por vezes é afirmado em relação a outros colegas seus, também jornalistas, que publicando obras de certo valor literário não conseguem obter os mesmos êxitos. Portanto algo de diferente, obviamente, se passa com os romances de José Rodrigues dos Santos. A construção literária, fluida e correcta, acompanha uma história que pode ou não ser verosímil mas que o leitor aceita como tal. Em obras anteriores, nomeadamente a Fúria Divina, a documentação foi criteriosamente investigada, resultando num misto de ficção e realidade em que o leitor mergulha, para compreender alguns dos aspectos menos conhecidos do fundamentalismo islâmico que, como sabemos é um assunto eminentemente actual. Desta vez, temos o que alguns poderiam chamar um livro sobre as raízes de alguém que conhecemos muito bem – creio que o autor confessou que estava ali o retrato de seu Pai. O Anjo Branco é um médico que na sua estadia em Moçambique, resolve criar um sistema inédito de auxílio aéreo às populações mais carenciadas e desprotegidas. De repente vê-se confrontado com a Guerra Colonial. Mas para José Branco era indiferente o lado em que se encontravam. A sua missão era humanista e universalista. José deslocava-se num pequeno avião para onde quer que fosse necessária a sua presença. E assim nasceu no mato uma espécie de lenda. O romance descreve portanto o panorama vivido nessa antiga colónia portuguesa, num dos momentos mais difíceis da nossa história recente. Realidade ou ficção, em alguns aspectos, só o autor o sabe. Um grande amigo meu, igualmente médico, que fez serviço em Moçambique, nesses tempos, recorda efectivamente a presença daquele a quem a população chamava o Anjo Branco, aquele que descia de um avião, chegado do céu, vestido de branco, para sarar as feridas abertas pelo terror da guerra. Mesmo que tenha sido uma espécie de homenagem a esse homem a quem o autor estava ligado (José Rodrigues dos Santos nasceu em Moçambique) este seu novo romance não deixa de nos fascinar pela forma como está escrito e pelos sentimentos de abnegação e verdadeiro amor ao próximo que consegue transmitir-nos e que tão importantes são hoje para uma possível mudança radical no mundo em que vivemos.

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NAS SUAS PALAVRAS
José Saramago
(Ed. Caminho)

Este é, assim o podemos considerar, o derradeiro livro de José Saramago. Numa recolha do que disse ou escreveu, a partir de 167 fontes de entrevistas e livros, feita pelo seu amigo Fernando Gómez Aguilera, poeta, ensaísta e filólogo, apresenta-se, se é que para alguns é necessário, o verdadeiro retrato desse homem que para além de um grande vulto da literatura portuguesa, foi sempre o espelho do que há de mais digno num ser humano. Fiel às suas convicções humanistas de defesa dos direitos do homem, de ser a voz dos mais pobres e sacrificados deste mundo cruel em que vivemos mas também da capacidade de criticar quando entendeu que o devia fazer, sempre considerando que a ética (nas suas palavras) “é a coisa mais bonita da humanidade”, estão neste livro fragmentos do seu pensamento que nos ajudam a entender melhor o que somos como seres humanos.
Esqueçamos as divergências políticas ou religiosas em alguém que sempre pautou o seu comportamento pela capacidade de ser livre e de saber dizer não. Aqui, nestas páginas deste livro, n’As suas palavras, todos podem encontrar o verdadeiro Saramago e talvez até as razões porque teve de escrever sobre assuntos que alguns consideravam – e por ventura ainda consideram – intocáveis. Para ele, que considerava que entre os direitos do homem também pode e deve haver o direito à heresia, arrisco-me a dizer que teria a obsessão de procurar a verdade dos factos e das coisas, o porquê da história contada ao longo dos tempos, uma tentativa de se esclarecer e de esclarecer os outros com algo que poderia muito bem ser a verdade encontrada. Mas Saramago nunca pretendeu impor as suas ideias. Apenas as defendeu com as únicas ferramentas que um ser humano digno deste nome deve usar: a voz e a escrita. Pela escrita recebeu o Nobel da Literatura com o qual honrou mais o seu país do que o impressionou a si próprio, não se preocupando em mudar as suas ideias ou as suas relações com o mundo e com as pessoas. Pela voz foi possível muito mais: denunciar injustiças, fazer a análise crítica das circunstâncias em que o mundo vive e isto em qualquer hora, em qualquer lugar porque, segundo ele, a Vida está sempre noutro lugar e é necessário caminhar ao seu encontro. Foi isso que fez. Caminhou onde quer que fosse necessário. Utilizando as veredas tortuosas que se deparam quando se quer ir mais além, ao fulcro das questões por vezes ocultadas para que dificilmente sejam reveladas as suas pecaminosas origens, Saramago não poupou palavras e revelo-as ao mundo. Aí estão para os que quiserem conhecer a verdade. Saramago ainda conseguiu fazer a revisão deste livro. Pilar del Rio no dia da apresentação da obra, revelou à assistência que enchia a Sala do Palácio Galveias uma frase dita pelo marido pouco antes do seu falecimento, quando juntamente com alguns dos seus amigos se falava sobre a crise actual num recanto do quarto onde o escritor estava deitado, pensando-se até que ele não estaria a ouvir. Mas estava. E então todos o ouviram dizer: “Esta crise não é uma crise económica, é uma crise moral”. Já não foi a tempo de ser publicada nesta edição. Mas sairá na próxima. Medite-se bem nesta verdade com que Saramago resolveu selar os seus últimos momentos, sempre preocupado com o mundo que continuaria a girar mesmo depois dele partir.

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JARDIM REPUBLICA
Pedro Foyos
Editorial Hespéria

Não foi fácil a história dos momentos que se viveram antes e depois da implantação da Republica que este ano se comemora. Nem todos os conservadores se comportavam como o meu Avô que sendo monárquico e um médico ilustre que também ficaria conhecido como figura importante na luta pela autonomia dos Açores, pagava do seu bolso a um dos seus filhos, ainda durante os últimos tempos da Monarquia, a edição de um pequeno jornal clandestino defendendo a Republica, do qual era responsável o meu Pai, ao tempo estudante em Coimbra. Foram duras e acesas as lutas entre os conservadores e os reformadores livres-pensadores do novo regime implantado a 5 de Outubro. Mais ou menos conhecidas as diversas manifestações ocorridas, através de relatos publicados nos jornais da época, alguns assinados por figuras ilustres da nossa literatura, o escritor Pedro Foyos resolveu revelar um dos factos históricos talvez mais ignorado mas que ilustra bem a irracionalidade de certas motivações. O autor dos recentes Criador de Letras e Botânica das Lágrimas é um excelente investigador que não desdenha a sua faceta jornalística de renome e consegue juntar, numa obra, a documentação histórica e rigorosa com a ficção fantástica. O seu Jardim Republica é uma obra encantadora. E esta classificação estende-se ao fenómeno de a sua leitura nos encantar ao ponto de não pararmos sem atingir a última página. E se não fosse suficiente o facto de ser uma obra que enaltece o amor pela Natureza que nos rodeia, defendendo a sua preservação para garantir a vida na Terra, existe a magia do autor ao descrever o que foi a história pela criação do Dia da Árvore.
De facto, o culto da árvore marca de forma insofismável a transição do regime monárquico para a Republica. E conforme nos descreve Pedro Foyos, nasce um aproveitamento político para acusar os republicanos de uma idolatria ateísta pelos novos deuses e de odiosos destruidores da moral cristã. Figuras eminentes da cultura portuguesa tentam desmentir tais falsidades interrogando os conservadores sobre como foi possível imaginar que Deus tivesse criado a árvore para depois se arrepender.
Começando pela descrição ficcionada de como uns tantos inimigos da recente Republica lançavam o seu ímpeto destrutivo contra tudo o que era espécie vegetal e invadiam pela calada da noite os locais onde tinham decorrido as plantações integradas no recém-criado Dia da Árvore, o autor descreve como em pleno Jardim Botânico todas as plantas se organizam para derrotar os vândalos invasores. E depois deste seu conto fantástico, Pedro Foyos apresenta-nos na segunda parte desta obra uma série de documentos que são o verdadeiro testemunho histórico dos acontecimentos que foram consolidando as celebrações do Dia da Árvore e levaram já após o 25 de Abril à sua passagem para Dia Mundial da Floresta.
Assinalemos como factor que muito enriquece esta obra a cuidada ilustração a preceito para um conto fantástico e a reprodução de registos iconográficos de vária ordem publicados na época, tudo razões mais do que suficientes para recomendar a sua leitura como algo imperdível e por isso merecedor da nossa classificação em Amor pelos Livros.

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O PRINCIPEZINHO
Antoine de Saint- Exupéry
MHIJ Editores

Este é um dos livros que não agrada apenas aos mais novos por ficarem encantados com a história daquele Principezinho que aparece ao autor em pleno deserto dizendo ter vindo de um asteróide para saber como se vive na Terra. E passamos a assistir a um diálogo em que ele conta o que já lhe aconteceu, interrogando-o sobre o significado de muito do que já tinha observado e que não conseguira compreender. Saint-Exupéry vai tentando explicar-lhe o que sabe e o que imagina saber, pois nem todas as perguntas têm uma resposta lógica para o Principezinho. Aliás o pequenino herói também lhe conta muito do que se passa lá por cima no seu e noutros asteróides que também visitou. Ao reler agora este livro ou escutá-lo em CD pela voz de Pedro Granger num audiolivro, teremos de nos esquecer que para os dias de hoje, quando o homem já viaja em sofisticadas naves espaciais que lhe dão a conhecer o espaço extra-terrestre, a história poderia parecer não ter sentido. Mas Saint-Exupéry foi no seu tempo muito mais além do verdadeiro sentido das coisas e dos homens do seu tempo. Humanista por formação, este homem que também foi aviador que viveu na realidade aventuras várias tocando em muitos pontos do globo, tendo aliás desaparecido na sequência de um estranho desastre nunca completamente esclarecido e muitas vezes envolvido nas mais curiosas experiências, delicia-nos nas páginas desta obra com extraordinárias conclusões sobre a humanidade e de como o homem que a integra pode ou não reagir. E de facto, acabo por concluir que muita coisa de que não me apercebi neste livro que li na minha infância, me aparece agora com grande evidência, demonstrando um autor que tinha muito mais para dar no seu Principezinho do que apenas uma história infantil. Afinal sempre é verdade que “«Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos...». Como em muitas das suas outras obras que nos deixou, Saint-Exupéry também aqui não deixa de fazer o seu apelo a uma união de todos os homens, independentemente da sua raça, religião ou idioma. E a sua intenção era sem dúvida que, ao ler o seu livro, os jovens aprendessem a sentir e a defender desde pequenos esses valores tão importantes e cada vez mais nos dias que actualmente vivemos. O valor supremo da solidariedade está bem patente ao afirmar: “«Quando nos deixamos prender a alguém, arriscamo-nos a chorar de vez em quando...». E como gostei de voltar a sentir-me criança e ao mesmo tempo absorver muito do que outrora não me apercebi mas que talvez – e humildemente o digo – tenha influenciado a minha formação, saúdo esta nova edição e faço votos para que seja lida por todos, sobretudo os mais jovens, alheados de boas leituras, contribuindo afinal para conseguir um futuro que desejamos mas que infelizmente ainda não soubemos criar. A esperança é a última coisa a morrer. Isso sabemos. E apesar de tudo o que se espelha hoje à minha volta, ainda resiste em mim. Não pretendo com isto dizer que não existam autores na literatura infantil actual que defendem princípios iguais mas o Principezinho de Saint-Exupéry é um verdadeiro clássico que merece conservar o seu lugar no nosso tempo.

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O PARADOXO DO AMOR
Pascal Bruckner
Publicações Europa-América

Este livro é mais uma contribuição valiosa para conhecermos melhor o porquê do Paradoxo do amor, assim conhecido e definido por ele se contrariar a si próprio. Acontece, tem a sua duração mais ou menos limitada e depois, talvez devido a uma contrariedade ou mais do que uma, provocada por certas inibições no comportamento normal do ser humano, desvanece, passa por fases mais obscuras ou mesmo desaparece. E afinal terá sido sempre assim? O amor de hoje é diferente do de outros tempos? Como seria no homem primitivo? E como classificar os mais diversos tipos de amor, o amor materno, o amor por um Deus, o amor à vida, o amor aos outros? Será que nestes casos também se perde alguma coisa, em troca? Mas vejamos o que a maioria pensa.
Qual de nós não tem uma opinião sobre o significado do Amor? Todos aspiram a vivê-lo um dia ou a continuar a vivê-lo para aqueles que julgam – julgam digo bem – ter encontrado já esse sentimento e estar a desfrutá-lo. Os adultos recordam com certeza as histórias dos livros infantis sobre um príncipe e a sua amada que terminavam todas de igual modo com aquela frase “e viveram felizes para sempre”. Significava isso que o seu amor não terminaria nunca. Os jovens de hoje já não lêem essas histórias e até sabem que o amor chegará mas não têm a certeza de que durará para sempre. E no entanto, assistimos a entrevistas com idosos que dizem que já vivem felizes há muitos anos, vivendo intensamente o seu amor. Claro que poderá haver excepções. Mas a regra não é de facto essa. O amor desaparece mais tarde ou mais cedo e fica qualquer coisa que muitos intitulam de amizade. E daí a confusão. Porque será que amor morre? Se é que morre. Depois temos os romances imortais de Romeu e Julieta, Orfeu e Euridice e muitos mais. Grandes amores sem dúvida, embora ficcionados, mas com um final infeliz. Temos também os poetas que nos falam do verdadeiro amor, que dedicam os seus poemas aos seus entes queridos, desejando amá-los para todo o sempre. Enleados em tudo isto e muito mais, para não nos alongarmos, vamos formando pessoalmente a nossa opinião. E no entanto não conseguimos explicar porque razão é que ele desaparece. Sabemos que é mentira ao que nos conta a História sobre os Grandes Amores. Sabe-se agora que não terá sido totalmente como nos contaram os amores entre D. Pedro e D. Inês. Já há largos anos que deixou de ser tabu falar no sexo e utiliza-se também o termo amor carnal. Para o diferenciar – diz-se – do amor platónico, sendo que esta expressão não tem nada a ver com o conceito de amor na filosofia de Platão. Mas adiante. O que será que este autor nos diz mais do que outros que o antecederam? Ao longo dos tempos muitos têm sido os autores que se têm debruçado a explicar o paradoxo do Amor. E para além do amor entre dois seres humanos sempre aproveitaram naturalmente para falar da parte mística, do amor divino respeitante ao que pode existir numa qualquer religião. Só para citar um caso, Vaugham Lee debruçou-se mesmo sobre os sufistas de uma ordem Islâmica persa Naqshbandi apresentando as razões da existência também do paradoxo do amor divino. E também ali, como nas restantes religiões, o amor ao outro confunde-se com a perda da liberdade. Ora se quem ama o divino deverá ser amado por Ele, porquê então esse Ele lhe vai proibir a liberdade. E a história que aproveitámos para exemplo, todos a conhecem repetida nas restantes religiões. Mas falemos deste livro de Pascal Bruckner que não deixa igualmente de referir as contradições ou paradoxos dentro da religião cristã, chegando mesmo a citar Santo Agostinho a respeito do problema da sexualidade. O Santo imaginava as cópulas de Adão e Eva no Paraíso antes do pecado original e inventa mesmo a sexualidade sem libido. Mas para o autor como para todos nós, isso nada tem a ver com o significado do amor verdadeiro, total. Bruckner não deixa, é claro, de nos recordar, relatando com factos históricos a evolução ou revolução que aparece na nossa sociedade, principalmente a partir das ideias do Maio de 68, sendo que algumas permaneceram e foram aceites nos dias de hoje por uma certa camada da população mas ao mesmo tempo condenadas por outra. É que o amor e as relações humanas são de facto a parte mais paradoxal do ser humano. E Bruckner, como outros, refere por exemplo que no amor podemos encontrar ao mesmo tempo a maior das forças e as mais profundas tristezas. Mas contrariamente a outros autores que se interessaram pelo paradoxo do amor no plano geral da humanidade e da falta dela, este ensaísta, várias vezes premiado pelas suas obras, dedica-se sobretudo neste livro ao amor, na sua parte de relação entre dois seres. E não deixa de nos recordar como, contrariamente ao que julgavam os que o conceberam desde Engels a muitos teóricos do século XX, o casamento por amor não veio afinal a contribuir para que acabasse a prostituição e o adultério, tal como a desejada libertação sexual da década 60/70 não iria conduzir-nos ao verdadeiro encontro com o sublime. O curioso é que a conquista a partir do século XVII de se passar a escolher quem amamos e a amar quem nós queremos não nos trouxe a liberdade, salvo naquele pequeno período da revolução de Maio e alguns anos que se seguiram. Será que é assim tão impossível conjugar os dois desejos que nos trariam a felicidade? A solução tem sido encontrada no adultério, tanto do homem como da mulher mas é uma das principais razões da dissolução do casamento. Como encontrar resposta para tantas questões. Desejamos o outro para sermos felizes mas desejamos igualmente a liberdade cuja perda parece ser afinal o preço a pagar pelo amor. Mas se aquele que ama é amado, deveria haver da parte do outro a compreensão e o amor suficiente para o aceitar tal como é, desde que isso nunca atingisse, como por vezes é hoje corrente, o uso da violência. Neste caso, não há amor verdadeiro. Ou será que o amor traduzindo uma certa violência, nos mistérios da posse, para atingir o máximo de prazer se confunde depois com o ultrapassar do humano? Num plano completamente diferente, quase todos os que se têm debruçado a estudar o amor estão de acordo em que apesar de ele poder ser entendido de diferentes formas - e nesse caso teremos de o considerar como algo de abstracto – ele será um sentimento por excelência de todo o ser humano, sendo vital para as nossas vidas, a tal ponto que sem ele não sobreviveríamos. Apesar de se poder morrer de paixão, ansiamos por ela mas desejamos ao mesmo tempo ser livres. Mas a paixão domina. Sabemo-lo todos. Tudo isto faz parte do paradoxo do amor que tem sido intensamente estudado, analisado e exposto. E este livro de Pascal Bruckner, debruçando-se sobre aspectos tão vastos, impossíveis de aqui descrevermos, é um contributo que recomendamos. Não porque se encontre a solução que não parece fácil mas porque é uma obra completíssima para compreendermos a realidade: o homem evoluiu mas o mesmo não aconteceu com o amor. Perante isso, preparemos o futuro.

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DIÁLOGOS PARA O FIM DO MUNDO
Joana Bértolo
Editorial Caminho


Não é fácil a leitura deste livro da jovem escritora curiosamente licenciada em Belas Artes e presentemente a fazer o seu doutoramento em Berlim. Distinguida já com vários prémios, um deles atribuído precisamente a este título quando ainda na sua fase de manuscrito (Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho –2009) a fundamentação do júri salientava uma desenvoltura de linguagem, originalidade na construção narrativa e a variedade de registos (…) denotando um louvável poder de comunicação. Mesmo antes de termos tido conhecimento destes fundamentos, também encontrámos nestas páginas um inegável poder de concentração dos mais variados sentimentos, ligados por factos que já aconteceram e de que temos conhecimento como de algumas interrogações que todos nós fazemos sobre o incompreensível futuro que sempre nos espera ou espreita à esquina do caminho a percorrer. Joana Bértolo não pretende dar respostas mas sim levar-nos a pensar sobre uma imensidade de questões que habitam o vasto oceano das nossas vidas. E por essa razão dissemos há pouco que não era fácil a sua leitura mas talvez até por isso mesmo exista a vantagem de o fazermos e não sendo um livro cujas páginas se devoram aguardando o momento de as voltar merece que paremos de vez em quando para avaliar até que ponto nos revemos nelas ou revemos até o próprio mundo em que vivemos. Escrita original, sem dúvida, a pouco e pouco vamos querendo viajar com Joana Bértolo pelos caminhos que vai traçando nas suas descrições. E para que tudo estivesse mais completo nem a música deixa de estar presente. Seja ela pressentida no convés de um navio que soubemos ter naufragado há muito tempo como na grandeza de um compositor que ficará na eternidade enquanto dela tivermos no Quase seria levado a dizer que em vez de um romance, ali coexistem vários romances. O amor está naturalmente presente numa curiosa história que transversalmente cruza as mais variadas situações. Mas onde estará o Futuro do Amor? E onde o Futuro se ele já é agora? Desse modo Joana convida-nos a procurar respostas que ela nunca teve a pretensão de dar. Mas a pouco e pouco e à medida que a acompanhamos nestas páginas dos seus Diálogos – que o são de facto não só entre as diversas personagens como sobretudo entre nós próprios e a autora – concluímos que é uma obra que merece o seu destaque neste nosso Amor Pelos Livros. Diálogos para o Fim do Mundo são de facto Diálogos para o nosso presente. Um presente que foi Ontem, é hoje mas também é já amanhã.

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RATINGS
50 Perguntas e Respostas

Eduardo Ferreira
Centro Atlântico

A vinda a público de notícias sobre a crise económica mundial e mais particularmente sobre as que afectam de modo individual os diversos países como é o caso de Portugal, fez aparecer com frequência através da Comunicação Social e nas diversas intervenções de membros do governo ou de representantes dos partidos o termo rating e indicações dadas por agências de rating. A situação do país era assim fornecida de um modo absolutamente novo para grande parte das pessoas. Não era o governo que o dizia. Ele também se baseava em tais números ou datas ou então negava que fossem verdadeiros e reais. O mesmo acontecia com as opiniões dos diversos comentadores. Alguns espíritos mais esclarecidos recordavam-se de ter ouvido o termo aplicado por exemplo a audiências televisivas ou limites para certas actividades ligadas ao consumo. Em traços largos sabiam que rating é a avaliação de alguma coisa em termos de qualidade, como por exemplo o lugar ocupado por um certo filme no universo dos que estão a ser exibidos num determinado período de tempo. Mas que isso ditasse as previsões para o crescimento ou diminuição de uma crise económica era de facto algo de novo. Qual a razão de todo o sistema financeiro mundial estar relacionado com os ratings indicados por agências especializadas. Mas para não darem sinal da sua ignorância, poucos se interrogavam sobre o seu real significado ou porque apareceram de repente. E afinal, o necessário era que alguém nos explicasse o que eram ou são de facto os famosos ratings, quem os avalia e como e porquê aparecem. Foi razão suficiente para chamarmos aqui a vossa atenção para este livro da Centro Atlântico onde Eduardo Ferreira, licenciado em Gestão e Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, com presença de jornalista em vários orgãos da Comunicação Social e de analista em organismos de gestão responde de forma sucinta e muito explícita a uma série de perguntas que afinal andamos muito a fazer nos últimos tempos: São 50 perguntas e as respectivas 50 respostas que nos são apresentadas, desde a simples explicação do que é um rating e quais as principais agências de rating até, entre outros pormenores, às metodologias aplicadas para classificações que terão – ou já estão a ter – um impacto significativo na vida de milhões de pessoas. Claro que podemos ter já a noção de que um rating é algo que uma entidade, organismo ou estado que se encontram numa posição de credores encomendam a uma agência especializada – ficamos a saber que são 3 as mais conceituadas – a fim de conhecer a situação financeira do seus devedores. Mas até que ponto é que isso pode ser fiel ou falível e influenciar a governação dos visados? Porque é que há quem defenda que o seu uso devia ser fortemente restringido e porque é que a Grécia foi forçada a assinar um acordo com o FMI e Portugal pode ser o alvo seguinte dos especuladores? Qual é afinal o valor da dívida portuguesa e qual será a evolução das suas taxas de juro? E depois de muitas mais perguntas e respostas, será que as agências de rating têm alguma utilidade ou poderíamos viver num mundo sem elas? Vamos conhecer alguns dos seus erros e de quem consegue afinal tirar vantagens dos valores ditados pelas agências. Será que é necessário dizer mais alguma coisa para ficarmos suficientemente esclarecidos? Claro que sim. Basta que aceitem o nosso convite para ler este livro sobre um tema mais do que actual e de que depende muito ou mesmo a quase totalidade do nosso futuro: Ratings – 50 Perguntas e 50 Respostas.

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OS FILÓSOFOS NO DIVÃ
Charles Pépin
Publicações Europa-América

Todos sabemos que as ideias por vezes defendidas por algumas pessoas nem sempre são coincidentes com as suas verdadeiras preocupações e com aquilo que na realidade sentem na sua mente. Claro que felizmente essa não é a regra geral e acontece sobretudo na política mas já se registaram até casos de individualidades das mais variadas áreas mesmo com escritores. O que passaram para o papel e ficou às vezes para a posteridade não coincidia com as suas reais convicções. Vá lá saber-se porquê! Mas será que quando se trata de filósofos, grandes nomes históricos cujas teses nos habituámos a respeitar, podendo ou não concordar com elas em todos os seus aspectos, cometeram igual pecado? Poder-se-á perguntar se tal seria concebível ou antes pelo contrário as suas teses filosóficas eram precisamente o produto das suas mais intrínsecas preocupações. E quando esses filósofos são nomes como Platão, Kant ou Sartre, a nossa curiosidade sobre as causas que os levaram a defender as suas teorias é ainda maior. Pois foi o que Charles Pépin, jovem escritor e professor agregado de Filosofia no Liceu do Estado da Legião de Honra de Saint-Denis e no Instituto de Estudos Políticos de Paris resolveu investigar baseado, conforme ele explica no seu livro “Os Filósofos no Divã”, num criterioso conjunto de fontes históricas, textos autobiográficos, cartas dos próprios filósofos, obras biográficas e até no caso de Sartre, de entrevistas. Charles Pepin afiança-nos que nada foi inventado. E assim imaginou um encontro ou melhor vários encontros desses três personagens estendidos num divã em casa de Freud. Junta-se assim a Psicanálise à Filosofia e assistimos ao processo do regresso às suas vivências passadas, aos seus afectos e contradições, desde a infância à execução das obras que nos deixaram. Só Freud de facto os poderia fazer revelar a verdade. E isso é tão importante como afinal poder compreender o legado das suas ideias. As teorias de Platão, Kant e Sartre aparecem-nos à luz de uma mais completa transparência e Pépin oferece-nos de facto um livro fascinante e maravilhoso que se lê com enorme agrado. O leitor encontra-se na posição de verdadeira testemunha dessa sucessão de entrevistas em que personagens tão célebres confessaram num divã as suas preocupações. E no desenrolar das situações que viveram e que perante nós - através de Freud claro ou através da análise de Charles Pépin – recordam e de algumas obsessões que por vezes os atingiram mais profundamente, acabamos por conhecer melhor o que eram tais celebridades como homens e como conduziram as suas vidas. Com esse aditivo não é de estranhar que assimilemos também melhor a profundidade das suas ideias que se consumaram nas suas teses filosóficas, desde o idealismo de Platão ao significado do dever para Kant e naturalmente às mais recentes teorias defendidas por Sartre num momento muito próximo de nós e que até muitos de nós chegámos a viver. Uma obra que se lê com um prazer inegável, razão mais do que suficiente para aqui figurar e deixar a todos o convite para acompanharem estas três grandes figuras no livro de Charles Pépin “Os Filósofos no Divã”.

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MITOS URBANOS E BOATOS
Susana André
A Esfera dos Livros

Muita gente se recorda do tempo em que se dizia que um boato nascido numa ponta da cidade de Lisboa levava 15 minutos a chegar ao limite oposto. Hoje em dia, algo que nasce em qualquer ponto do país estará dentro de muito poucos segundos algures na Austrália ou no Japão e naturalmente em qualquer ponto do globo. A velocidade a que uma história, por mais inverosímil que possa parecer, é difundida por todos os países apenas depende de uma ligação à Internet. É esse o grande veículo de comunicação do presente que nos traz a verdade mas também difunde a mentira. O modo como se propagam os boatos, através do correio electrónico, faz com que possam parecer verdadeiros de tal modo são inúmeros os testemunhos que vão chegando de todos o lado. “O boato fortaleceu-se com as novas tecnologias “ diz Miguel Sousa Tavares no prefácio ao livro da jornalista Susana André sobre Mitos Urbanos e Boatos.
O parentesco entre o Mito e o Boato
é algo de muito subtil, sendo que o mito pode subsistir durante mais tempo que o boato e tornar-se uma lenda que pode passar de geração em geração. Por vezes sofre uma ligeira adaptação às condições momentâneas mas a sua origem continua incerta a vaguear de boca em boca, algumas delas garantindo que os próprios donos viveram tais peripécias ou pelo menos conhecem muito de perto quem as viveu. Susana André reúne neste seu livro uma longa série de mitos e boatos que alguns de nós chegámos de certo modo a vivenciar e até por vezes a ajudar a difundir, tão convincentes e adaptados ao nosso tempo eles nos pareceram. Numa época em que todo o cuidado é pouco devido à falta de segurança de certos sectores onde nos deslocamos ou de produtos que usamos. Onde algo que se diz ser a última descoberta para resolver este ou aquele problema é mais tarde demonstrado falível, somos levados a acreditar em todo e qualquer alerta que nos chegue de repente ao conhecimento, quer por uma voz amiga ou uma comunicação electrónica de alguém que conhecemos e que se apressa a que esse mesmo alarme chegue o mais rapidamente possível aos seus amigos. Portanto a história de uma determinado produto químico que entra na preparação de uma pasta dentífrica poderia bem ser afinal um veneno perigoso. Alguém que anda em certo lugar da cidade a proceder a assaltos sistemáticos pode muito bem ser possível. Enfim, Vamos ter possibilidade de conhecer neste livro um grande número de “histórias”, algumas bem recentes, juntamente com a explicação encontrada pela autora para o seu aparecimento e, mais ainda, nos mitos em que se basearam e que já correram o mundo noutra forma e noutras épocas. Quem não se lembra da Guerra dos Mundos, o programa radiofónico com que Orson Welles lançou certo pânico em 1938 com os Marcianos a descerem em Nova York, depois o saudoso Matos Mais, 20 anos depois, através da Rádio Renascença e mais recentemente o boato de que teriam aparecido marcianos em Carcavelos. Este boato tinha as suas raízes nos dois acontecimentos anteriores, apesar de estes terem sido devidamente anunciados como teatro radiofónico. Já o caso da urina de rato nas latas de conserva ou o das agulhas infectadas pelo vírus da Sida nas cadeiras dos cinemas nasceram precisamente dos nossos receios actuais. Susana André explica-nos como nascem, porque nascem, como vivem e como morrem, no caso de chegarem a morrer, os boatos postos a circular à nossa volta. É uma análise e um estudo que a autora divide em vários sectores desde o sexo ou a morte até à arma política. É de facto uma obra curiosa e elucidativa que nos faz estar mais bem preparados para futuros boatos e repetições engenhosas de certos mitos urbanos.

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