Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

palavras do
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa
Edição Libório Manuel Silva

Editora Centro Atlântico

Perante o verdadeiro encantamento que me foi proporcionado ao voltar a ler numa recentíssima edição, seleccionada e apresentada por Libório Manuel Silva, alguns das muitas centenas de trechos, descobertos até agora, aos quais Fernando Pessoa – os poucos ainda publicados em vida em revistas da sua época – chamava "do Livro do Desassossego (em preparação)", não podia deixar por mais tempo a sua colocação neste meu espaço de Amor pelos Livros. E por isso aqui foram colocadas umas simples palavras de apresentação que alinhavei da melhor maneira possível para confessar que não me era fácil, nem rápido, escrever como habitualmente faço o que pensava sobre este novo Livro do Desassossego (creio que existem pelo menos 8 edições anteriores). Argumentando que me seria por exemplo mais fácil escrever sobre uma nova edição dos Lusíadas – o que de facto é verdade - confessava a minha grande admiração pelos trabalhos de Pessoa que sempre estiveram comigo (Obras Completas de Edições Ática) desde muito jovem, a tal ponto que interiorizava o excepcional desafio mental que ele nos proporciona. Acontecia mesmo que muito do que eu escrevia nesses tempos e até alguma poesia (ou não fossemos um país de poetas) que então publicava em alguns jornais tinham uma forte influência de Pessoa, o que poderia até considerar como algo elogioso mas não me agradava pois o sentia como falta de originalidade. Permito-me – espero que não me levem a mal – citar aqui uma dedicatória colocada no primeiro volume das Obras Completas de Fernando Pessoa, ed. Ática, pelo meu amigo F.A.J.: “Este teu pobre amigo, pela sua mediocridade de espírito, não pode compreender, tão profundamente quanto ela merece, a poesia de Fernando Pessoa. Talvez tu, como verdadeiro poeta que és, saibas reconhecer quão sublime ela é e me possas ajudar a compreendê-la melhor”. Enfim, para além do exagero do amigo, quanto às minhas virtudes de poeta, o ter notado que algo de mim pertencia a Pessoa. Eu poderia estar, creio agora, a rever-me nele, através dos seus heterónimos, o que não é de estranhar se pensarmos no extraordinário mundo das mais variadas sensações que a sua poesia nos transmite.

Mas falemos então dos trechos do seu sempre inacabado Livro do Desassossego. Apesar de ter a noção de que nada posso juntar ao que tem sido escrito por ilustres nomes do nosso meio literário e cultural, apenas me limito a referir a intensidade de emoções e algo dos pensamentos que atravessam a minha mente, quando os leio. Nesta nova edição agora publicada, relembrei alguns que já conhecia e encontrei outros mas percorri aquelas 110 páginas com aquele estranho sentimento de quem constrói e destrói pedaços de vida, momentos de sempre inacabada visão do mundo circundante e talvez até como é citada no brilhante prefácio de Libório Silva, esta frase de Pessoa “… aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade”. Para os que eventualmente desconheçam, os nomes de Bernardo Soares ou Vicente Guedes com que Fernando Pessoa assinou alguns dos seus famosos trechos que publicou ou guardava e ainda muitos se conservam na famosa arca, repleta de inéditos que se espera um dia venham todos a ser conhecidos, esses nomes não são heterónimos de Pessoa como é o caso de Alberto Caeiro ou Ricardo Reis. São, como se lê na frase atrás citada semi-heterónimos. E, que ousadia a minha, arrisco-me a dizer que sempre senti que os trechos do Livro do Desassossego como muitos outros, ainda não publicados mas conhecidos, nos transmitem muito mais do pensamento e da pluri-genialidade de Fernando Pessoa do que o melhor da sua poesia, publicada em seu nome ou nos dos seus heterónimos. Portanto a minha ousadia foi apenas dizer aqui que é “ali” que o encontro, que estou com ele ou dentro dele, embora muitas vezes com dificuldade em o compreender, até porque, como também ele confessa “o que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Portanto interrogo-me se, quando o leio, estarei realmente a lê-lo ou a ler-me a mim próprio. Talvez. Mas não posso considerar isso uma particularidade minha. Quando o lemos, acontece por vezes não absorvermos totalmente o que está a escrever quem está a escrever. Tão depressa é a nuvem como a sombra dela e ambas podem desaparecer como por encanto. Penso que a leitura de Fernando Pessoa é para todos os que o admiram – e quase resvalava no dizer “veneram” – a descoberta do grande mistério daquele imaginário que em nós existe ou que supomos existir dentro e fora de nós próprios. Estas “Palavras do Livro do Desassossego” numa nova edição ilustrada terá com toda a certeza um sucesso merecido e digno de ser assinalado. E por isso aqui está.

Podem ler neste nosso espaço alguns dos trechos que Fernando Pessoa escreveu com o heterónimo Bernardo Soares para o "seu" sempre inacabado "Livro do Desassossego" - e que eu próprio escolhi - para que despertem o entusiasmo pela leitura da criteriosa selecção feita por Libório Silva nesta obra agora editada e da qual nos autorizou a publicar um dos trechos que ali vão encontrar devidamente assinalado.

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PROFESSOR FERNANDO CATARINO
Homenagem pelos 80 Anos.

Decidimos trazer aqui a nossa homenagem pelo 80º aniversário do Professor Fernando Catarino, Professor Catedrático Jubilado do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, celebrado no passado dia 9 de Novembro. Este atraso da minha intervenção neste espaço em relação ao dia do seu aniversário deve-se ao facto de ele ter recebido nesse dia uma homenagem num espaço da Internet que constituiu sem dúvida a maior homenagem desse género feita até hoje neste meio de comunicação. Tratou-se de um aniversário que fará história na Internet. Assinando uma mensagem celebrativa escrita por dois grandes jornalistas estende-se um grande Mar de abraços de parabéns onde participaram muitas centenas de amigos e admiradores (também lá estou, como é natural) em Portugal e no mundo inteiro e que continua a aumentar até ao próximo dia 30. Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, os dois jornalistas que construíram esta ideia original naquele que pode ser considerado um dos sites de maior interesse no panorama nacional, pelos conteúdos de natureza literária, científica e intelectual que nele estão patentes decidiram – e muito bem – que esta sua brilhante homenagem constituísse uma surpresa, que só fosse conhecida pelo homenageado a partir das 09:00 desse dia. Como facilmente se compreende, eu não poderia colocar-me na singeleza da minha intervenção em paralelo com a importância do que se passava no “Casal das Letras” para cujo link chamamos a vossa atenção.

É também a segunda vez que neste meu espaço Amor pelos Livros, insiro uma excepção de um texto meu que não se refere a um livro. Mas engana-se quem assim pensar. O Professor Fernando Catarino, com quem convivi na Faculdade de Ciências e no seu Jardim Botânico de que foi director, daí nascendo uma grande amizade com a qual tive a honra de por ele ser presenteado e que até hoje se mantêm, é ele próprio um verdadeiro livro. Tal como aconteceu a muitos dos seus alunos, eu, que o não fui porque o meu curso tinha sido escolhido erradamente como mais tarde viria a verificar, aprendi conhecimentos de um volume tal que nunca encontraria ao ler vários compêndios de Botânica e mesmo de outras áreas. Seriam necessárias muitos milhares de páginas para descrever tudo o que me transmitiu. E ainda tenho esperança de que um destes dias alguém se disponha a reunir em livro os muitos milhares de textos que publicou, as muitas conferências que fez, as muitas intervenções em colóquios e acontecimentos relacionados naturalmente com a Biologia Vegetal, mas não só.

Já seria mais difícil transcrever todos os ensinamentos que nos transmitia durante os passeios com os seus alunos ou admiradores à Serra da Arrábida, percorrendo aqueles lugares ainda virgens da intervenção humana. E se recordarmos uma das suas frases emblemáticas afirmando que “A coisa que eu tenho mais interessante, como pessoa, é, desde que me lembro, ter sido marcado por uma enorme curiosidade pelo saber, um enorme gozo em perceber as coisas” teremos de admitir que tudo isso ele conseguiu transmitir-nos. À medida que ia sendo satisfeita a sua curiosidade pelo saber e que ia avançando no “perceber das coisas”, tudo isso nos transmitiu e em muitos certamente fez nascer o mesmo desejo de conhecer mais e mais. Pessoalmente, muito do que eu sei, se é que sei alguma coisa, a ele lhe devo. Um passeio na Arrábida ou em outro Parque Natural, uma simples paragem para observar uns estranhos vestígios deixados num muro do Palácio de Sintra por um certo grupo de líquenes, foram para mim um manancial de conhecimentos que a ele lhe devo. Também lhe devo as palavras elogiosas com que me presenteou no Prólogo do meu livro A Nave Maravilhosa, que até hoje considero o livro da minha Vida, publicado pelo Circulo de Leitores tendo igualmente feito a apresentação dessa mesma obra na ocasião do seu lançamento. Com uma energia sem limites e o encanto das suas palavras esclarecedoras, continua ainda hoje a partilhar os seus conhecimentos em muitos encontros regulares organizados por núcleos de pessoas interessadas em aprender e conhecer os incontáveis segredos desta Natureza onde estamos inseridos e que alguns, como ele, sempre lutaram por conservar.

Parabéns Querido Amigo e obrigado Querido Professor Fernando Catarino por tudo o que nos ensinou e soube partilhar connosco.

Para conhecer a grande homenagem que foi feita no dia 9, como dissémos pelo “Casal das Letras”, carregue neste link
UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS
A Ciência como uma Luz na Escuridão
Carl Sagan
Ed. Gradiva
Para que ninguém se assuste, o subtítulo é colocado também na capa (tal como aconteceu na edição original). Carl Sagan, o professor, cientista e investigador que certamente todos recordam, pelo menos pelo seu livro Cosmos, (que se seguiu à série de televisão homónima, vencedora de um Emmy e de um Prémio Peabody) considerado o livro de divulgação científica em língua inglesa mais vendido de sempre, vem precisamente nesta sua obra denunciar a ideia de que o mundo esteja infestado de demónios. Prémio Literário Los Angeles Times para Ciência e Tecnologia, ele desmonta toda uma série de mitos que ao longo dos tempos e mesmo no presente têm servido, por vezes com as mais malévolas intenções, destinadas a dominar as mentes mais desprotegidas do conhecimento. E é precisamente a ciência que tem sido essencial para resolver as possíveis dúvidas. Num exemplo muito simples que ele cita numa das páginas, a rotação do girassol de acordo com a posição do astro-rei foi considerada noutros tempos um milagre natural. Até que a ciência descobriu que o movimento da flor do girassol é devido a um tropismo, isto é, deve-se a um movimento que é executado através de acção hormonal que acontece na própria planta e orientado em relação a um estímulo externo, neste caso a luz solar, chamado fototropismo. Carl Sagan percorre nas páginas do seu livro os diversos períodos da nossa história e vai descrevendo os vários demónios que foram criados, ou melhor, inventados pelos homens. No mundo antigo, a crença nos demónios era generalizada. Ele relembra a própria crença existente em grandes figuras como Sócrates ou o seu discípulo Platão que consideravam que a sua criatividade tinha origens demoníacas. E até Aristóteles aceitava que os sonhos tinham origem em demónios. Que dizer então da gente simples dos povos dessas épocas? As figuras demoníacas estavam presentes para onde quer que se voltassem. E os demónios e os mitos foram ficando. Mesmo à medida que o tempo passava e alguns desapareciam, logo outros tomavam o seu lugar. O autor vai citando com enorme precisão os mais variados documentos histórico-culturais em que baseou o seu estudo. E assim vamos percorrendo o caminho da criatividade demoníaca. É espantoso como crenças ou religiões de todos os géneros sentiram necessidade de criar entidades, pretensamente maléficas, para justificar o que não era ainda compreensível ou não tinha sido descoberto. E não foram poucos os que chegaram a espalhar como credível aquilo em que eles próprios não acreditavam. Razões muito obscuras para eventualmente exercerem domínio sobre os seus seguidores. Tudo isso é analisado com muito pormenor e com a referência às obras consultadas pelo autor ou à sua experiência pessoal. E desse modo conclui que não é de admirar que a ideia tenha prevalecido e até ainda subsista hoje em algumas das pretensões da chamada pseudociência. Carl Sagan aborda com muita profundidade o caso dos discos voadores, óvnis e extraterrestres que falsos cientistas chegaram a defender. Lembra-nos as estranhas visões presenciadas por muita gente nos mais diversos locais do mundo, mas sobretudo na América, que constituem um prolongamento da ideia da existência de demónios pois se alguns, como o célebre “ET”, não tinham más intenções, outros teriam vindo anunciar catástrofes mundiais e até mesmo o fim do mundo. Por mais estranho que nos possa parecer, a tendência para a irracionalidade criativa persiste. E apenas a verdadeira ciência a poderá combater. É a tal Luz na Escuridão. Por isso o autor aproveita também para falar no modo como hoje em dia se processa o ensino e se preparam as mentes dos jovens. Muito do que se passa nos tablóides ou é difundido por noticiários sensacionalistas pode ter, esse sim, um efeito maléfico para o aparecimento de futuras superstições. Mas o oportunismo político continua a deixar que esse aparatoso divertimento tenha lugar. Em nome da paz defende-se o nuclear. E este é um demónio da era moderna. Enfim, da invenção de Satanás aos testemunhos visionários do monstro de LochNess ou à defesa do nuclear, o caminho é necessariamente longo. Não nos é possível aqui descrever a variedade enorme e surpreendente dos casos citados. Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford e grande escritor de divulgação científica britânico, escreveu que “recorrendo a um manancial de referências históricas e culturais, assim como à sua vivência pessoal, Sagan demonstra com enorme clareza e rigor que a tentação da irracionalidade é não apenas um erro cultural crasso como um salto perigoso para a escuridão, que põe em risco as nossas liberdades mais básicas”. E como Sagan não deixa de referir com grande insistência a actualidade das tecnologias que endeusam actividades como o nuclear, Dawkins interroga-se se não “estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição”. E até confessa que gostaria de ter sido ele a escrever este livro. Como não foi, diz que o mínimo que pode fazer é aconselhá-lo aos seus amigos. O mesmo convite dirigimos nós aos que nos estão a ler neste espaço.

Para ler um excerto desta obra clique aqui.
O SEGUNDO FÔLEGO
Philippe Pozzo di Borgo
Editorial Presença

Em breve será colocada a minha apreciação.
Eis a sinopse:

Philippe Pozzo di Borgo é um aristocrata francês, director da conceituada casa de champanhes Pommery, que aos quarenta e dois anos vê o seu futuro comprometido quando um acidente de parapente o deixa tetraplégico. Deste acontecimento trágico decorre o encontro improvável entre Philippe e Abdel, um jovem rebelde dos subúrbios de Paris que é contratado como auxiliar para cuidar de Philippe. E do encontro entre estes dois homens, corn origens e percursos tão distintos, vem a nascer uma amizade espontânea e libertadora, alicerçada na solidariedade que naturalmente se estabelece entre dois seres ostracizados pela sociedade. 0 Segundo Fôlego, a autobiografia de Philippe, é o relato humanista e bem-humorado dos anos de convivência entre ambos e da forma como cada um enriqueceu e salvou a vida do outro. Inspirados por esta história veridica, Olivier Nakache e Eric Toledano realizaram um filme, intitulado Amigos Improváveis, que conta com Francois Cluzet e Omar Sy nos principals papéis.
A Medicina e a Música
Armando Moreno
Ed. Medilivro

Mais um livro do Professor Armando Moreno que temos o enorme prazer de saudar. O título que o autor dá a esta sua obra relaciona mais uma vez a Medicina, que ele naturalmente domina como médico de excelência que sempre foi, com algo de importante na história da humanidade. De facto, desde os tempos mais primitivos que a Música tem sido uma das Artes a que o homem se dedicou e tem sido ao longo dos séculos uma forma de expressar os seus sentimentos e reproduzi-los em sons, com maior ou menor harmonia mas sempre apreciados, mesmo que diversamente, por quem os ouve. Na sequência do processo utilizado no seu anterior livro “A Medicina e as Mitologias”, presente também neste espaço e que reuniu um merecido êxito da parte do público leitor, Armando Moreno apresenta A Medicina e a Música efectuando, como ele próprio escreve, uma viagem ao admirável mundo dos sons naquilo a que pode chamar-se um casamento entre essas duas actividades, a médica e a musical. Provado que está e observando que os médicos procuram entregar as suas horas de lazer à criatividade artística, eles chamam a si o protagonismo na literatura e nas artes plásticas enquanto que na Música eles são o epicentro atractivo para motivos médicos. De facto, nomeadamente durante o romantismo, a doença está presente em muitas das Óperas mais apreciadas. O médico Armando Moreno que frequentou um curso no Conservatório de Música do Porto, está portanto, mais do que qualquer outro analista, habilitado para o estudo das relações entre a Medicina e a Música. Mas se pode julgar-se que essa faceta seria apenas o relato de ocorrências várias ao longo da História comum, o autor vai muito mais além. Ele analisa de forma ao mesmo tempo crítica mas construtiva o diálogo possível entre essas duas actividades. E ficamos maravilhados mais uma vez, tal como já acontecera com a Medicina e as Mitologias, com aquilo que nos desvenda sobre as ligações e as razões que podem ter originado o nascimento de muitas das obras musicais, quer relacionadas com o próprio tempo ou época em foram apresentadas quer do próprio entusiasmo ou não como foram recebidas da parte do público de então. Não esquecer também a importância didática desta obra, na qual deparamos para além de uma verdadeira história da Música e sua evolução, não só a erudita como a popular, a Música de capa e batina, a Música de filmes e, entre outras secções, como não podia deixar de ser, a Musicoterapia. Todos estes temas são intensamente documentados de uma forma que só um autor que não desdenha um trabalho exaustivo na procura dos elementos mais completos para nos oferecer conclusões credíveis e sérias, como acontece com este reconhecido professor universitário, apreciado pelos seus pares e pelos seus alunos, nos poderia dar. São abordadas biografias, nomeadamente de compositores e instrumentistas que foram vítimas de doenças várias e não basta lembrar a surdez de Beethoven que – e isto dizemos nós - apesar de não lhe ter sido possível ouvir a execução de algumas das suas últimas obras diria momentos antes de morrer: “A vida é bela. Desejaria vivê-la mil vezes”. Armando Moreno conduz-nos pela via do conhecimento profundo que tem destas duas actividades, a medicina e a música. E isso é um privilégio que desejou não guardar para si. Expõe-nos as suas análises com a clareza que sempre caracterizou os seus estudos de divulgação a que não serão estranhos os prémios recebidos por trabalhos de investigação onde usou certamente do poder convincente das conclusões a que chegara. O autor não necessita portanto dos elogios que lhe poderia fazer quanto às suas variadas actividades no domínio da divulgação e da docência. O seu nome é um exemplo na história da Medicina em Portugal, juntando entre as suas obras mais elogiadas “O Mundo Fascinante da Medicina” (12 volumes) e “Médicos Escritores Portugueses” (3 volumes). Que mais poderíamos dizer, se é que tal fosse necessário, para aconselhar a leitura desta obra que agora figura entre as mais destacadas da actual criatividade literária.

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QUANDO OS MACACOS SE APAIXONAM
George Stilwell
Esfera dos Livros

Seria quase impossível que este livro não chamasse a minha atenção e não viesse muito merecidamente figurar nesta galeria a que resolvi, com toda a verdade, intitular Amor pelos Livros. De facto, este tema tem sido por mim tratado e defendido por várias vezes em vários dos artigos que tenho publicado. E o título tem sempre assinalado a ideia que igualmente defendo de que “Eles também amam”. Não tendo exactamente a formação universitária de George Stilwell, mas tendo percorrido os caminhos das Ciências Biológicas, dediquei-me na profissão de Jornalista à área da Natureza e dos seres que nela habitam. Claro que não consegui observar todos aqueles que este autor descreve com o rigor científico a que se dedicou mas também tive oportunidade de perder muitas horas, dias e meses, observando o comportamento de certas aves ou pequenos mamíferos, peixes, répteis, batráquios e também muitas espécies de invertebrados, sobretudo insectos e não só. E o certo é que de facto também concluí na maior parte das observações que eles também amam. Decerto que à sua maneira, mas não deixam de demonstrar atitudes de verdadeira afeição quer pelos parceiros ou parceiras como pelos filhos. Relembro antes de falar deste livro, como é minha obrigação, o caso de uma cegonha que num incêndio em Delft, morreu no telhado incendiado, preferindo ficar no ninho a abandonar os filhos, incapazes de voar. Haverá maior demonstração de afecto do que o sacrifício, em face de um perigo de morte eminente, em não abandonar os próprios filhos, em vez de fugir para um lugar seguro? Vejamos então o que nos conta George Stilwell neste seu livro sobre a vida afectiva dos animais e tal como aparece em subtítulo, das pequenas formigas aos gigantes elefantes. E todas as histórias que nos conta são de facto verídicas, tendo eu próprio como disse atrás, a oportunidade de as presenciar e fotografar. Escrito com um forte poder descritivo, o livro está dividido em capítulos para mais facilmente podermos ter conhecimento das várias etapas ou modos de compreender os diferentes tipos de afectos demonstrados entre uma enorme variedade de animais. Desde aquilo a que o autor chama muito correctamente a Odisseia de escolher um parceiro às muitas amizades improváveis, passando pelas formas de gestação à espera do grande dia, os pais ou mães solteiras, mesmo os pais adoptivos e as tias que se ocupam dos cuidados da prole do grupo, a escola, o comportamento em grupo ou em sociedades, a defesa da família, há uma multidão de “estranhas formas de amor”. E mesmo que por vezes se possa estranhar um comportamento de certo modo agressivo contra a própria espécie, ele existe para garantir que a descendência não seja afectada na evolução do que se considera mais forte perante a adversidade. Tudo isso nos é explicado com as mais subtis observações do autor, baseadas naturalmente nos conhecimentos adquiridos pela sua formação em veterinária ao lado da de professor universitário que actualmente exerce. Mesmo que eu me alheasse do meu confessado entusiasmo pelo tema, considero esta obra muito importante para um melhor conhecimento da vida animal e da defesa dos restantes seres vivos que connosco devem habitar este planeta, o único que, ao que julgamos de momento, é o único em que podemos sobreviver e que devemos preservar para as gerações vindouras com tudo aquilo que nele herdámos ao longo da nossa evolução de milhares de anos. Recomenda-se portanto a leitura e duplamente tem o seu lugar reservado desde já no meu Amor pelos Livros.

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A Terra, Património da Humanidade
A.M.Galopim de Carvalho

Âncora Editora

Naturalmente que existem autores portugueses que deveriam estar aqui presentes neste espaço que criei mas tem faltado o tempo para o fazer e assim tenho privilegiado sobretudo os escritores que vão publicando obras mais recentes juntamente com as novas edições que vão aparecendo de alguns clássicos mundiais. Uma ou outra excepção a esta regra aparece de vez em quando. E eis que o lançamento recente de uma obra de Galopim de Carvalho que não se integra neste espaço que criei sem distinção de temas ou de ideias. Mas há muito que o nome de Galopim de Carvalho deveria ter aqui o seu lugar. Para além de uma das mais notáveis figuras da nossa comunidade científica actual, Doutorado em Geologia e professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi director do Museu Nacional de História Natural e impulsionador de numerosas acções de divulgação e conservação do nosso património natural. Todos o conhecem como o defensor dos vestígios da existência dos dinossáurios em Portugal e acérrimo lutador pela conservação desses vestígios. E, sendo verdade, é ainda muito mais do que isso. É um acérrimo defensor deste planeta e nomeadamente de tudo o que diz respeito a este recanto que é o nosso pequeno país mas enorme porque cheio de riquezas naturais incalculáveis. E a prova imediata é por exemplo este livro que escolhi entre as suas várias obras publicadas. “A Terra, Património da Humanidade” demonstra bem o quanto devemos amar este planeta. E é com os seus vastos conhecimentos que nos descreve o que nele existe de grandioso, como se foi formando ao longo da sua evolução, viajando no espaço “Como Bola Colorida”, evocando nesta frase o poeta António Gedeão, o Professor Rómulo de Carvalho, a quem o livro é dedicado. Ambos que somos admiradores do nosso grande professor, também Galopim de Carvalho demonstra nesta obra o seu poder de comunicação, divulgando aos leitores numa linguagem simples e acessível tudo, ou quase tudo, o que a ciência conseguiu até agora descobrir e explicar sobre os grandes momentos da história da Terra. É como se estivéssemos a assistir ao aparecimento de um primeiro corpo celeste, inerte, sem vida, no qual – e isso nos vai explicando – se foram dando sucessivas modificações, desde o seu núcleo à crosta externa, interacção com outros corpos provenientes do espaço exterior, formação de massas continentais e sua fragmentação, tudo aquilo que iria preparar a chegada de células muito simples que iriam mais tarde dar origem aquilo a que chamamos organismos vivos. Daí para frente, já o caminho é mais conhecido, quando a certa altura aconteceu a existência de água, e depois, a formação dessas pequenas células, seguindo-se a atmosfera que iria permitir que aparecessem seres mais complexos que se foram formando e diversificando. E depois a Terra, sempre a Terra, permitiu também que eles por ela se espalhassem e se desenvolvessem ainda mais. Portanto é todo o início desse complexo sistema, aquilo a que vamos assistir nesta obra de Galopim de Carvalho, repleta de explicações que de outra forma poderiam parecer confusas mas que com a sua incansável maestria vamos assimilando com todo o gosto, quase sem darmos por isso, como se de um simples conto se tratasse. E é essa a ciência deste insigne Professor de Geologia. É isso que tem feito em todas as suas inúmeras conferências e em todos os projectos de divulgação a que se tem dedicado, alguns deles a que assistimos pessoalmente. Ele conhece e ensina a conhecer. Para além da transmissão do saber, abre-nos um mundo de perspectivas ainda maiores, no Dicionário de Geologia, a obra mais recentemente publicada e que conclui um projecto iniciado, há 40 anos, pelo Professor Carlos Teixeira no então Centro de Estudos de Geologia da Faculdade Ciências de Lisboa.
Mais do que um Dicionário, a forma como está organizado e escrito, ajuda-nos a compreender a razão da existência de muitos termos, necessários para uma melhor compreensão deste maravilhoso conjunto de matéria que constitui o solo que pisamos a nossos pés, que nos fornece a energia para os nossos alimentos, que perfuramos para dela extrairmos riquezas incalculáveis ou onde vamos construindo e erguendo os símbolos edificantes da nossa civilização. Assim a saibamos conservar por muitos anos e respeitar, tal como infere o conceito de um património da Humanidade. Bem-haja o autor por nos conceder o privilégio de melhor conhecer esse património.

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CLARABOIA
José Saramago
Ed. Caminho

É curioso e talvez não que o último livro editado do nosso Prémio Nobel tenha sido afinal um livro escrito na sua juventude com apenas 31 anos de idade, mais propriamente o segundo, após ter escrito e publicado o primeiro, o romance “Terra do Pecado”. Portanto uma obra que deveria ter dado continuidade ao seu poder criativo, não fosse o editor a quem entregou o manuscrito nunca mais lhe ter dado qualquer informação sobre se quereria ou não publicá-lo e só 40 anos mais tarde o contacta para o fazer, ao que Saramago respondeu que já não lhe interessava publicá-lo e recolheu o manuscrito. Tomou então a decisão de não mais o publicar por o considerar ultrapassado, deixando para os que lhe sobrevivessem a decisão de o dar ou não a conhecer. Felizmente que Pilar del Rio, a Fundação e os restantes familiares, resolveram pouco depois do primeiro aniversário da sua morte entregá-lo para publicação à editora que nos permitiu usufruir da quase totalidade da sua obra. Zeferino Coelho que, para além de editor era um dos seus grandes amigos, diz a propósito que se trata de “um bom romance onde se encontram já esboços do que viriam a ser as suas obras seguintes”. Aliás o próprio Saramago referia-se ao seu manuscrito quando tal acontecia em conversas amigas dizendo que achava que ele não estava mal construído, um livro também ingénuo, mas que – e reproduzimos - “tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm a ver com o meu modo de ser.” De facto, trata-se de um verdadeiro romance que retrata a vida dos habitantes de um prédio de seis apartamentos numa zona modesta da cidade, cujas escadas recebem a luz através de uma clarabóia colocada ao nível do telhado. O autor terá vivido numa casa semelhante onde alugou um quarto a uma das personagens principais, neste caso do romance, um sapateiro que certamente muito teria a ver com o senhorio real. E são assim descritos os pequenos dramas, alguns mesmo de certo modo trágicos, vividos por aquelas famílias, numa forma que já é muito similar à que viria a ser utilizada mais tarde por Saramago e o levariam ao Nobel da Literatura. Não quero com isto dizer – e quem sou eu para o poder fazer – que não houve transformações na escrita e no valor das ideias expostas nas obras posteriores que o fizeram, com todo o mérito, atingir o lugar que passou a ocupar na literatura mundial. Mas existia, isso sim, já o sentido crítico e a afirmação pessoal das suas dúvidas quanto ao caminho que a humanidade já nesse tempo seguia, em que grande número de pessoas não sente a necessidade de se sentir responsável pelos seus actos e de fazer algo por aqueles que mais necessitam. Em Claraboia, Saramago será ainda talvez aquele rapaz que foge a tudo quanto pode constituir uma prisão e por isso quando sente que está a criar raízes resolve partir. Talvez aí já residissem muitas das suas dúvidas que mais tarde viriam a tornar-se certezas e pelas quais lutou pessoalmente e demonstrou nas obras que nos deixou e que mantém hoje uma actualidade indiscutível. Pese embora os ataques de que foi vítima por parte dos que não quiseram ou não souberam compreender a sua obra, será difícil aceitar que possam existir pessoas – mas existem – que se recusam a vê-lo como um homem excepcional, de grande literário, felizmente reconhecido muito para além das nossas fronteiras, com qualidades de grande valor humanitário em defesa dos mais fracos e desprotegidos. E sobretudo, nunca é demais dizê-lo, um lutador pela igualdade entre todos, quaisquer que sejam as suas ideias, na defesa dos direitos de todo e qualquer cidadão a seguir as suas ideias e os seus ideais. Infelizmente um certo poder dogmático nunca lhe aceitou que pensasse de maneira diferente das suas crenças e apresentasse livremente o seu modo de as analisar e verbalmente as combater, na forma oral ou escrita. Mas voltando a este romance, cremos que Claraboia merece de facto ser lido, até porque, como dizíamos atrás já se encontra nele muitas das ideias que mais tarde Saramago viria a desenvolver, de outra forma naturalmente, mas que aqui se compreendem naquela fase da sua juventude de modesto funcionário da previdência social mas já possuidor de um certo domínio da observação de tudo o que o rodeia, fazendo-o com a precisão e o sentido de ironia que haviam de vir a caracterizar as suas futuras obras. Afinal todo o valor com que foi reconhecido e ficará para sempre nos anais da história da Literatura. Embora também da minha parte, por razões que se sobrepõem à minha vontade, um pouco tardiamente, não podia deixar de colocar aqui esta “Claraboia” de luz sobre um livro e uma figura que passa a iluminar para sempre o meu Amor Pelos Livros.

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A ÚLTIMA TESTEMUNHA DE AUSCHWITZ
Denis Avey
com Rob Broomby

Clube do Autor

O autor viveu de facto os episódios trágicos descritos neste seu livro que escreveu em conjunto com o jornalista britânico do BBC World Service que fora em tempos correspondente em Berlim. Denis foi feito prisioneiro de guerra e de acordo com a Convenção de Genebra ficou num campo especial criado pelo regime nazi para o exército inimigo. Estava no entanto muito próximo do de Auschwitz e foi-lhe fácil constatar como eram tratados os judeus ali encarcerados, forçados a trabalhar até já não terem forças e conduzidos depois para as câmaras da morte. Ora não é de estranhar que Denis tenha sido distinguido numa recente cerimónia como um dos 27 heróis britânicos do Holocausto. Muitos de nós recordamos ainda de tudo o que soubemos sobre as perseguições e atrocidades dantescas cometidas pelo governo alemão durante a segunda Guerra Mundial. O Holocausto nos campos de concentração para judeus foi uma dos episódios mais vergonhosos levados a cabo pelo nazismo. Muitos de nós recordamos os filmes que foram feitos sobre esse período de verdadeiro horror na história recente da Humanidade. Conhecemos os nomes de muitos dos que lutavam para conseguir a fuga e a liberdade para o ocidente de homens, mulheres e crianças em permanente perigo de vida. Aristides Sousa Mendes que foi cônsul de Portugal em França, durante a ocupação, desafiou o governo português e salvou a vida de milhares de pessoas, das quais cerca de 10 mil judeus, tendo sido chamado de "o Schindler português", outro diplomata alemão que também salvou muitas vidas dentro de a própria Alemanha. Também conhecemos e lemos o célebre Diário de Anne Frank. O que nos conta Denis Avey é como, enquanto vigiava cuidadosamente o que se passava no campo vizinho de Auschwitz, conseguia ter uma vaga ideia do que ia acontecendo aos prisioneiros judeus. E por isso mesmo, no desejo de tomar pleno conhecimento daquilo que lhe chegava aos ouvidos, acabou por infiltrar-se no outro campo e trocar a sua espécie de farda pelas vestes de um judeu que se encontrava em perigo de vida devido à sua debilitante condição física e aos laços familiares que ao mesmo tempo o prendiam ao exterior. Com essa atitude, acabaria por salvar a vida do judeu mas viveu ele os horrores dos dias passados junto aos corpos dos que iam sendo enterrados meios vivos ou das cinzas que saiam das câmaras de incineração. Mais um livro sobre o Holocausto, poderão dizer alguns. Mas trata-se do relato dos horrores passados e funcionam como testemunho vivo daquilo que presenciou que aqui retrata. É talvez compreensível que não seja agradável reler ou voltar a relembrar o que se passou. Mas também convém que tudo isto não seja esquecido. Trata-se de um relato envolvente. Tudo ali foi vivido. É verídico. Uma obra a não perder para que a humanidade não volte a viver este tipo de episódios que colidem com os direitos fundamentais do Homem e com a dignidade da nossa existência, no respeito pelas ideias de cada um, contra a opressão e o racismo.

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O CIENTISTA DISFARÇADO
Investigando os pequenos acidentes do dia-a-dia
Peter j. Bentley

Publicações Europa-América

Peter Bentley é um caso paradigmático do cientista que está sempre disposto a comunicar com todos aqueles que anseiam conhecer o que a ciência faz e as explicações para que os fenómenos aparentemente fechados ao comum dos cidadãos se tornem claros e compreensíveis. E para essa acção de difusão do conhecimento, contribuem os seus livros, as suas conferências e até a capacidade das novas tecnologias mantendo um blogue com o título de O Mundo de Peter J. Bentley onde esclarece as dúvidas de quem o visitar. É de facto extraordinário como este homem doutorado em Genética Algorítmica e com uma licenciatura em Inteligência Artificial, responsável do departamento de Ciência Computacional do Colégio Universitário de Londres, colaborador permanente da Revista New Scientist e toda uma enorme actividade no ensino universitário, tenha conseguido tempo para nos descrever de uma maneira totalmente simples a natureza dos fenómenos que observamos no nosso dia-a-dia e aos quais dávamos até aí razões completamente aleatórias e sobretudo erradas. Não encontrávamos explicações para elas e portanto simplesmente aconteciam. Em grande parte dos casos, chegávamos a culpar-nos de isto ou aquilo nos acontecer ou então culpávamos a própria ciência. Como ele próprio diz, ainda podem existir pessoas que culpam os cientistas por terem inventado os computadores pois se o não tivessem feito não existiriam os respectivos vírus. E talvez outros pensem erradamente que se a ciência não existisse as nossas vidas seriam muito mais simples e portanto seríamos mais felizes. Ora é precisamente por estas e outras razões semelhantes que ele mantém uma actividade contínua a desmistificar a ciência e torná-la compreensível e acessível a todos. São igualmente suas as palavras em que reafirma que “a Ciência é nada mais, nada menos do que o melhor caminho para compreendermos o mundo à nossa volta”. Estivemos há momentos no seu blogue, que há pouco citámos, e encontrámos respostas muito recentes a perguntas que lhe foram feitas pelos visitantes das mais variadas classes e grupos etários. Um estudante faz-lhe uma pergunta sobre uma das suas últimas descobertas. Peter Bentley inventou recentemente uma forma de fazer um iPhone funcionar como um estetoscópio, aquele instrumento utilizado em medicina para observar as batidas do coração. O seu Iphone faz isso mesmo e até consegue um electrocardiograma. Extraordinário o que este homem consegue com os seus conhecimentos na área da Biologia e da Inteligência Articial! Já é um app da Aplle. Trazemos aqui um dos seus últimos livros a que deu o título de Cientista Disfarçado. Nestas páginas o autor investiga pequenos acidentes do nosso dia-a-dia, como por exemplo escorregar na casa de banho, deixar queimar uma torrada na torradeira e se a deve comer ou não. Alguém está cheio de pressa para sair de manhã e vai ao frigorífico e afinal o leite está azedo ou entrou na banheira demasiado cheia e a água saiu para fora (Lembra o grito soltado por Arquimedes na mesma situação quando afinal ele nem gostava de tomar banho, como está provado hoje em dia). E quantas vezes nos aconteceu parar de repente numa rua e perguntarmos a nós próprios: onde é que eu estou? Mas não, não se trata de Alzheimer. É algo muito comum que sucede repentinamente. O nosso cérebro estava, como é costume dizer-se, noutra onda. Ora para todas estas questões ou acidentes e muitos mais o Cientista Disfarçado tem uma resposta. Essa resposta é nos dada pela Ciência. Não existe nada de anormal. Explicado por Bentley, tudo se torna mais simples. Cada acidente é causado por uma falha tecnológica ou, mais habitualmente, por falharmos a nossa tecnologia, diz-nos com extraordinária clareza o autor neste sua obra que depois de começarmos a lê-la não paramos enquanto não chegarmos ao fim. É bom compreender a Ciência. Estou à vontade, não por querer arvorar em cientista, que o não sou, mas lembrando que durante vários anos realizei um programa de Rádio na Estação Oficial chamado “A Ciência ao Serviço do Homem”. Foram vários os debates a que assisti e coordenei. E com eles terei aprendido essa grande verdade. Tudo pode ser explicado (ou quase tudo) e quando é pela mão ou - melhor, neste caso – pelas palavras do autor deste livro, cientista de renome internacional mas que sabe falar ao público menos esclarecido, a Ciência torna-se algo que devemos respeitar e contribuir para que progrida sempre e nos revele aquilo que ainda temos de descobrir. O caminho será sempre em frente. Mais e mais, à descoberta dos segredos do Universo. Convido-vos a ler o livro.

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NÃO PODEMOS VER O VENTO
Clara Pinto Correia
Clube do Autor

Em tempos num livro sobre “Portugal Animal” lançado no espaço mais que indicado do Zoo da Lisboa, Clara chamou-me na dedicatória do que me ofereceu “alma irmã com deslumbramentos gémeos”. De facto eu estava muito longe dos conhecimentos dela, tal como hoje. Abandonei a Biologia e dediquei-me ao Jornalismo onde acabei por ficar. Mas éramos e somos em muitos aspectos “almas gémeas” pela dedicação que temos à Natureza que nos rodeia, eu mais no aspecto do mundo animal ou vegetal e do meio ambiente, mas ela, muito mais importante também, noutros estudos onde a sua carreira de Bióloga que, por não lhe ter sido possível fazer investigação em Portugal, cedo a obrigou a partir para os Estados Unidos onde no Departamento de Ciências Animais e Veterinárias trabalhou com a mais avançada equipa de investigação sobre clonagem animal. Foi essa a base para o pós-doutoramento. E, ao voltar a Portugal, trazia consigo as luzes que vieram iluminar alguns cérebros que então se envolviam em debates inconsistentes. Tudo isso daria origem a um pequeno livro cheio de respostas às perguntas mais pertinentes ao qual, desafiando os incrédulos, deu o título corajoso de “Clonai e Multiplicai-vos”. Ela sabia do que estava a falar. E apenas desejava esclarecer, acabar com medos e terrores. Era a sua veia de lutadora e analista dos possíveis perigos ou virtudes que mais tarde ou mais cedo poderiam ser realidade. E alguns foram de facto. Mais as virtudes por enquanto do que os perigos, cremos nós.
Escreveu entretanto vários romances – e citando apenas alguns como o Adeus Princesa, Ponto Pé de Flor ou Os Mensageiros Secundários – todos eles grandes êxitos editoriais. Já nos Mensageiros ela enveredava acentuadamente por caminhos diferentes no domínio da Psicologia, o que agora se verifica mais uma vez. Digamos que é uma mulher de sucesso. Depois da Licenciatura em Biologia, doutorou-se em Biologia Celular. Cada vez mais interessada em entender as coisas mais íntimas do ser humano, viajou pela Ciência das Religiões e mais recentemente pela Filosofia da Ciência. Todo este percurso de conhecimentos vários e estudos sobre a matéria e a alma, haveria de culminar por agora numa obra em que consegue cruzar dois aspectos diferentes. Ao contar a história de Mariana, uma psicóloga, mãe de duas gémeas muito especiais, Clara Pinto Correia transforma o que poderia parecer apenas um romance, numa investigação que a personagem faz de aspectos obscuros do que se passou na Guerra Colonial, ao colocar nos diálogos apresentados verdadeiros depoimentos que a autora conseguiu sobre as mais estranhas missões do Exército Português em Moçambique, ainda hoje desconhecidos de muita gente sobretudo das camadas mais jovens. E isso já seria magnífico se não existisse ainda o encanto da sua escrita, ao mesmo tempo realista mas com traços de poesia que só quem conhece bem a C.P.C. pode compreender que não poderia deixar de o fazer. Ficamos presos do desenrolar desta história que nos é contada com a sua escrita fluida e até certo ponto “musical”, oferecendo de vez em quando diálogos onde acabam por ser desvendados os mais escondidos segredos do se passou nas estranhas guerrilhas com o inimigo e dos métodos utilizados pelo exército português. Mas tudo isso ficou e está agora no presente através dos traumas deixados dos que sobreviveram aos massacres de ambos os lados e vai lançar no desespero um dos outros personagens principais da história ao qual Mariana acabaria por ficar mais ligada. E, já que estamos no tempo da Net, C.P.C. estabelece que a relação entre os dois haveria de começar por uma troca de emails. Assistimos verdadeiramente interessados a esse desenrolar de cenas, por vezes desconcertantes e difíceis de acreditar. Afinal tudo o que ele diz terá sido mesmo verdade? Seria possível? Esta curiosidade só será satisfeita por quem ler esta excelente obra da minha alma gémea que em muito já me ultrapassou. Por isso mesmo a admiro e aconselho a leitura do seu último livro neste meu Amor Pelos Livros.

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À Janela dos Livros
Rui Beja
Temas e Debates/Circulo de Leitores

Há muitos anos que conheci o autor, precisamente no Círculo de Leitores, onde acompanhei todo o seu percurso até ao último cargo de Administrador. Já antes, como sócio, adquiria regularmente algumas edições que hoje povoam as minhas estantes e são, sem sombra de dúvida, das melhores leituras que é possível recomendar. Não porque as escolhi. Mas simplesmente porque o Círculo de Leitores pautou a sua gama de edições pelo que de melhor havia na literatura mundial, incluindo naturalmente os autores portugueses. Claro que, como um Clube de Livros que era, houve sempre a necessidade de ter entre os títulos editados obras que agradariam mais a uns do que a outros. E por isso mesmo, isso significava um êxito editorial no mercado português. Mas estou a afastar-me deste livro em si e sobre o qual haveria muito que dizer se o espaço e o talento não me faltassem. Tal como o subtítulo menciona, Rui Beja apresenta-nos não só a sua vivência dentro da editora como também a “Memória de 30 anos do Círculo de Leitores” que foi afinal quantos o Círculo comemorou em 2001. Uma Janela é sempre algo que se abre e esta abre-nos as portas do que se viveu naquela casa onde os livros passavam pelas várias etapas que lhes são específicas: desde a leitura atenta dos manuscritos à sua edição propriamente dita. Rui Beja, licenciado em Controlo Financeiro pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa iniciou a sua actividade no Círculo como Director Financeiro e assumiu o cargo de Presidente Administrativo em 1992. Extraordinário é como Rui Beja nos consegue conduzir ao longo da história de uma editora de Livros com o mesmo interesse que teríamos em ler um romance marcado por avanços e paragens momentâneas para escolher o melhor caminho, mas sempre conduzindo da melhor maneira a forma de tornar aquela editora uma referência nacional e internacional nos meios literários. Mas o extraordinário que Rui Beja nos consegue também dar neste seu livro e que considero de inegável interesse é como ele acompanha toda a história do Círculo e a sua de um rigoroso estudo histórico dos acontecimentos de carácter político e cultural que classificam um período muito triste e trágico da nossa história recente. As perseguições políticas a escritores, jornalistas e intelectuais que foram impedidos e alguns presos e traumatizados pelo fascismo. Tudo acompanhado de uma documentação cuidada que inclui extractos de ofícios, estatísticas, etc. Um trabalho admirável que nos reaviva a memória dos que viveram tais tempos e revela aos que vieram depois e não os conheceram nem lhes é por vezes contado como devia ser. Mas voltando ao Círculo, A Casa Mãe Bertelsmann, que tivemos oportunidade de visitar, acompanhando um anterior administrador mas certamente com o apoio de Rui Beja tinha um lema aliás citado no livro que afirmava “ A falta de velocidade é nos dias de hoje um luxo a que não nos podemos dar”. Estávamos então em 2000/2001. O Círculo era já um exemplo e não foi por acaso que em 1998 foi distinguido com o prémio da Revista Exame para a “ Melhor entre as Maiores” empresas no sector de “Edição, Informação e Artes Plásticas”. De facto e isso vamos constatando ao folhear este livro de Rui Beja, o Círculo de Leitores apostou fortemente numa área que tinha de lutar nesse tempo com uma taxa de 30 por cento de analfabetismo, contra uma censura cega que negava tudo o que fosse acesso ao conhecimento e à cultura. Conforme refere Francisco José Viegas, ao tempo pertencente aos quadros daquela casa dos livros, o Círculo de Leitores representava naquela época, ao pensarmos hoje nos poderes da Internet, “a verdadeira rede social erigida em nome da leitura, transformando os costumes portugueses e as paredes das casas de família, com as lombadas e colecções históricas que obrigaram milhões de portugueses a ler, a conhecer os nomes dos autores e a partilhar essa experiência entre pais, filhos (e) vizinhos”. Era a verdadeira fonte do conhecimento para os que queriam ir mais além no seu direito à cultura que se torna também um prazer. Mas um prazer que nos traz sempre algo que se fixa na nossa memória e que nos ajudará mais tarde a melhor reflectir, decidir e actuar. As diferentes ideias que, como Director Financeiro ou como Administrador, Rui Beja permitiu que fossem divulgadas e chegassem às mãos dos leitores contribuiram com toda a certeza para um Portugal mais culto e esclarecido.
Como é natural, para compreendermos a personalidade de Rui Beja, ele dispõe nas primeiras páginas uma completa autobiografia e dela se inferem já muitas ideias que mais tarde viria a por em prática, depois fala-nos dos tempos difíceis em que era necessário lutar por elas e vencer, etapa a etapa, a rota que ele iria traçar, num trabalho dentro do Círculo de Leitores que sempre conhecemos com lealdade e respeito pelos seus colaboradores. Não será possível esquecer – pelo menos no meu caso – o sorriso aberto com o qual nos recebia durante os lançamentos que viriam a tornar-se grandes sucessos editoriais. Era fácil adivinhar, depois de com ele privarmos um pouco, que a sua forma de trabalhar dentro do Círculo era para além de exemplar um verdadeiro estímulo para todos dentro daquela casa darem o melhor de si e do que sabiam. E por isso a ele se devem certamente tais sucessos. Rui Beja era um exemplo a seguir. O Círculo foi até certo ponto o espelho da sua vontade e do seu saber. Cresceu com toda a certeza porque teve à sua frente pessoas que deram o melhor de si para que a cultura fosse elevada ao grau que merece. Lançaram-se novos autores, editaram-se os grandes clássicos da Literatura Portuguesa, traduziram-se os mais ilustres nomes da literatura mundial, não se esqueceu a História, a nossa e a universal, como não se esqueceram as grandes áreas da Ciência na sua vertente mais Técnica ou da Biologia, as Artes, os Ensaios, os livros práticos de divulgação eventualmente mais ligeiros, as religiões, e todo um vasto mundo cultural que hoje constitui o seu enorme catálogo de títulos, muitos deles de há muito esgotados. Rui Beja ficará sempre com um dos nomes que mais influenciou os êxitos que o Círculo de Leitores espalhou pelas nossas casas. Saiu no momento em que uma transformação se aproximava e que certamente não estaria de acordo com os seus critérios. Facilmente se compreende ao observar o que se passa nos dias de hoje. Mas aqui o que importa salientar é como neste livro fica extraordinariamente bem documentado todo o percurso desta verdadeira Casa dos Livros, que foi a sua e que representou uma parte da de todos nós. Rui Beja tinha e tem, posso afirmá-lo com toda a certeza, um grande amor pelos livros. Obrigado Rui Beja pelo prazer que me deu em ler esta obra que aqui coloco agora no meu Amor pelos Livros.

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A PAIXÃO DE JANE EYRE
Charlotte Brontë
Publicações Europa-América

Na sua Colecção Clássicos da Europa-América estão publicadas, tal como refere a própria editora, “aquelas obras que ultrapassam o ordálio temporal e que são hoje património da Humanidade”. Se a irmã, Emily Brontë, se tornou mais conhecida principalmente pelo seu romance “O Monte dos Vendavais” que igualmente foi transportado para a 7ª Arte, Charlotte foi a sensação do seu tempo ao lançar para o público A Paixão de Jane Eyre que foi de imediato bem recebido e consagrado naquela época. Estávamos em 1847 e a crítica dividiu-se. Ou melhor, reconhecendo-se embora que as duas irmãs eram escritoras de génio indiscutível, a personagem Jane Eyre de Charlotte é uma figura que pela primeira vez resolve impor os direitos de independência da mulher que estavam muito limitados pela sociedade inglesa do seu tempo. Mas há dois aspectos que nem todos conhecem. Existe uma relação muito forte entre a vida da própria Charlotte e a personagem Jane do seu livro. Ambas viveram o drama do asilo e de um certo abandono familiar. Este e outros aspectos focados no seu livro são de facto autobiográficos. Charlotte viveu precocemente o que nos descreve e não devemos esquecer que a obra está escrita em forma de diário. São de facto muitas das suas recordações pessoais que ela nos conta. Jane e Charlotte são verdadeiramente umas lutadoras pelos seus mais puros ideais. Naturalmente que ao colocar aqui este clássico da literatura, os leitores mais jovens poderão interrogar-se sobre o interesse do tema e a forma como é descrita a acção da obra. Mas é necessário compreender que muitas das grandes obras da literatura mundial valem pela forma como foram escritas na época em que foram editadas mas sobretudo por nos transportarem aos valores que dominavam esses tempos vividos pelos respectivos autores. E isso é Cultura, infelizmente muito maltratada e até esquecida no mundo actual, preocupados que andamos com o estado a que chegou o desentendimento entre os povos e o desrespeito pelos valores humanitários, para não citar outras razões e factos. Este livro que foi lido e relido pelos jovens que hoje são adultos na casa dos 70/80, pode tornar-se uma forma de revisitar outros tempos, relembrar a própria História Mundial, mesmo assim não muito longe da actualidade, em que estes romances e outros do mesmo género foram as leituras preferidas. Estou portanto à vontade pela sua colocação nesta galeria do meu Amor pelos Livros para, como outros que a seu tempo, se a vida mo conceder, aqui ficarão também. Jane Eyre, cuja infância fora bastante infeliz, consegue subir pela sua força de autocontrolo, lutando contra a adversidade e sempre com a plena consciência de que haveria de encontrar o que ansiosamente procurava. É esta luta que sobressai na sua história e que Charlote Brontë descreve em toda a plenitude do seu génio literário. Foi bem-vinda esta reedição e vivamente aconselhamos a sua leitura a quem porventura não a tenha lido ou que a releiam aqueles para quem esta obra foi uma das suas preferidas em tempos passados.

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PALAVRAS PARA JOSÉ SARAMAGO
Fundação José Saramago
Editorial Caminho

Este livro, lançado no dia do aniversário da Fundação José Saramago, reune alguns das centenas de textos que foram publicados em todo o mundo após a morte do grande Nobel da Literatura portuguesa. Pilar del Rio, nessa cerimónia onde se reuniram muitos dos autores e dos amigos de Saramago. Disse que foi extraordinariamente difícil fazer essa escolha tal era a quantidade de textos que foram escritos e que estavam guardados na Fundação. Assim depreendemos que se trata da escolha possível onde estão representados nomes da literatura e do jornalismo português, como também de países como Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, e por aí fora até ao Reino Unido e Uruguay, enfim ao todo 24 países. Assim, escritores, jornalistas, professores, críticos literários e mesmo políticos ali estão representados nas suas palavras mais ou menos eloquentes, mais ou menos literárias, mas todas elas transmitindo as suas diversas sensibilidades e sobretudo a admiração e o porquê dessa mesma admiração por aquele que era um amigo, um companheiro, um irmão ou um mestre e que tinha partido para uma viagem de onde não se volta. Que poderia eu escrever aqui, para além do muito que também tenho escrito sobre Saramago, para vos deixar este livro admirável no meu AMOR PELOS LIVROS. Nas Palavras para José Saramago está tudo dito - ou quase pois faltará sempre mais a dizer – sobre esta admirável figura que ficará para sempre na nossa História, quer pela importância imortal da sua obra quer pelos seus dotes humanistas de amor pela liberdade e pela paz, combatente sem limites da desigualdade, da corrupção, da miséria, da fome e das injustiças que pululam neste mundo em que vivemos. Amado por muitos, odiado por alguns que não souberam compreender a grandeza das suas virtudes expressas em palavras e gestos, José Saramago, para mim como felizmente para muitos mais por todo esse mundo, não morreu. Estará sempre vivo e presente na nossa memória e aqui fica nesta casa de Amor pelos Livros porque foi por eles que se deu melhor a conhecer e se tornou amado e admirado.

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A CASA DA SABEDORIA
Jonathan Lyons
Editorial Presença

O Autor conta a história da célebre Casa da Sabedoria, dos califas que a apoiaram e das pessoas que nela trabalharam, a um ritmo absorvente e vibrante. E de facto, é extraordinário como foi entre os árabes que nasceram as grandes descobertas científicas daquele tempo e que depois foram trazidas para o ocidente. Neste livro está bem patente que ao longo da época medieval, ao contrário do que acontecia na Europa, as mais variadas áreas da cultura, desde a filosofia à matemática e a astronomia eram estudadas e largamente desenvolvidas pelas mentes dos sábios islâmicos que não se cansavam de inovar e apresentar soluções para problemas que intrigavam a humanidade. Aproveitando-se de um célebre académico cristão, chamado Adelardo, que viajou largamente pelo Oriente com o propósito de aumentar os seus conhecimentos, o autor acompanha-nos numa viagem espantosa às fontes de sabedoria que se centravam naquelas paragens longínquas, nomeadamente a célebre Biblioteca real de Bagdad, conhecida de facto como a Casa da Sabedoria. Ali se reunia toda a vasta série de descobertas originadas no pensamento oriental. É notável como a língua árabe foi durante muito tempo aquela que permitia uma troca valiosíssima de saberes e obras primitivamente escritas em idiomas ocidentais eram de imediato traduzidas para o árabe. Não existe aqui, nem essa foi a ideia do autor qualquer aprovação dos desmandos de etnias radicais e fundamentalistas que hoje fervilham nessas regiões. É curioso, no mundo actual e na presente crise, que parecem ambas dividir o Oriente e o Ocidente, concluirmos que os povos do outro lado desta barricada que se tem formado entre um mundo e o outro, foram de facto os iniciadores de todo o conhecimento que depois foi desenvolvido deste lado em que nos situamos. E é pena que não exista a paz e entendimento suficiente para tentarmos viver, num respeito mútuo pelas tradições particulares de cada um, sem coarctar a liberdade e respeitando os mais elementares direitos humanos. Não fosse de facto a crise actual e as divisões a que estamos a assistir e seria com um prazer muito maior que aqui deixaria esta Casa da Sabedoria no meu Amor pelos Livros, lugar que de facto merece pela verdade que nos transmite e pelos ensinamentos valiosos que nos traz.

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Conspiração OCTOPUS
Daniel Estulin
Ed. A Esfera dos Livros

Daniel Estulin tornou-se mundialmente conhecido com os livros em que descreveu tudo o que até aí tinha sido silenciado sobre as célebres reuniões dos membros do Clube Bilderberg. Neste mesmo espaço poderão rever as notas que então escrevi sobre essas obras. 3 milhões de obras vendidas em 75 países dão uma ideia do interesse despertado no público que ficou a saber como eram montados os cordelinhos da política – estava tentado a dizer “dos politiqueiros” – no mundo em que vivemos e sofremos. Quem são, como agem, quem os informa, enfim, tudo isso Estulin conseguiu investigar. E o certo é que desde então pouco se tem ouvido falar de tais reuniões. Desta vez, o consagrado jornalista e escritor, resolveu trazer-nos o seu primeiro romance no género Thriller . E nada de mais actual do que na grave crise económica que o mundo atravessa, descrever mais uma vez como uma poderosa organização secreta que dá pelo nome de Octopos, ou seja o Polvo, tenta reunir os códigos de contas dos grandes especuladores bancários, das enormes contas que uns tantos corruptos reuniram à custa do trabalho dos que mais sofrem. E embora as intenções de tal seita também não esteja imbuída dos mais elementares escrúpulos humanistas, o que o autor, com a sua enorme experiência de investigador, nos vai descrevendo são novamente os meandros de um mundo obscuro onde prevalecem os falsos valores que dominam a actualidade. O que poderia ser um simples thriller está baseado em informações seguras que ele conseguiu sempre obter. A crise mundial em que vivemos só poderia ser salva por um homem que no livro acaba por ser assassinado. Claro que nos fica a pergunta de como seria isso possível. Sonho imaginado de alguém que não é suposto poder existir e que conseguisse dominar todos os recantos onde se esconde todo o tipo de especulação que oprime os mais fracos e desprotegidos, não seria assim que o problema mundial se resolveria. Mas o livro vale pela descrição que novamente o autor consegue trazer-nos, agora sob a forma romanceada que pode e deve ser lida de modo diferente dos seus livros anteriores, do que se está passando à nossa volta. Digamos que é um outro modo de nos informar sobre aquilo que se passa. E talvez seja também um modo de nos ajudar a melhor pensar e reagir sobre a forma como sair deste fosso em que alguns, poucos, lançaram o resto da humanidade. Os resultados estão todos os dias nas notícias difundidas pelos órgãos da comunicação social sobre a situação nos mais diversos países, mesmo aqueles que até há pouco tempo julgávamos livres e ilesos do alcance de uma crise que tal como dizia alguém que muito admiramos, escritor insigne, muitas vezes aqui lembrado: “A crise actual não é uma crise económica. É uma crise de valores.

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A HISTÓRIA DAS COISAS
Annie Leonard
Editorial Presença

É necessário ler o que aparece em subtítulo descritivo neste livro de Annie Leonard, conhecida pelo seu activismo e ousadia na defesa de uma sociedade mais sustentável e menos consumista, para ter uma ideia da sua importância nas actuais circunstâncias do mundo em que vivemos. A autora pretende demonstrar “como a nossa obsessão pelo consumo excessivo está a destruir o planeta e o que fazer para mudar essa tendência”. Na crise actual que atravessamos e que já vem de há muitos anos atrás será bom que nos debrucemos sobre os exemplos que nos são apresentados, apesar de se referirem a uma vivência nos Estados Unidos que Annie Leonard presenciou e estudou. E aproveito também para mais uma vez, eu próprio referir um outro escritor que aliás tenho citado por várias vezes na minha actividade profissional ao longo dos últimos quarenta anos a respeito da sua obra mais conhecida. Ainda há cerca de um ano eu referia Vance Packard e Plétora – a sua cidade imaginária - num blogue (http://portudo-e-pornada.blogspot.com/2010/08/culpa-e-do-sistema.html) que assino juntamente com um grande amigo. Plétora era a cidade símbolo do consumismo cujos habitantes não tinham mais para fazer senão consumir, consumir, consumir em alto grau, de tal modo que os altifalantes, colocados às esquinas das ruas, aconselhavam dia e noite as pessoas a comprar mil e um produtos no supermercado mais próximo. No livro A História das Coisas, as “coisas” (no original The Story of Stuff) são precisamente a série interminável de objectos, incluindo bugigangas e outros artefactos, cuja constante substituição não acrescenta nada de importante para o nosso quotidiano e muito menos para a nossa civilização. É evidente que a autora não pretende negar o progresso e a indústria que nos fazem chegar artigos inovadores, desde que eles não incluam como é muito vulgar acontecer, produtos tóxicos e perigosos para o meio ambiente. Mas o que teremos forçosamente de evitar é que persista a ideia de que temos de substituir algo que já temos por outro igual, apenas porque tem mais um pequeno botão insignificante que o torna mais cómodo ou aparece com um design mais atraente, ao gosto da moda, levados por uma publicidade enganosa mas muito eficiente para dar a volta aos nossos cérebros. Entretanto, tudo aquilo que deitamos para o lixo e que ainda estaria em condições de ser usado durante muito mais tempo, foi concebido com uma parte importante dos nossos recursos naturais que não são inesgotáveis. Annie Leonard constatou que devido à recessão económica que teve início em 2008 nos Estados Unidos se nota uma diminuição considerável do lixo que é colocado nos passeios. Apesar de ser um sinal positivo de que algumas pessoas estão a mudar o seu modo de vida, isso deve-se ao facto de terem sido obrigadas a comprar menos e a poupar o seu dinheiro. É pena que as acções para combater o desperdício não tenham partido de uma perfeita compreensão da necessidade de o fazer independente de haver ou não menos dinheiro mas trata-se a nosso ver de uma ocasião excepcional para criar em todos nós hábitos que serão absolutamente necessários para conservar este planeta em condições perfeita sustentabilidade.

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A MEDICINA E AS MITOLOGIAS
Mitos antigos e modernos
Armando Moreno
Ed. Medilivro


A obra mais recente de Armando Moreno, o insigne Médico e Professor Catedrático da Universidade Técnica de Lisboa, vem acrescentar mais um trabalho à sua importante área de escritor a que igualmente se dedicou. Se é de realçar o seu curriculum médico nomeadamente na área da Ortopedia e respectiva cirurgia, com dezenas de trabalhos científicos e de investigação publicados, temos de salientar a sua extensa obra literária. E bastaria citar dois exemplos como O Mundo Fascinante da Medicina, em 12 volumes, e Médicos Escritores Portugueses de que foram feitos 12 episódios transmitidos pela RTP, onde também esteve presente noutras séries de programas, para ser de facto uma referência no meio médico nacional e internacional. A sua carreira de cirurgião ortopedista é bem conhecida pelas inovações criadas nesse domínio, em épocas onde eram raras tais intervenções com sucesso. Mas a sua bibliografia abrange também o romance, contos, poesia e teatro e vários ensaios literários. Conheço bem muitas das suas obras e têm um lugar seguro nas minhas estantes, amigos que somos, eu e o autor, diria mesmo mais do que amigos tão grande é a amizade que nos une, franca e leal. Mas mesmo que tal não acontecesse esta sua obra teria de ficar aqui “receitada”, já que de um médico-escritor se trata, ressalvando no entanto como ele próprio o diz na badana da capa que nela “o leitor não encontra descrições de patologias, muito menos de terapêutica”. A Medicina e as Mitologias é o resultado evidente dos seus conhecimentos na área da Medicina e de um exaustivo trabalho de pesquisa nos mitos da História Antiga e Moderna. O autor extrai da comparação entre o mito e o pormenor existente na realidade médica a sua conclusão lógica. A excelência dos comentários com que finaliza a sua análise, seja ela médica ou simplesmente social, é bem demonstrativa da personalidade do autor. Exímio na escrita como o foi na medicina, onde foi galardoado com prémios internacionais pelas suas intervenções, Armando Moreno não deixa de nos surpreender, aliando ao vértice da exactidão histórica a transposição para preocupações actuais de carácter humanístico e social. Dir-se-ia que estamos muitas vezes perante um historiador e um crítico. Como ele próprio afirma na Introdução “a finalidade dos Comentários, a propósito de cada Mito e de cada área médica, consiste, antes de tudo, em trazer para a modernidade os Mitos que, sendo representantes da tradição popular, se encontram, em muitos casos, vivos entre nós. Como interpretar nos nossos dias o Mito da Pandora? Que significado pode assumir o mito de Prometeu na vida moderna?” De facto, é na descrição e na sua análise que vamos surpreender-nos com temas e factos que estariam esquecidos por muitos de nós ou mesmo nos seriam totalmente desconhecidos. Se quase todos sabem o que significa o Calcanhar de Aquiles, onde se situa esse órgão no corpo humano e quem foi Aquiles, muitos não conhecerão porque era frágil aquela parte quase escondida do nosso pé. E também serão muitos os leitores que desconhecem a relação entre Poirot e a Anatomia do Pâncreas. São mais de 3 centenas de mitos que se estendem pelas Mitologias Clássica, Celta, Nórdica, Egípcia, Árabe e outras, como ainda ao culto mariano e santos populares que se estendem pelos 6 capítulos em que a obra está dividida abrangendo a Anatomia, Fisiologia, Cirurgia e outras especialidades médicas, assim como temas relacionados com a saúde.

De salientar ainda as muitas reproduções a cores de grandes obras da Pintura Universal, ilustrando naturalmente alguns dos mitos. Haveria muito mais razões para justificar a presença d’ “A Medicina e as Mitologias” e do seu autor Armando Moreno neste espaço de Amor pelos Livros. Na impossibilidade de enumerá-las todas resta-me a esperança de que, por falta do meu engenho, a análise simples que aqui faço seja suficiente para despertar o interesse dos leitores. Este livro tem ainda uma característica importante nos dias de hoje: é a possibilidade de o ir lendo de vez em quando, conforme a nossa disponibilidade de tempo, sem o perigo de perder a continuidade necessária numa história ou no enredo de um romance. Isto, embora estando cientes de que o entusiasmo pela novidade e pelo que vamos aprendendo nas mais de 400 páginas nos levará bem depressa a chegar ao seu termo.

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NOTA DO AUTOR
Gil Montalverne

Este local que criei com muito carinho e dedicação tem estado sem actualização normal mas isso não significa que esteja encerrado. Por razões que se prendem com o excesso de trabalho e porque foi e continua a ser meu desejo colocar aqui os títulos com a minha análise pessoal, o que me obriga a ler com atenção o seu conteúdo, eles estão comigo mas não tive oportunidade de fazer essa análise convenientemente, o que penso será resolvido em breve.

Entretanto abri uma excepção que se segue a esta nota com um texto da minha autoria que assinala o aniversário do falecimento de José Saramago, o Grande Homem e ilustre escritor, cuja Biografia, por simples coincidência, é precisamente a mais recente obra colocada neste espaço.
À vossa atenção, se o desejarem, ficam as palavras que lhe dediquei.

ATÉ SEMPRE SARAMAGO!
Gil Montalverne

Faz hoje um ano que ele partiu. Para onde não sabemos ao certo. O que temos a certeza é que só ele conhecia pois como escreveu no Memorial do Convento "…não subiu para as estrelas, se à terra pertencia". Numa cerimónia que hoje teve lugar em frente à Casa dos Bicos, futura sede da Fundação, reunindo familiares e amigos, tal como era seu desejo, Pilar depositou parte das suas cinzas junto à oliveira centenária vinda de Azinhaga da Fonte, sua terra natal, junto da qual se sentava quando ali se deslocava e que existia desde os seus tempos de menino. Em vez de uma estátua está à sua sombra um banco de jardim - "para que as pessoas ali se possam sentar, recordar o escritor ou ler as suas obras". Inscrita no chão está igualmente a frase que cita no seu romance. Ali, à sombra da sua Oliveira e junto às suas cinzas, a que pelas mãos do Presidente da Câmara de Lisboa foi depositada terra que veio de Lanzarote, onde terá vivido uma das fases mais felizes da sua vida, fica-nos em todos um sentimento único de que estamos com ele. Ele estará sempre connosco. Saramago, o homem que mais do que a si próprio amava toda a humanidade, não partiu. Até sempre Amigo! Até sempre, Saramago.
Faz amanhã um ano que eu “estive com ele” como sempre. E então encontrei-me a escrever assim:
A notícia apareceu de repente, inesperada para muitos de nós, embora sabendo que o teu estado de saúde, ou de doença, nestes últimos tempos não augurava nada de bom. Mas como a esperança é a última coisa a desaparecer, pensávamos que mais uma vez irias recuperar. Assim não aconteceu. A notícia anunciou o teu falecimento às 12.30 deste dia 18 de Junho. Mas uma coisa é certa: ao resolver partir para onde - como tu acreditavas - nada existe, a morte não te levou. Tal como dizia o poeta “és daqueles a quem a lei da morte libertou”. Não morrerás porque os homens como tu são verdadeiramente imortais. Não apenas – e já seria muito – pelo merecido Prémio Nobel que honrou a Literatura Portuguesa, inscrevendo o teu nome nessa lista de grandes celebridades mundiais que ficarão para as gerações futuras, nem pelos outros grandes prémios com que foste distinguido e os mais diversos doutoramentos Honoris Causa, mas pelas obras que nos deixaste, pela coerência do teu pensamento, pela tua paixão em prol das liberdades e dos direitos de toda a comunidade, pelo teu profundo humanismo, pela bondade expressa nos teus actos, pelo teu olhar em defesa dos mais desfavorecidos. É curioso até como chegavas não só a respeitar como até por vezes a amar os teus próprios inimigos. Uma alma grande como a tua faz-nos realmente falta. Lamento não poder ler mais nenhuma das tuas obras que haverias ainda de nos legar. Terei de limitar-me a reler as que escreveste e que tenho comigo. Reler os teus cadernos onde deixaste, em minha modesta opinião, o teu verdadeiro retrato, as tuas preocupações com o caminho que o mundo ia percorrendo, desmascarando as vilanias que o povoam ou enaltecendo quem defendia a verdade e a justiça. Ali, nesses escritos diários, está sempre e sempre toda a grandeza do homem que és (ia a dizer que foste), aquele homem que não esqueceu nunca os dias da sua infância pobre e simples apesar de ter subido tão alto, o teu enorme e profundo sentido do que é ser um homem verdadeiramente Bom, a tua preocupação permanente em encontrar soluções para o que julgamos ter perdido.
A última mensagem deixada no teu blogue que ia sendo actualizado nestes últimos tempos por ti, pela Pilar e pela Fundação mas nestes dois últimos casos com os textos que são teus, fica bem como sinal das tuas preocupações com o mundo actual e com um conselho que talvez valha a pena seguir:

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Assim é de facto Querido Amigo (se me permites). Precisamos de pensar e reflectir. Precisamos de encontrar as ideias que tendem em faltar-nos, sobretudo se apenas pensarmos em nós próprios. É preciso, como tantas vezes disseste, olhar bem à nossa volta e repensar o que andamos a fazer. Isto, se quisermos reencontrar a verdadeira felicidade perdida. É que ela só existirá quando a virmos reflectida em tudo à nossa volta. E por estar convencido - e certamente não sou o único – que ao continuar a ter-te a meu lado com o que escreveste e com o que és (novamente ia a dizer “que foste”) é que te digo com toda a sinceridade: Até Sempre Saramago!

JOSÉ SARAMAGO – Biografia
João Marques Lopes
Guerra e Paz Edições

Esta é uma “pequena” Biografia de José Saramago (“pequena” porque tem apenas 165 páginas sobre a vida de uma grande Homem). Isso não desmerece, naturalmente, o autor nem o biografado. Foi escrita e publicada antes do falecimento do Nobel da Literatura Portuguesa. Entre os títulos já publicados pelo autor, Licenciado em Filosofia pela Universidade de Letras de Lisboa, contam-se as biografias de Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Mas esta é na verdade a primeira biografia de um dos escritores mais importantes da Literatura Portuguesa. José Saramago nunca escondeu, antes pelo contrário, os primeiros anos da sua vida nascido na Aldeia da Azinhaga, Golegã, num meio dos rurais mais desfavorecidos, numa casa de terra batida que já pertencera ao seu avô, guardador de porcos. Nas muitas crónicas e artigos que escreveu, sempre relatou em pormenor as dificuldades passadas nesses primeiros anos, assim como viria a contar, ao mesmo tempo que comentava episódios da actualidade com aquela independência e agudeza que sempre caracterizou a sua obra, momentos difíceis da sua meninice que por vezes chegavam a ser apresentados com certa nostalgia como se afinal tivessem sido importantes – e foram certamente – para a sua formação intelectual. É que ele também tivera os seus sonhos como qualquer criança e sobretudo aprendera a conhecer o que significa a existência da desigualdade que separa os homens entre si. Mais tarde, quando desempenhava funções no Diário de Notícias, saía ao fim da tarde para ir passar longas horas, até lhe ser permitido, numa das salas de Leitura do Palácio Galveias, devorando as mais variadas obras dos grandes escritores e pensadores, o que de certo contribuiu para o conhecimento mais profundo do significado da vida e dos verdadeiros valores humanitários. Adorado por muitos e odiado por alguns que nunca aceitaram a sua independência e a sua defesa dos valores em que acreditava, combatendo a mentira e a falta dos mais elementares princípios éticos, Saramago permaneceu igual a si próprio até aos últimos momentos. Como já aqui dissemos neste mesmo espaço do AMOR PELOS LIVROS, no próprio dia em que viria a falecer, ao escutar os comentários feitos por alguns dos seus amigos que em voz baixa, num recanto do quarto onde ele se encontrava deitado, falavam sobre a crise actual, Saramago ainda foi capaz de juntar o seu, dizendo: “Não se trata de uma crise económica mas de uma crise de valores”. Que lucidez extraordinária a daquele homem ao qual restavam apenas algumas poucas horas de vida. Mas afastei-me da essência desta Biografia publicada antes da sua morte e à qual só agora tive acesso. É a Biografia possível para definir perfeitamente o que foi o seu trajecto de vida, a sua acção em defesa dos ideais muito próprios em que acreditava, um pouco do histórico do muito que deixou escrito, para além dos seus livros memoráveis, em jornais e revistas da época, em Portugal e nos outros países. O autor relembra portanto para além das suas obras mais significativas, as crónicas no “Jornal do Fundão” e na “Capital” ou a crítica literária que fazia na “Seara Nova”. Em todo esse vasto mundo que descrevia e nos personagens que criou, Saramago mostrou o reflexo de muitas das suas lutas, das afrontas de que foi alvo por pensar como pensava e escrever como pensava, sempre fiel à verdade em que acreditava e desmascarando o que muitas vezes se esconde sob falsas crenças e atitudes. Faltará por certo escrever a grande Biografia da sua vida, para tornar mais fácil o muito que ele próprio deixou escrito sobre ela. Mas esta Biografia de João Marques Lopes merece ser lida por quem queira conhecer o essencial do seu trajecto até praticamente aos últimos dias da sua vida.

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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA
Victor J. Katz
Fundação Calouste Gulbenkian

Longe de mim ter a pretensão de vir aqui “dissertar” sobre o conteúdo deste livro. Então porquê a sua inclusão neste espaço? O ensino da Matemática tem sido desde há vários anos objecto e tema para os mais variados debates e muitas das causas das fraquíssimas notas dos nossos alunos dos primeiros anos do ensino secundário nessa matéria foram sendo apresentadas como devidas ao fraco ou mesmo mau ensino da matemática. Foram nomeadas comissões de personalidades ligadas ao ensino, à ciência, filosofia, pedagogia e a muitos outros ramos do saber, inclusive da literatura, a fim de resolver essa situação. De um modo geral, a questão que acabava sempre por se colocar era o porquê da falta de interesse dos alunos pela Matemática. E muitos concordaram que seria necessário criar nos jovens uma apetência de carácter mais rigoroso do interesse que a Matemática sempre teve, tem e continuará a ter em quase todos os problemas do nosso dia-a-dia, qualquer que seja a ocupação ou a formação universitária. Ela está e estará sempre presente para resolver os problemas, tecnológicos ou não. Victor Katz, Doutorado em Matemática e professor emérito da Universidade de Colúmbia, dedicou-se à História da Matemática e sua utilização pedagógica, sendo autor de conceituados livros de estudo sobre as teorias da Matemática e de interessantes artigos nesse âmbito na Revista American Scientist. Victor Katz recebeu o Prémio Watson Davis da Sociedade de História da Ciência, por este seu livro agora traduzido por uma equipa de tradutores proposta pelo Prof. Nuno Crato, com revisão e uniformização do Prof. Jorge Nuno Silva do Departamento de História e Filosofia da Universidade de Lisboa. Esta obra preenche exactamente os fundamentos que presidem a criação pela Fundação Gulbenkian da sua colecção de Manuais Clássicos, destinados a auxiliar estudantes e professores que nem sempre conseguem encontrar as obras necessárias para o incentivo e auxílio nas matérias que pretendem estudar ou melhor compreender o seu alcance a nível social. O próprio Victor Katz escreve no prefácio que “o conhecimento de história da Matemática mostra aos estudantes que a matemática é um empreendimento humano importante. A Matemática não foi criada em forma polida com que aparece nos livros de texto, foi antes desenvolvida muitas vezes de forma intuitiva e experimental respondendo à necessidade de resolver problemas. A evolução dos conceitos matemáticos pode ser utilizada com sucesso na sensibilização e motivação dos estudantes de hoje.”
Se outras razões não existissem isto bastaria para que esta obra pertencesse ao Amor pelos Livros mas existem outras razões. Pelo que já nos foi dado ler e apesar das restrições impostas pela formação profissional que não possuo nesta área, posso garantir que nas cerca de mil e cem páginas encontrei nos diversos capítulos em que a obra está dividida muita informação que para além de curiosa me ajuda a ter uma noção completamente diferente da própria História das diversas civilizações nas quais a Matemática teve sempre um papel importante. Desde escrita em plenas rochas, placas de argila ou papiros por cuidadosos escribas há milhares de anos antes de Cristo, é fantástico como ela presidia a muitas decisões que tinham de ser tomadas pelos soberanos ou sacerdotes para os mais variados fins. Era necessário calcular por exemplo o nº de operários ou de pães para os alimentar a fim de construir edificações, algumas das quais ainda hoje podemos admirar. E se isso foi por exemplo feito na Mesopotâmia 3.500 a.C. também foram encontrados registos nos famosos “ossos oráculo”, curiosos fragmentos de ossos com inscrições gravadas, datados de 1.700 a.C. na China, durante a dinastia Shang. Ficamos melhor informados de como foi sempre um problema de contagem a noção da matemática mais simples, desde por exemplo a conhecida anotação por barras sucessivas para representar números. Mas desde os primórdios que os chineses já usavam potências de 10 num sistema multiplicativo. A variedade é possível para qualquer pessoa com um mínimo de conhecimentos poder encontrar valiosas contribuições para os aumentar. Existem por exemplo dois capítulos dedicados à Astronomia e Matemática, Biografias de destacadas figuras em caixas separadas, tópicos especiais como por exemplo a discussão da influência egípcia na matemática grega. Encontramos a cada passo a explicação real de muitos probleminhas que nos são muitas vezes apresentados em jornais e revistas como curiosidades do mundo da matemática sob a forma de entretenimento. Quantas pessoas que conhecem livro de poemas Rubaiyat de Omar Khayyam, traduzido em quase todos os idiomas como uma das maravilhas da Poesia Persa, saberão que ele foi também um dos grandes matemáticos do seu tempo? Platão, o grande filósofo, discípulo de Sócrates, foi também um geómetra excepcional que ajudou a resolver pelo menos um problema, onde eram necessárias noções de cálculo, durante uma curiosa visita ao Egipto. Tratava-se por exemplo nessa época de saber como duplicar um cubo, isto é um cubo que tivesse o dobro do volume do original, Isto num tempo em que não se conhecia a operação de raiz cúbica nem tampouco de raíz quadrada. No tempo da civilização Inca, ainda sem qualquer linguagem escrita, já existia um sistema de numeração lógico fazendo os registos por meio cordas e nós. A obra também inclui um capítulo dedicado ao nosso grande matemático Pedro Nunes. E ao longo da História da Matemática também já nos tempos mais próximos se fala de alguém, o matemático Babbage, que foi segundo se julga o primeiro criador de uma máquina que viria dar a origem ao nosso computador actual. E naturalmente vem depois Alain Turing e por aí fora até aos dias de hoje. Portanto, creio que consegui demonstrar o interesse para todos os que desejarem ampliar os seus conhecimentos em ler algumas partes desta obra, sendo que outras serão efectivamente mais indicadas para estudantes e professores dessa matéria tão importante que é a Matemática.

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