José Rodrigues dos
Santos
Nos seus últimos
romances José Rodrigues dos Santos tem insistido cada vez mais em incluir, para
além da inerente parte ficcional, elementos de carácter histórico ou
científico. Apesar de já ter sido atingido por alguns críticos que não apreciam
esse caminho, argumentando que uma obra científica deve sê-lo de facto, tendo
por única função a divulgação do conhecimento científico e um romance deve ter
como finalidade a construção de um argumento ou de uma história mais ou menos
ficcional ou verídica, o certo é que este autor é um record de vendas no nosso
país onde já vendeu 2 milhões de livros, situando-se também no top de vendas em
muitos outros países onde é de imediato aceite e traduzido com muitos milhares
de exemplares. Portanto, que dizer deste último onde novamente lança Tomás de
Noronha, o seu personagem criado em obras anteriores, agora suspeito de um
estranho homicídio, que terá de resolver o que significa uma mensagem e um
código, para provar que está inocente. A Chave de Salomão é um texto
pseudepigráfico onde se encontram vários desenhos geométricos de mais que
desconhecido ou discutível significado, atribuído supostamente ao Rei Salomão e
daí o pentagrama que aparece na sobrecapa do livro. José Rodrigues dos Santos
caminha no seu romance para além deste mistério, há muito indecifrável, para
muitos outros sobre os quais presentemente tem sido difícil encontrar respostas
como seja a existência da alma, o que é a consciência, para onde vamos depois
da morte ou da própria existência de Deus. Ao longo das mais de 600 páginas
(como sempre são enormes os seus livros o que pode ser bom para uns mas menos
cómodos para outros), o autor cruza constantemente o desenrolar da aventura
ficcional com as conjecturas científicas do seu personagem, entrando por
descrições de conceitos científicos que são do domínio da física quântica. Ora
é aqui que as opiniões dos críticos se dividem. Uns acham que não é um bom
livro científico pois para isso existem os cientistas que os escrevem e
apresentam. Outros consideram que isso é uma mais valia no romance de ficção pois
os leitores ficam elucidados ou melhor elucidados, embora pouco profundamente,
sobre algo que só a ciência pode explicar. Acreditamos – aliás José Rodrigues
dos Santos o afirma – que a informação científica e técnica incluída na obra é
genuína e que as teorias e hipóteses apresentadas são sustentadas por
cientistas. E confessa mesmo ter consultado várias personalidades ligadas à
física para o ajudarem, revendo os textos que ia escrevendo ou elucidando-o
sobre dúvidas em outros que iria escrever. Também o facto de terem estado na
apresentação do livro um físico e um psiquiatra são uma garantia de que aquilo
que descreve está correcto e de acordo com o que actualmente se conhece. Nós
próprios lemos há dias numa outra obra de John Brockman ( Respostas da Ciência) a referência de que Einstein negava a
existência da realidade como sendo alguma coisa real pois, segundo ele, “a
realidade só existe se houver um observador”. São de facto matéria estranha
para grande parte das pessoas e, tal como este caso da realidade, outros
acontecem no decorrer de “A Chave de Salomão” que os cientistas sabem mas que
nem sempre conseguem apresentar de forma bem explícita à maioria dos leitores
comuns. Vejamos uma rápida sinopse: o corpo de Frank Bellamy, director de
Tecnologia da CIA, é descoberto no CERN, em Genebra, na altura em que os
cientistas procuram o bosão de Higgs. Entre os dedos da vítima é encontrada uma
mensagem incriminatória. “The Key: Tomás Noronha”. A mensagem torna Tomás
Noronha o principal suspeito do homicídio. Depressa o historiador português se
vê na mira da CIA, que lança assassinos no seu encalço, e percebe que, se quiser
sobreviver, terá de deslindar o crime e provar a sua inocência. E é neste
contexto que José Rodrigues dos Santos resolve juntar o melhor de dois mundos
num só: o romance/aventura e a ciência. Será que o consegue para todos os que
resolvem folhear esta sua obra? Não queremos ficar com essa dúvida e
baseamo-nos apenas nas críticas e nos comentários deixados aqui e ali, nas
diversas referências feitas a esta sua obra. Pessoalmente, nós que até
acompanhámos a recente descoberta do bosão de Higgs ou Partícula de Deus no
CERN, local escolhido por JRS para iniciar o mistério da estranha morte que
incrimina o seu personagem, foi-nos fácil ir acompanhando as muitas descrições
de carácter científico que o autor deposita nesta obra, como aliás tem vindo a
fazer ultimamente. Mas podemos concordar que nem todos os leitores estejam com
essa disposição para o fazer, o que é pena pois continuo a considerar José
Rodrigues dos Santos um autor que merece ser lido. Fica o convite. E aguardemos
mais um ano pela próxima obra para saber se este caminho por ele traçado irá
continuar, intensificar-se ou, eventualmente, desviar-se para o conceptual. Confesso que gostava mais que ele
continuasse a ser romancista e deixasse a ciência de lado. Mas a minha opinião
de nada vale.
ALABARDAS, alabardas
ESPINGARDAS, espingardas
José Saramago
Este romance inacabado que o nosso Nobel da Literatura deixou no seu computador
com trinta páginas apenas, que ia “refundindo e não reescrevendo” como
confessava nas notas do seu Caderno a 16 de Setembro de 2009, sempre na
intenção de o vir a terminar mas que o fim traiçoeiro, que já se avizinhava,
não permitiu, é mais uma jóia que se
junta à sua obra grandiosa, sem dúvida das maiores da literatura mundial e da
nossa. Quando o livro chegou às minhas mãos e comecei a sua leitura, não parei
senão quando cheguei ao fim. E lembrei-me de imediato de algumas daquelas vozes
que aqui e ali se ouviam, de vez em quando, ao citar a escrita de Saramago,
intitulando-a difícil de acompanhar, por falta de pontuação ou excesso dela, a
incomodidade dos poucos períodos ou parágrafos, enfim uma série de desculpas
para não querer compreender a grandiosidade das suas palavras e das suas
ideias. É que sucedeu-me precisamente o contrário. Aliás, como é sabido e
sempre o afirmei, nunca tive qualquer dificuldade na sua leitura. Mas nestas
páginas, do que viria a ser o seu próximo romance, senti uma tal fluidez no seu
original processo literário, que não consigo compreender como foi possível
alguém dizer que tinha necessitado de voltar atrás na leitura de uma ou outra
frase para retomar o sentido. Tudo é tão claro e evidente na exposição dos
diálogos, quando existem, como na explanação do pensamento da personagem
principal, de tal forma a escrita de Saramago me pareceu até caminhar para
novos meios de nos apresentar as suas ideias, o seu pensamento, aquilo que
afinal sempre constituiu a mensagem que desejava transmitir aos outros e que
consistia, conforme muitas vezes afirmou, a necessidade de agitar consciências,
levá-las a pensar, a reflectir, a não serem indiferentes ao que nos rodeia na
nossa passagem pelo mundo. E dito isto, nada tendo ainda referido sobre a
história do romance em si e do possível enredo que haveria, dadas as
circunstâncias, de constituir, perguntei-me muitas vezes que outras palavras
poderia aqui deixar diferentes do muito que tenho escrito sobre José Saramago e
as suas obras. Eu que até já o saudei, tratando-o por tu, aqui neste mesmo
espaço, em 18 de Junho de 2011, sinto séria dificuldade em encontrar algo de
novo para além do que já disse nesta mesma peça. Se me fosse permitido, diria
que ele é, para mim, o maior escritor da literatura do meu tempo. Os seus
livros foram e são, para mim, objectos de culto onde encontro não só as
respostas para muitas das minhas perguntas como a ajuda para me interrogar
sobre outras que continuo a fazer: Que sociedade é esta onde falta o sentido da
humanidade e o respeito pelo outro. E o direito a ser diferente, sem que tal
interfira na liberdade desse outro? Até quando a falta de ética no
comportamento humano? Questões que me preocupam de facto. Mas vamos então ao
livro. A história de um simples empregado numa fábrica de armamento, apaixonado
por peças de artilharia, separado da sua mulher que nunca concordara com aquele
tipo de emprego do marido, é a base para Saramago reflectir sobre uma questão
que desde sempre, como confessa no seu caderno, o preocupara. Porque razão
nunca tinha acontecido uma greve numa fábrica de armamento. E havia também,
como escreve, o estranho caso de uma bomba que não explodira na guerra civil de
Espanha, tendo sido encontrada dentro dela uma mensagem dizendo isso mesmo.
Esta bomba nunca vai explodir. Embora também confesse que não se recordava bem
onde teria lido tal notícia, o facto é colocado durante um telefonema que
Felícia faz ao marido, incitando-o a tentar junto da administração da fábrica
onde Artur Paz Semedo (curioso o nome dado ao personagem principal) trabalha,
uma autorização para investigar nos arquivos as possíveis vendas efectuadas
algumas décadas atrás. E vamos assistindo a uma mudança quase radical nas
relações daquele casal, devido à transformação que vai sendo feita na atitude
laboral de Artur Paz Macedo mais concordante com a personalidade de Felícia.
Mas o importante no romance é mais uma vez a chamada de atenção, afinal tão do
agrado do autor, para a persistente existência dos interesses mais obscuros dos
políticos nas guerras que provocam e alimentam, nos lucros adjacentes e na
completa desumanização da sociedade ao longo dos tempos. Até quando? Poderemos
perguntar. Infelizmente não o sabemos e por certo Saramago, se tivesse tido a
oportunidade de acabar este romance, também não nos daria a resposta. Mas senti
uma tristeza enorme por ele não o ter terminado e poder dar-nos algo mais a
juntar ao muito que nos deixou e que ficará para sempre nas bibliotecas dos
seus leitores, espalhados pelos quatro cantos do mundo. Essa tristeza,
confesso, não retira o enorme prazer de o ter lido mais uma vez na sua prosa
inconfundível. O livro contem ainda dois
interessantes textos de duas personalidades muito ligadas à vida e obra de José
Saramago. O poeta e ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera faz uma análise
bem construída de como este último livro se insere na obra completa do nosso
Nobel da Literatura. O jornalista italiano Roberto Saviano consegue colocar-se
no papel de alguém que também conheceu uma série de pessoas semelhantes à
personagem criada por Saramago. “Também eu conheci Artur Paz Semedo. Não
trabalhava numa fábrica de armamento… e o seu nome era Tim… Rodolfo…Christian…
etc.”. E acaba por contar-nos histórias curiosas desses seus "conhecidos".
Enfim, aqui está portanto “Alabardas”, o último romance (o inacabado) de José
Saramago. Mas tenho esperanças de continuar a falar dele neste meu Amor Pelos
Livros.
Para ler um excerto desta obra clique aqui
QUERENÇA
Fernando Correia da Silva
Fernando
Correia da Silva, o meu grande amigo Fernando, autor de assinalável obra
literária e poética, merecedora dos elogios de grandes nomes do nosso meio
artístico-literário como por exemplo António José Saraiva, está hoje aqui
presente pelas piores razões: deixou-nos, à família e aos amigos, no passado
dia 18 de Julho. Já há muito tempo que ele devia figurar aqui mas como várias
vezes tenho afirmado não me é possível colocar neste espaço todos os livros e
autores que gostaria nele figurassem. E para além da falta de tempo para o
fazer numa modesta análise minimamente correcta, tenho dado preferência às
edições ou reedições mais recentes. E apesar de uma importante actividade
literária que Fernando Correia da Silva mantinha regularmente desde que em 1998
criou o site Vidas Lusófonas (clique e visite), sendo responsável pela coordenação de 169
biografias de vários autores nacionais e estrangeiros, em muitos casos escritas
por ele próprio com uma originalidade que lhe era peculiar, publicara o seu
último romance em 1996. E assim apesar de ter pensado por várias vezes colocar
aqui alguns dos seus livros que estão em lugar de destaque numa das minhas
estantes, o tempo foi passando até que o inesperado aconteceu. Tínhamos falado
uma semana antes, recordando até a coincidência da nossa idade. A propósito do
seu aniversário a 28 de Julho, cerca de um mês antes do meu, ainda me atirou a
costumeira frase “Muito respeitinho pois sou um mês mais velho do que tu”.
Sempre bem-disposto, nada faria antever o que se passaria. A nossa amizade
nasceu em Campo de Ourique, quando da entrada para o primeiro ano no Liceu
Pedro Nunes. Camaradas de turma, logo se iniciou uma amizade que iria manter-se
nas actividades extra-escolares, entretenimentos e excursões, culminando na
adopção dos mesmos ideais que cedo nos levaram ao MUD Juvenil. Cedo começariam
as perseguições da PIDE que, ao contrário do que lhe aconteceu a ele, não
conseguiam encontrar-me devido à diferença entre o meu nome familiar e o
oficial. Preso em Caxias com 17 anos, viria a publicar dois anos depois
COLHEITA,
que logo me ofereceu, um livro de poemas nos quais apresenta já muito
das suas preocupações de carácter social, ao mesmo tempo que se compreende
porquê futuramente na sua obra literária haveria de sempre coexistir uma forma
algo poética de se exprimir. O Fernando não poderia nunca deixar de ser ele
próprio, juntando, como poucos o souberam fazer, o coração e a razão, o que
gostaria de ser e a realidade do que tinha de ser, o eu e o não eu, os outros,
sempre os outros. E por isso coloco hoje aqui o seu romance que no meu entender
melhor o define. Em QUERENÇA, que mais tarde viria a ser adaptado ao cinema por
seu filho Edgar Feldman, Fernando Correia da Silva é ao mesmo tempo o autor e o
narrador que criou como personagem principal. É que, curiosamente, Júlio Vera,
o personagem é um contador de histórias que narra acontecimentos da sua vida,
episódios e amigos da sua juventude e tem igualmente premonições de algo que
virá a acontecer. E aqui e ali as palavras correm com um fervor poético. Júlio
Vera joga com elas como se de poesia se tratasse. O autor está dentro e fora da
Querença, aquela querença que é afinal o seu território ou foi e será. E se ao
analisar o personagem-narrador que Fernando criou, foram muitos os que viram
neste seu romance algo de auto-biográfico, como aliás se intui dentro da
própria narrativa ficcionada, nele acontecem também nomes e personagens reais
com os quais o autor conviveu. E não seria apenas O’Neill, Agostinho Neto ou
Pinto de Andrade com os quais se cruzam em Lisboa a personagem de Querença e o
autor que poderiam criar a suposta verdade. Leio Júlio Vera e estou ao mesmo
tempo a ouvir as palavras que muitas vezes escutei deste meu grande amigo,
fossem elas durante umas voltas pelas ruas de Campo de Ourique, sentado num
café da Ferreira Borges ou num banco do jardim da Parada. Da situação política
que atravessávamos, nosso tema preferido, lançava de repente com o seu
costumeiro humor qualquer pergunta que envolvesse uma pequena aventura dos
nossos tempos de juventude: Lembras-te Gil de como conseguimos a malhadinha,
aquela pomba que querias para o teu pombal? (eu era aficionado columbófilo e
ele ajudava-me a manter a bicharada). Na vida como na escrita, as revessas como
ele as intitula em Lianor ou no Mata-Cães, outras das suas obras, são
constantes. Tão rapidamente estamos ou, melhor, está no agora como recua
dezenas ou centenas de anos para vestir a pele de Colombo ou Gama. Entre o que
desejou ou foi e o que já não é porque afinal não aconteceu como previa,
existem muitos acontecimentos que somos levados a repensar porque deles fomos
testemunhas ou nos ensinaram de maneira muito diversa. Heróis que não o foram
de facto, almas caridosas que apenas exerciam o seu poder sobre espíritos
inocentes para mais facilmente os escravizarem, um mundo e uma história que não
é, nunca foi, aquele em que mesmo os homens que chegaram a ser considerados
seus defensores se reconheceram mais tarde as naturais imperfeições humanas.
Fernando Correia da Silva, sendo o criador e a criatura que faz parte dos seus
romances, consegue a estranha magia de ser um perfeito analista político que
nos revela factos que a ele são exteriores mas nos quais tomou igualmente
parte. E consegue tudo isso com extraordinário rigor, numa forma que nos prende
da primeira à última página de cada um dos seus romances, onde se destacam o
rigor, a crítica e até um certo bom humor que o caracterizava também na vida
real. E por isso a sua obra, o criador e a criatura como Júlio Vera na
Querença, transmitem-nos a noção de que a natureza humana é inalterável e de
que apenas podemos acreditar numa utopia: será que um dia a humanidade atingirá
a igualdade fraterna e universal? Queremos acreditar que acontecerá. Por isso e
para isso vivemos e o recordamos quando lemos as suas obras. Fernando Correia
da Silva está dentro delas.
Para
ler um excerto de QUERENÇA e um poema de COLHEITA, o primeiro livro do autor,
clique aqui
JOSÉ SARAMAGO
Na Porto Editora
Fundação José Saramago
Novas edições de livros de José
Saramago, anteriormente publicados pela Caminho, estão agora nas livrarias com
a chancela da Porto Editora em novo acordo feito com a Fundação do nosso prémio
Nobel da Literatura. Nesta primeira fase são nove as obras apresentadas de uma
forma original, com capas elaboradas por um gabinete de designer, onde sobre um
fundo pastel aparecem os títulos na caligrafia de nove destacadas personalidades
da literatura e da cultura portuguesa e que igualmente foram amigos do autor. Álvaro
Siza Vieira, Baptista-Bastos, Eduardo Lourenço, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo Tavares,
Júlio Pomar, Lídia Jorge, Mário de Carvalho e Valter Hugo Mãe escreveram com a
sua mão os títulos de A Caverna, A Noite, A Viagem do
Elefante, As Intermitências da Morte, As Pequenas Memórias,
Ensaio sobre a Lucidez, História do Cerco de Lisboa, Manual
de Pintura e Caligrafia e O Homem Duplicado. A respectiva
caligrafia está identificada numa das primeiras páginas do interior. Para além
destas obras, em breve outras se seguirão, mantendo o mesmo estilo, na
sequência de um desejo de inovação que ficou a marcar a entrega da edição e
reedição das obras literárias de José Saramago à Porto Editora que irá
igualmente prestar o seu apoio financeiro e logístico à Fundação, criada por
sua mulher Pilar de Rio, no sentido de promover o melhor estudo e divulgação da
obra literária desse grande escritor que marcou de forma inigualável a moderna
literatura portuguesa.
Não sendo meu propósito repetir
as palavras que já tive oportunidade de escrever sobre José Saramago neste
espaço que criei na grande rede global para expressar o meu “amor pelos
livros”, não posso no entanto perder mais uma oportunidade de juntar algo que
tenho sentido nestes últimos tempos. É que, apesar de algumas (poucas) vozes
terem chegado a afirmar que a escrita ou o estilo literário criado pelo nosso
Nobel da Literatura não era muito fácil de entender (grandes períodos sem a
costumada pontuação a separá-los ou então pontuação a mais mas sem parágrafos)
e conduziria a um cansaço desmotivador, juntando alguns críticos que lamentavam
a atribuição do grande prémio mundial que melhor ficaria noutros autores que me
dispenso de aqui referir, a verdade é que tal não aconteceu. E até, apesar do
difícil momento que vivemos e do entusiasmo pelo aparecimento de novas
tecnologias que entusiasmam os mais jovens, afastando-os do hábito da leitura, tenho
notado – e não serei certamente o único – que as obras de Saramago continuam a
ocupar um lugar de destaque na venda de livros e portanto nos escaparates das
livrarias e é muito vulgar encontrarmos pessoas que as lêem, seja num banco de
jardim ou nos transportes públicos.
É verdade que Saramago escreveu
precisamente para o seu povo ou para todos os povos que desejam aprender a
conhecer melhor a finalidade da sua presença neste mundo, defendendo os seus
direitos e ajudando a lutar contra todos os que pretenderem tirá-los. Vivemos
de facto um período – mais um – em que a humanidade se apresenta por vezes com
muito pouco de humana. Esquecemos com frequência muito do que se passa à nossa
volta, como se constituísse uma espécie de mundo à parte onde não vivemos e ao
qual não pertencemos. É quase a velha história do “salve-se quem puder” ou
então “quem vier depois que resolva”. E em muitas das suas obras, Saramago
ajuda-nos a reflectir e recorda-nos precisamente o que muitas vezes já
esquecemos. Ele não deixa é claro de chamar a nossa atenção para os perigos dos
mitos ou da crença nos milagres divinos, o que não agradou a muita gente e
continuará por certo a não agradar. Mas neste preciso momento, nesta época que
estamos atravessar, basta olharmos para os locais onde se travam as grandes
lutas e os mini-holocaustos para compreender onde residem os motivos para que
tal aconteça. Saramago, o homem, o escritor que nos deixou nas suas obras um
legado de pensamentos e de conhecimento, em grande parte conseguidos, quando trabalhando
como simples serralheiro mecânico, depois de abandonar a sua aldeia de Azinhaga
do Ribatejo e apenas tendo conseguindo frequentar o ensino secundário, passava
longas noites na biblioteca do Palácio Galveias, folheando livros e os mais
diversos catálogos que por lá encontrava. Saramago, o mestre que nunca o quis
ser, mas que o foi de facto para muitos de nós. Saramago continua mais do que
presente na actualidade, representado que está na tradução das suas obras em
muitas dezenas de países. Como já é meu hábito dizer – e não sou nada original:
1974 - O Ano que começou em - ABRIL
António Luís
Marinho
e Mário Carneiro
Mais um dos muitos
livros que assinalaram as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril havia que
colocar neste meu espaço onde já estão igualmente as capitãs de Abril. E mais
uma vez, pelas mesmas razões. Tal como no anterior existia uma
locutora/apresentadora, desempenhando funções idênticas às minhas, também nesta
obra que hoje aqui deixo, ela se identifica com a profissão que exerço. É da
responsabilidade de dois jornalistas, António Luís Marinho e Mário Carneiro,
baseando-se nos excertos retirados de dois prestigiados órgãos da comunicação
social:
Diário de Notícias
e a Revista Flama, por coincidência dois em que também eu próprio colaborava
regularmente, como jornalista que sou. Existe também portanto uma razão que me
levaria, se outras não existissem – e é claro que existem – para aqui trazer
outra das muitas obras que então se publicaram a respeito do 25 de Abril.
E de facto, como os
autores salientam no prefácio, “se o 25 de Abril não tivesse acontecido naquele
ano de 1974, este ficaria na História por outras e muitas variadas razões,
desde as muitas celebridades que nele nasceram entre os quatro mil milhões que
marcavam o também Ano Mundial da População, aos casos mediáticos da Índia se
ter tornado a sexta potência nuclear do Mundo ou de um senhor desconhecido ter
inventado aquele papelinho amarelo que se chama post it ou ainda de um outro
que ao passar com a mão na areia da praia inventou o chamado código de barras
que pela primeira vez foi experimentado e lido num pacote de pastilha elástica.
Mas para todos nós, portugueses, 1974 foi o ano em que Abril nasceu ou melhor,
como dizem os autores deste livro, “… o Ano que começou em Abril”. E a
expressão está mais que correcta porque Abril era desde há muitos anos desejado
e esperado pelo povo. Vivendo sob uma ditadura violenta que lhe retirava todos
os direitos, desde a saúde à educação, martirizando e torturando aqueles – e
foram muitos – que lutavam para derrotar esse regime, a grande maioria da
população portuguesa esperava que numa qualquer madrugada, esse Abril nascesse.
E essa grande alegria, que viria a devolver-nos a liberdade tão esperada,
aconteceu exactamente numa madrugada do ano de 1974.
Tudo aconteceu,
como se fosse de há muito minimamente preparado. A muitos terá parecido fácil.
Foi a revolução dos cravos. Uma revolução de flores, onde não foi necessário
que as armas disparassem. Um cravo no cano de uma espingarda tornou-se um
símbolo que haveria de fazer nascer sorrisos nos rostos por onde tinham passado
muitas angústias e corrido muitas lágrimas. Eu próprio sentira no seio da minha
família as garras da Pide que numa das muitas vezes em que o meu Pai fora
preso, esteve um mês encerrado na prisão da Torre do Bugio, com água até aos
joelhos. E também comigo, a aventura principiaria bem cedo, antes das
perseguições que a polícia política haveria de fazer a alguém cujo nome, não
totalmente fictício, não aparecia exactamente do mesmo modo nos registos do
Liceu ou da Faculdade. Mas isso é outra história que um dia talvez venha a
contar. Apenas com três anos de idade, uns polícias pidescos retiraram-me do
berço onde dormia, altas horas da noite, na nossa casa de Campo de Ourique,
pensando que nela iria decorrer uma reunião e que debaixo dos lençóis alguém
mais importante do que a criança que eu era estaria escondido. Mas voltemos a
este livro que vai ficar como documento completíssimo de todo esse período que
começa em Janeiro e termina em Dezembro de 1974, pleno de fotografias e notícias
dos referidos Jornal e Revista, evocando na devida altura a grande história do
nascimento de Abril, o antes e depois do grande dia 25, que todos nós não
esqueceremos nunca mais.
O modo como os dois
autores resolveram apresentar as imagens e excertos recolhidos dos ficheiros da
Biblioteca Nacional, juntando-lhes os devidos comentários e descrições ao longo
das cerca de 400 páginas que constituem este livro, permitem-nos de uma forma
extremamente eficaz mas ao mesmo tempo simples, reviver o antes e o depois
daquele período que foi considerado por muitos analistas internacionais um dos
mais extraordinários exemplos de como um país se consegue libertar do atroz sofrimento
a que esteve submetido durante largas décadas perante um poder absoluto onde
reinava um ditador que envelheceu numa cadeira, rodeado apenas de alguns poucos
amigos que alimentava com mordomias várias mas que a ele obedeciam cegamente,
seguindo as suas ordens desumanas e terríficas. Este livro é o retrato fiel de
como vivíamos nesses meses que antecederam o 25 de Abril, no auge de uma guerra
colonial que continuava a levar os nossos jovens para o além mar, em defesa de
territórios onde os grupos de libertação eram chamados de terroristas, enquanto
nesta pátria empobrecida imperava a exploração do trabalho infantil, se proibia
tudo o que pudesse relacionar-se com o sexo ou a igualdade de direitos da
mulher. Mas algo se preparava de facto e o livro de um general do regime causa
sensação e atordoa os membros do governo. “Portugal e o Futuro” escrito pelo
General Spínola era um desafio sério à política do governo. Mas para quem se
tenha esquecido, ele confessaria depois numa entrevista à Televisão Francesa
que não considerava que contivesse quaisquer divergências com a política
portuguesa. É bom que seja recordado, como fizeram muito bem os autores. E
depois, tínhamos também as célebres “Conversas em Família” nas quais Marcelo
Caetano tentava convencer-nos de que tudo estava a correr pelo melhor ou de que
a sua política estava ao lado do povo. Não era assim de facto. E o povo saiu à
rua, juntamente com o movimento dos militares de Abril, para o retirar e à sua
equipa do Quartel do Carmo onde se tinham refugiado. Relembra-se também nestas
páginas o que foram as comemorações do dia 1 de Maio na Alameda Afonso
Henriques, juntando mais de um milhão de pessoas, comparadas, segundo escrevia
o DN, às que marcaram a célebre libertação de Paris. “1974 – o Ano que começou
em Abril” fica de facto para a história como documento único que marca de forma
excepcional, através dos registos documentais, um ano memorável para o nosso
país.
O
GUARDADOR DE REBANHOS
Alberto Caeiro
Ainda há pouco tempo eu aqui escrevia sobre
Fernando Pessoa, quando do lançamento de uma criteriosa escolha feita pelo
editor de alguns dos trechos que o autor tinha atribuído ao seu semi-heterónimo
Bernardo Soares para o seu LIVRO DO DESASSOSSEGO. Escrevia sobre Fernando Pessoa, disse eu atrás, quando na
realidade não posso nem de longe arvorar-me à condição de analista desse grande
génio da nossa literatura. De facto, apenas alinhavei, como se pode ler mais
abaixo, noutra entrada deste espaço, algo do muito que sempre o admirei e do
que sempre me fez sentir ao longo da minha vida de leitor interessado e de amor
pelos livros. E eis que comemorando precisamente os 100 anos em que Pessoa , sob o
heterónimo de Alberto Caeiro, diz que escreveu num determinado dia 8 de Março
de 1914 os 49 poemas que constituem a obra O Guardador de Rebanhos, aparece
esta nova edição. E atrevo-me aqui apenas a citar um dos muitos estudiosos que
têm investigado a sua obra dizendo que, “analisado o seu espólio, nenhum poema
está datado desse dia, antes se situam entre 4 de Março e 7 de Maio de 914” . O dia 8 de Março teve um
grande significado para Fernando Pessoa por ser aquele em que recordava ter
“inventado” os heterónimos e daí nascera a sua escolha. Aliás são suas as
palavras numa carta a Adolfo Casais Monteiro: “Foi um dia triunfal da minha
vida e nunca poderei ter outro assim. (...) Com um título O Guardador de
Rebanhos (...) foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei logo o nome de Alberto
Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa
a sensação imediata que tive.” Sem pôr em causa ou querer analisar a fundo se
Caeiro foi ou não um mestre para Fernando Pessoa, o certo é que “O Guardador de
Rebanhos” nos apresenta alguém que se mostra pela primeira vez como um poeta
que, ao contrário do que conhecemos da sua restante poesia, se concentra numa
comunhão profunda com a Natureza. Uma espécie de simbiose. Ele que afirma no
poema de abertura “Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse”
comporta-se de facto como a alma de um pastor, aquele que sentado no cimo de um
monte observa tudo o que o rodeia, mas sem pensar, sem analisar, sem proferir
sequer os nomes das árvores ou das flores. Nesta sua obra, aprendemos com ele,
numa espécie de filosofia oriental, que o importante não é pensar no que se vê
mas sim e apenas ver. Nós, eu e provavelmente a maior parte dos leitores que
neste momento me acompanham, habituámo-nos a olhar para um pôr de sol e a
pensar de imediato como ele é diferente de outro, visto há dias, aquelas cores
são novas, está mais dourado do que um outro, as nuvens menos avermelhadas,
etc. Para Pessoa, neste seu conjunto de poemas, consegue-se uma completa abstracção
de tudo isso. Para ser sincero, eu próprio me parece difícil que Pessoa o tenha
alguma vez conseguido. (Afinal ele também escreveu: “O poeta é um fingidor,
finge tão completamente...”) Mas enfim, ele o diz. E com isso pretende
dizer-nos que desse modo - e só desse - podemos atingir aquele estado contemplativo,
numa calma absoluta, num verdadeiro êxtase perante a tal Natureza que ele
também confessa não existir como conjunto, que nada mesmo pode ser um conjunto
e que todas as coisas são apenas elas próprias e só assim as devemos abordar. Só assim teremos aquela paz de espírito que ele diz ter alcançado ao vestir-se
de Alberto Caeiro. E no entanto em alguns dos seus poemas que convidamos quem
nos lê a procurar neste livro, pareceu-nos – e não só a mim – que ele estaria
um pouco triste. Esta edição que agora aparece inclui um admirável Prefácio e
sobretudo um Posfácio da autoria de Pedro Sinde, Licenciado em filosofia, um
fervoroso analista destas questões literárias que muito ajudarão o leitor a
absorver o quanto significam estes 49 poemas e como talvez nos possam levar a
atingir o mundo pessoano. Pedro Sinde diz nomeadamente que “há versos (…) que
são um bálsamo para a alma” e que “a
poesia de Alberto Caeiro parece brotar de uma certa atitude de alma, a que
chama «pasmo essencial», e que resulta num modo especial de ver o mundo ou
naquilo a que poderíamos chamar uma arte de ver”. Por mim, que nada sei,
fico-me por aqui com o habitual convite:
CAPITÃS DE ABRIL
Ana Sofia Fonseca
As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril trouxeram à actualidade
literária um enorme conjunto de obras que focaram os mais diversos aspectos do
significado das conquistas de Abril nesse grande momento da nossa história
recente. Como era viver nos tempos da ditadura, a polícia política, a censura
na comunicação social, os livros proibidos, as inaugurações de fachada, a
guerra colonial, a luta académica, os exilados, tudo isto e muito mais a que
estávamos sujeitos antes dessa data memorável. Publicaram-se livros de
entrevistas, biografias e os mais variados ensaios políticos sobre o tema. Escolhemos
para este nosso espaço, onde não podíamos deixar de assinalar a efeméride, um
livro de uma jornalista que nos conta a revolução dos cravos no feminino. As
Capitãs de Abril revela-nos, pela primeira vez, quem foram, o que fizeram e
como viveram as mulheres dos militares que fizeram a revolução que derrubou a
maior ditadura da história europeia. De Ana Coucello, casada com o adjunto
operacional de Otelo Saraiva de Carvalho no Regimento de Engenharia 1 na
Pontinha, a Natércia Salgueiro Maia ou Teresa Alves, respectivamente viúvas do
grande Capitão de Abril Salgueiro Maia e do Major Vítor Alves, são descritos os
momentos decisivos dos dias que antecederam aquela célebre madrugada vividos
por 13 das mulheres que a jornalista conseguiu entrevistar para nos dar a
conhecer exemplos de muita coragem e abnegação que também eram vividos em
família numa certa clandestinidade. Ana Sofia Fonseca relata-nos com
extraordinária precisão como elas viviam, algumas nos locais onde se travava a
luta contra os chamados “turras” nas antigas colónias portuguesas, sempre
aguardando a chegada dos maridos que tinham partido de manhã para a frente
militar, espingarda na mão e umas tantas granadas à cintura. Será que
voltariam? Nos ouvidos o som das bombas a rebentar lá longe ou a passagem do
helicóptero que transportava feridos para o hospital próximo. Será que ele vai
ali? Outras em Lisboa, fingindo que nada se passava, escondendo o receio
daquilo que se preparava, visitando com eles locais chave que haveriam de dar
que falar. Enfim, nas horas antes daquela madrugada, as palavras dos futuros
heróis que, embora confiantes, não podiam deixar de transparecer o receio de
que “a coisa” corresse mal. ”Olha, é esta noite” diz o marido a Teresa Alves.
“É esta noite o quê” pergunta Teresa ao Vítor. E ouve de imediato a resposta:
“A revolução que temos andado a preparar”. “É hoje. Liga o rádio e se ouvires
aquela canção do Adeus já sabes que começou”. E lá ficavam presas, de olhos
fixos no pequeno transístor aguardando a canção que tinham ouvido dias antes no
Festival televisivo. Mas para Dina que sempre acompanhara o marido nas missões
no ultramar, Otelo foi ainda mais preciso: “Se ouvires o nosso comunicado é
porque tudo correu bem”. “- E o que é que acontece se correr mal”. Pergunta Dina,
escondendo o desassossego que a enche. “Eh pá, sei lá? Enfiam-me no Tarrafal e
é esta a última vez que aqui estamos a falar”. Todas estas situações nos são
contadas neste livro com grande precisão. Como se estivéssemos a presenciá-las
no foro íntimo das personagens da história memorável que foi o 25 de Abril.
Facto curioso que a autora resolveu e muito bem incluir é o de existirem
duas mulheres que sem serem casadas com militares de Abril desempenharam também
o papel de “Capitães” ao lado das restantes. É o caso de Celeste Caeiro,
empregada num self-service a colocar
flores nas mesas dos clientes. Naquela manhã, o gerente mandou-a para casa pois
o estabelecimento ia fechar devido a algo que se passava nas ruas. E que
levasse as flores com ela pois já não eram precisas. Celeste agarrou nelas e
foi de metro para a baixa. À saída, soldados por todo o lado. Aproxima-se de um
e pergunta: “O que é que estão aqui a fazer?”. “ – Uma revolução”. É a
resposta. “- Precisam de alguma coisa? Como é que posso ajudar?”. “Se tiver um
cigarrinho...um cigarro calhava bem.”. “- Bem gostava mas nunca fumei... Olhe,
tome lá um cravo que tanto se oferece a uma senhora com a um senhor.” O militar
agradece e põe o cravo no cano da G3. Celeste distribui o molho inteiro pelos
militares com que se cruza. Gosta da Ideia – confessa mais tarde – antes cravos que
balas. E o exemplo foi seguido por outras vendedeiras de flores nesse dia e nos
seguintes. Quem diria que foi graças à Celeste que apareceu o nome de
“Revolução dos Cravos”.
O outro caso, também de uma mulher não casada com um militar mas também
Capitã de Abril é o de Clarisse Guerra, nessa época locutora do Rádio Clube
Português e que, encontrando-se em casa quando às 4 da manhã é avisada por uma
colega de que ia haver um revolução, corre a ligar a telefonia e vai ouvindo os
comunicados lidos de quando em vez pelo seu colega Joaquim Furtado. “Aqui posto de comando do Movimento das
Forças Armadas...”. Corre para o telefone, avisa alguns amigos e sai de
casa com a filha, a caminho do Rádio Clube, ali a 10 minutos da casa onde mora,
em Campolide. Vai
para a mesa de locução, passa canções e músicas censuradas, mas são eles, as
vozes masculinas, o Joaquim e o Luís Filipe Costa que vão lendo os comunicados.
Então e eu? Pergunta. Até que finalmente, cerca das 2 e meia da tarde, Joaquim
Furtado olha para ela e pergunta-lhe se quer ler. Clarisse responde que sim
claro. O chefe dos noticiários confirma “até é bom uma mulher ler”. Clarisse
Guerra respira fundo, afasta os nervos, nunca antes lera noticiários. O
documento acabara de chegar da Pontinha. E ela vai ler as palavras dos heróis.
A única mulher a ler aos microfones de uma estação de rádio um comunicado do
Movimento das Forças Armadas. (A única, sabemo-lo bem, pois na E.N. onde eu era
colega dela, apenas às vozes masculinas foi dada essa oportunidade, eu, um deles).
Mais do que possamos acrescentar sobre este livro que ficará por certo para a
história do 25 de Abril poderá ser lido nas suas páginas e é isso que
recomendamos.
palavras do
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa
Edição Libório Manuel Silva
Editora Centro Atlântico
Perante o verdadeiro encantamento que me foi proporcionado ao voltar a ler numa recentíssima edição, seleccionada e apresentada por Libório Manuel Silva, alguns das muitas centenas de trechos, descobertos até agora, aos quais Fernando Pessoa – os poucos ainda publicados em vida em revistas da sua época – chamava "do Livro do Desassossego (em preparação)", não podia deixar por mais tempo a sua colocação neste meu espaço de Amor pelos Livros. E por isso aqui foram colocadas umas simples palavras de apresentação que alinhavei da melhor maneira possível para confessar que não me era fácil, nem rápido, escrever como habitualmente faço o que pensava sobre este novo Livro do Desassossego (creio que existem pelo menos 8 edições anteriores). Argumentando que me seria por exemplo mais fácil escrever sobre uma nova edição dos Lusíadas – o que de facto é verdade - confessava a minha grande admiração pelos trabalhos de Pessoa que sempre estiveram comigo (Obras Completas de Edições Ática) desde muito jovem, a tal ponto que interiorizava o excepcional desafio mental que ele nos proporciona. Acontecia mesmo que muito do que eu escrevia nesses tempos e até alguma poesia (ou não fossemos um país de poetas) que então publicava em alguns jornais tinham uma forte influência de Pessoa, o que poderia até considerar como algo elogioso mas não me agradava pois o sentia como falta de originalidade. Permito-me – espero que não me levem a mal – citar aqui uma dedicatória colocada no primeiro volume das Obras Completas de Fernando Pessoa, ed. Ática, pelo meu amigo F.A.J.: “Este teu pobre amigo, pela sua mediocridade de espírito, não pode compreender, tão profundamente quanto ela merece, a poesia de Fernando Pessoa. Talvez tu, como verdadeiro poeta que és, saibas reconhecer quão sublime ela é e me possas ajudar a compreendê-la melhor”. Enfim, para além do exagero do amigo, quanto às minhas virtudes de poeta, o ter notado que algo de mim pertencia a Pessoa. Eu poderia estar, creio agora, a rever-me nele, através dos seus heterónimos, o que não é de estranhar se pensarmos no extraordinário mundo das mais variadas sensações que a sua poesia nos transmite.
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa
Edição Libório Manuel Silva
Editora Centro Atlântico
Perante o verdadeiro encantamento que me foi proporcionado ao voltar a ler numa recentíssima edição, seleccionada e apresentada por Libório Manuel Silva, alguns das muitas centenas de trechos, descobertos até agora, aos quais Fernando Pessoa – os poucos ainda publicados em vida em revistas da sua época – chamava "do Livro do Desassossego (em preparação)", não podia deixar por mais tempo a sua colocação neste meu espaço de Amor pelos Livros. E por isso aqui foram colocadas umas simples palavras de apresentação que alinhavei da melhor maneira possível para confessar que não me era fácil, nem rápido, escrever como habitualmente faço o que pensava sobre este novo Livro do Desassossego (creio que existem pelo menos 8 edições anteriores). Argumentando que me seria por exemplo mais fácil escrever sobre uma nova edição dos Lusíadas – o que de facto é verdade - confessava a minha grande admiração pelos trabalhos de Pessoa que sempre estiveram comigo (Obras Completas de Edições Ática) desde muito jovem, a tal ponto que interiorizava o excepcional desafio mental que ele nos proporciona. Acontecia mesmo que muito do que eu escrevia nesses tempos e até alguma poesia (ou não fossemos um país de poetas) que então publicava em alguns jornais tinham uma forte influência de Pessoa, o que poderia até considerar como algo elogioso mas não me agradava pois o sentia como falta de originalidade. Permito-me – espero que não me levem a mal – citar aqui uma dedicatória colocada no primeiro volume das Obras Completas de Fernando Pessoa, ed. Ática, pelo meu amigo F.A.J.: “Este teu pobre amigo, pela sua mediocridade de espírito, não pode compreender, tão profundamente quanto ela merece, a poesia de Fernando Pessoa. Talvez tu, como verdadeiro poeta que és, saibas reconhecer quão sublime ela é e me possas ajudar a compreendê-la melhor”. Enfim, para além do exagero do amigo, quanto às minhas virtudes de poeta, o ter notado que algo de mim pertencia a Pessoa. Eu poderia estar, creio agora, a rever-me nele, através dos seus heterónimos, o que não é de estranhar se pensarmos no extraordinário mundo das mais variadas sensações que a sua poesia nos transmite.
Mas falemos então dos trechos do seu sempre inacabado Livro do
Desassossego. Apesar de ter a noção de que nada posso juntar ao que tem sido
escrito por ilustres nomes do nosso meio literário e cultural, apenas me limito
a referir a intensidade de emoções e algo dos pensamentos que atravessam a
minha mente, quando os leio. Nesta nova edição agora publicada, relembrei
alguns que já conhecia e encontrei outros mas percorri aquelas 110 páginas com
aquele estranho sentimento de quem constrói e destrói pedaços de vida, momentos
de sempre inacabada visão do mundo circundante e talvez até como é citada no brilhante
prefácio de Libório Silva, esta frase de Pessoa “… aquela prosa é um constante
devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade minha, é, não
diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e
a afectividade”. Para os que eventualmente desconheçam, os nomes de Bernardo
Soares ou Vicente Guedes com que Fernando Pessoa assinou alguns dos seus
famosos trechos que publicou ou guardava e ainda muitos se conservam na famosa
arca, repleta de inéditos que se espera um dia venham todos a ser conhecidos,
esses nomes não são heterónimos de Pessoa como é o caso de Alberto Caeiro ou
Ricardo Reis. São, como se lê na frase atrás citada semi-heterónimos. E, que
ousadia a minha, arrisco-me a dizer que sempre senti que os trechos do Livro do
Desassossego como muitos outros, ainda não publicados mas conhecidos, nos
transmitem muito mais do pensamento e da pluri-genialidade de Fernando Pessoa
do que o melhor da sua poesia, publicada em seu nome ou nos dos seus
heterónimos. Portanto a minha ousadia foi apenas dizer aqui que é “ali” que o
encontro, que estou com ele ou dentro dele, embora muitas vezes com dificuldade
em o compreender, até porque, como também ele confessa “o que vemos, não é o
que vemos, senão o que somos”. Portanto interrogo-me se, quando o leio, estarei
realmente a lê-lo ou a ler-me a mim próprio. Talvez. Mas não posso considerar
isso uma particularidade minha. Quando o lemos, acontece por vezes não
absorvermos totalmente o que está a escrever quem está a escrever. Tão depressa
é a nuvem como a sombra dela e ambas podem desaparecer como por encanto. Penso
que a leitura de Fernando Pessoa é para todos os que o admiram – e quase
resvalava no dizer “veneram” – a descoberta do
grande mistério daquele imaginário que em nós existe ou que supomos
existir dentro e fora de nós próprios. Estas “Palavras do Livro do
Desassossego” numa nova edição ilustrada terá com toda a certeza um sucesso
merecido e digno de ser assinalado. E por isso aqui está.
Podem ler neste nosso espaço alguns dos trechos que Fernando Pessoa escreveu
com o heterónimo Bernardo Soares para o "seu" sempre inacabado
"Livro do Desassossego" - e que eu próprio
escolhi - para que despertem o entusiasmo pela leitura da criteriosa selecção
feita por Libório Silva nesta obra agora editada e da qual nos autorizou a
publicar um dos trechos que ali vão encontrar devidamente assinalado.
Para a sua leitura clique aqui
Homenagem pelos 80 Anos.
Decidimos trazer aqui a nossa homenagem pelo 80º aniversário do Professor Fernando Catarino, Professor Catedrático Jubilado do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, celebrado no passado dia 9 de Novembro. Este atraso da minha intervenção neste espaço em relação ao dia do seu aniversário deve-se ao facto de ele ter recebido nesse dia uma homenagem num espaço da Internet que constituiu sem dúvida a maior homenagem desse género feita até hoje neste meio de comunicação. Tratou-se de um aniversário que fará história na Internet. Assinando uma mensagem celebrativa escrita por dois grandes jornalistas estende-se um grande Mar de abraços de parabéns onde participaram muitas centenas de amigos e admiradores (também lá estou, como é natural) em Portugal e no mundo inteiro e que continua a aumentar até ao próximo dia 30. Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, os dois jornalistas que construíram esta ideia original naquele que pode ser considerado um dos sites de maior interesse no panorama nacional, pelos conteúdos de natureza literária, científica e intelectual que nele estão patentes decidiram – e muito bem – que esta sua brilhante homenagem constituísse uma surpresa, que só fosse conhecida pelo homenageado a partir das 09:00 desse dia. Como facilmente se compreende, eu não poderia colocar-me na singeleza da minha intervenção em paralelo com a importância do que se passava no “Casal das Letras” para cujo link chamamos a vossa atenção.
É também a segunda vez que neste meu espaço Amor pelos Livros, insiro uma excepção de um texto meu que não se refere a um livro. Mas engana-se quem assim pensar. O Professor Fernando Catarino, com quem convivi na Faculdade de Ciências e no seu Jardim Botânico de que foi director, daí nascendo uma grande amizade com a qual tive a honra de por ele ser presenteado e que até hoje se mantêm, é ele próprio um verdadeiro livro. Tal como aconteceu a muitos dos seus alunos, eu, que o não fui porque o meu curso tinha sido escolhido erradamente como mais tarde viria a verificar, aprendi conhecimentos de um volume tal que nunca encontraria ao ler vários compêndios de Botânica e mesmo de outras áreas. Seriam necessárias muitos milhares de páginas para descrever tudo o que me transmitiu. E ainda tenho esperança de que um destes dias alguém se disponha a reunir em livro os muitos milhares de textos que publicou, as muitas conferências que fez, as muitas intervenções em colóquios e acontecimentos relacionados naturalmente com a Biologia Vegetal, mas não só.
Já seria mais difícil transcrever todos os ensinamentos que nos transmitia durante os passeios com os seus alunos ou admiradores à Serra da Arrábida, percorrendo aqueles lugares ainda virgens da intervenção humana. E se recordarmos uma das suas frases emblemáticas afirmando que “A coisa que eu tenho mais interessante, como pessoa, é, desde que me lembro, ter sido marcado por uma enorme curiosidade pelo saber, um enorme gozo em perceber as coisas” teremos de admitir que tudo isso ele conseguiu transmitir-nos. À medida que ia sendo satisfeita a sua curiosidade pelo saber e que ia avançando no “perceber das coisas”, tudo isso nos transmitiu e em muitos certamente fez nascer o mesmo desejo de conhecer mais e mais. Pessoalmente, muito do que eu sei, se é que sei alguma coisa, a ele lhe devo. Um passeio na Arrábida ou em outro Parque Natural, uma simples paragem para observar uns estranhos vestígios deixados num muro do Palácio de Sintra por um certo grupo de líquenes, foram para mim um manancial de conhecimentos que a ele lhe devo. Também lhe devo as palavras elogiosas com que me presenteou no Prólogo do meu livro A Nave Maravilhosa, que até hoje considero o livro da minha Vida, publicado pelo Circulo de Leitores tendo igualmente feito a apresentação dessa mesma obra na ocasião do seu lançamento. Com uma energia sem limites e o encanto das suas palavras esclarecedoras, continua ainda hoje a partilhar os seus conhecimentos em muitos encontros regulares organizados por núcleos de pessoas interessadas em aprender e conhecer os incontáveis segredos desta Natureza onde estamos inseridos e que alguns, como ele, sempre lutaram por conservar.
Parabéns Querido Amigo e obrigado Querido Professor Fernando Catarino por tudo o que nos ensinou e soube partilhar connosco.
Para conhecer a grande homenagem que foi feita no dia 9, como dissémos pelo “Casal das Letras”, carregue neste link
Decidimos trazer aqui a nossa homenagem pelo 80º aniversário do Professor Fernando Catarino, Professor Catedrático Jubilado do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, celebrado no passado dia 9 de Novembro. Este atraso da minha intervenção neste espaço em relação ao dia do seu aniversário deve-se ao facto de ele ter recebido nesse dia uma homenagem num espaço da Internet que constituiu sem dúvida a maior homenagem desse género feita até hoje neste meio de comunicação. Tratou-se de um aniversário que fará história na Internet. Assinando uma mensagem celebrativa escrita por dois grandes jornalistas estende-se um grande Mar de abraços de parabéns onde participaram muitas centenas de amigos e admiradores (também lá estou, como é natural) em Portugal e no mundo inteiro e que continua a aumentar até ao próximo dia 30. Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, os dois jornalistas que construíram esta ideia original naquele que pode ser considerado um dos sites de maior interesse no panorama nacional, pelos conteúdos de natureza literária, científica e intelectual que nele estão patentes decidiram – e muito bem – que esta sua brilhante homenagem constituísse uma surpresa, que só fosse conhecida pelo homenageado a partir das 09:00 desse dia. Como facilmente se compreende, eu não poderia colocar-me na singeleza da minha intervenção em paralelo com a importância do que se passava no “Casal das Letras” para cujo link chamamos a vossa atenção.
É também a segunda vez que neste meu espaço Amor pelos Livros, insiro uma excepção de um texto meu que não se refere a um livro. Mas engana-se quem assim pensar. O Professor Fernando Catarino, com quem convivi na Faculdade de Ciências e no seu Jardim Botânico de que foi director, daí nascendo uma grande amizade com a qual tive a honra de por ele ser presenteado e que até hoje se mantêm, é ele próprio um verdadeiro livro. Tal como aconteceu a muitos dos seus alunos, eu, que o não fui porque o meu curso tinha sido escolhido erradamente como mais tarde viria a verificar, aprendi conhecimentos de um volume tal que nunca encontraria ao ler vários compêndios de Botânica e mesmo de outras áreas. Seriam necessárias muitos milhares de páginas para descrever tudo o que me transmitiu. E ainda tenho esperança de que um destes dias alguém se disponha a reunir em livro os muitos milhares de textos que publicou, as muitas conferências que fez, as muitas intervenções em colóquios e acontecimentos relacionados naturalmente com a Biologia Vegetal, mas não só.
Já seria mais difícil transcrever todos os ensinamentos que nos transmitia durante os passeios com os seus alunos ou admiradores à Serra da Arrábida, percorrendo aqueles lugares ainda virgens da intervenção humana. E se recordarmos uma das suas frases emblemáticas afirmando que “A coisa que eu tenho mais interessante, como pessoa, é, desde que me lembro, ter sido marcado por uma enorme curiosidade pelo saber, um enorme gozo em perceber as coisas” teremos de admitir que tudo isso ele conseguiu transmitir-nos. À medida que ia sendo satisfeita a sua curiosidade pelo saber e que ia avançando no “perceber das coisas”, tudo isso nos transmitiu e em muitos certamente fez nascer o mesmo desejo de conhecer mais e mais. Pessoalmente, muito do que eu sei, se é que sei alguma coisa, a ele lhe devo. Um passeio na Arrábida ou em outro Parque Natural, uma simples paragem para observar uns estranhos vestígios deixados num muro do Palácio de Sintra por um certo grupo de líquenes, foram para mim um manancial de conhecimentos que a ele lhe devo. Também lhe devo as palavras elogiosas com que me presenteou no Prólogo do meu livro A Nave Maravilhosa, que até hoje considero o livro da minha Vida, publicado pelo Circulo de Leitores tendo igualmente feito a apresentação dessa mesma obra na ocasião do seu lançamento. Com uma energia sem limites e o encanto das suas palavras esclarecedoras, continua ainda hoje a partilhar os seus conhecimentos em muitos encontros regulares organizados por núcleos de pessoas interessadas em aprender e conhecer os incontáveis segredos desta Natureza onde estamos inseridos e que alguns, como ele, sempre lutaram por conservar.
Parabéns Querido Amigo e obrigado Querido Professor Fernando Catarino por tudo o que nos ensinou e soube partilhar connosco.
Para conhecer a grande homenagem que foi feita no dia 9, como dissémos pelo “Casal das Letras”, carregue neste link
UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS
A Ciência como uma Luz na Escuridão
Carl Sagan
Ed. Gradiva
Para que ninguém se assuste, o subtítulo é colocado também na capa (tal como aconteceu na edição original). Carl Sagan, o professor, cientista e investigador que certamente todos recordam, pelo menos pelo seu livro Cosmos, (que se seguiu à série de televisão homónima, vencedora de um Emmy e de um Prémio Peabody) considerado o livro de divulgação científica em língua inglesa mais vendido de sempre, vem precisamente nesta sua obra denunciar a ideia de que o mundo esteja infestado de demónios. Prémio Literário Los Angeles Times para Ciência e Tecnologia, ele desmonta toda uma série de mitos que ao longo dos tempos e mesmo no presente têm servido, por vezes com as mais malévolas intenções, destinadas a dominar as mentes mais desprotegidas do conhecimento. E é precisamente a ciência que tem sido essencial para resolver as possíveis dúvidas. Num exemplo muito simples que ele cita numa das páginas, a rotação do girassol de acordo com a posição do astro-rei foi considerada noutros tempos um milagre natural. Até que a ciência descobriu que o movimento da flor do girassol é devido a um tropismo, isto é, deve-se a um movimento que é executado através de acção hormonal que acontece na própria planta e orientado em relação a um estímulo externo, neste caso a luz solar, chamado fototropismo. Carl Sagan percorre nas páginas do seu livro os diversos períodos da nossa história e vai descrevendo os vários demónios que foram criados, ou melhor, inventados pelos homens. No mundo antigo, a crença nos demónios era generalizada. Ele relembra a própria crença existente em grandes figuras como Sócrates ou o seu discípulo Platão que consideravam que a sua criatividade tinha origens demoníacas. E até Aristóteles aceitava que os sonhos tinham origem em demónios. Que dizer então da gente simples dos povos dessas épocas? As figuras demoníacas estavam presentes para onde quer que se voltassem. E os demónios e os mitos foram ficando. Mesmo à medida que o tempo passava e alguns desapareciam, logo outros tomavam o seu lugar. O autor vai citando com enorme precisão os mais variados documentos histórico-culturais em que baseou o seu estudo. E assim vamos percorrendo o caminho da criatividade demoníaca. É espantoso como crenças ou religiões de todos os géneros sentiram necessidade de criar entidades, pretensamente maléficas, para justificar o que não era ainda compreensível ou não tinha sido descoberto. E não foram poucos os que chegaram a espalhar como credível aquilo em que eles próprios não acreditavam. Razões muito obscuras para eventualmente exercerem domínio sobre os seus seguidores. Tudo isso é analisado com muito pormenor e com a referência às obras consultadas pelo autor ou à sua experiência pessoal. E desse modo conclui que não é de admirar que a ideia tenha prevalecido e até ainda subsista hoje em algumas das pretensões da chamada pseudociência. Carl Sagan aborda com muita profundidade o caso dos discos voadores, óvnis e extraterrestres que falsos cientistas chegaram a defender. Lembra-nos as estranhas visões presenciadas por muita gente nos mais diversos locais do mundo, mas sobretudo na América, que constituem um prolongamento da ideia da existência de demónios pois se alguns, como o célebre “ET”, não tinham más intenções, outros teriam vindo anunciar catástrofes mundiais e até mesmo o fim do mundo. Por mais estranho que nos possa parecer, a tendência para a irracionalidade criativa persiste. E apenas a verdadeira ciência a poderá combater. É a tal Luz na Escuridão. Por isso o autor aproveita também para falar no modo como hoje em dia se processa o ensino e se preparam as mentes dos jovens. Muito do que se passa nos tablóides ou é difundido por noticiários sensacionalistas pode ter, esse sim, um efeito maléfico para o aparecimento de futuras superstições. Mas o oportunismo político continua a deixar que esse aparatoso divertimento tenha lugar. Em nome da paz defende-se o nuclear. E este é um demónio da era moderna. Enfim, da invenção de Satanás aos testemunhos visionários do monstro de LochNess ou à defesa do nuclear, o caminho é necessariamente longo. Não nos é possível aqui descrever a variedade enorme e surpreendente dos casos citados. Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford e grande escritor de divulgação científica britânico, escreveu que “recorrendo a um manancial de referências históricas e culturais, assim como à sua vivência pessoal, Sagan demonstra com enorme clareza e rigor que a tentação da irracionalidade é não apenas um erro cultural crasso como um salto perigoso para a escuridão, que põe em risco as nossas liberdades mais básicas”. E como Sagan não deixa de referir com grande insistência a actualidade das tecnologias que endeusam actividades como o nuclear, Dawkins interroga-se se não “estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição”. E até confessa que gostaria de ter sido ele a escrever este livro. Como não foi, diz que o mínimo que pode fazer é aconselhá-lo aos seus amigos. O mesmo convite dirigimos nós aos que nos estão a ler neste espaço.
Para ler um excerto desta obra clique aqui.
A Ciência como uma Luz na Escuridão
Carl Sagan
Ed. Gradiva
Para que ninguém se assuste, o subtítulo é colocado também na capa (tal como aconteceu na edição original). Carl Sagan, o professor, cientista e investigador que certamente todos recordam, pelo menos pelo seu livro Cosmos, (que se seguiu à série de televisão homónima, vencedora de um Emmy e de um Prémio Peabody) considerado o livro de divulgação científica em língua inglesa mais vendido de sempre, vem precisamente nesta sua obra denunciar a ideia de que o mundo esteja infestado de demónios. Prémio Literário Los Angeles Times para Ciência e Tecnologia, ele desmonta toda uma série de mitos que ao longo dos tempos e mesmo no presente têm servido, por vezes com as mais malévolas intenções, destinadas a dominar as mentes mais desprotegidas do conhecimento. E é precisamente a ciência que tem sido essencial para resolver as possíveis dúvidas. Num exemplo muito simples que ele cita numa das páginas, a rotação do girassol de acordo com a posição do astro-rei foi considerada noutros tempos um milagre natural. Até que a ciência descobriu que o movimento da flor do girassol é devido a um tropismo, isto é, deve-se a um movimento que é executado através de acção hormonal que acontece na própria planta e orientado em relação a um estímulo externo, neste caso a luz solar, chamado fototropismo. Carl Sagan percorre nas páginas do seu livro os diversos períodos da nossa história e vai descrevendo os vários demónios que foram criados, ou melhor, inventados pelos homens. No mundo antigo, a crença nos demónios era generalizada. Ele relembra a própria crença existente em grandes figuras como Sócrates ou o seu discípulo Platão que consideravam que a sua criatividade tinha origens demoníacas. E até Aristóteles aceitava que os sonhos tinham origem em demónios. Que dizer então da gente simples dos povos dessas épocas? As figuras demoníacas estavam presentes para onde quer que se voltassem. E os demónios e os mitos foram ficando. Mesmo à medida que o tempo passava e alguns desapareciam, logo outros tomavam o seu lugar. O autor vai citando com enorme precisão os mais variados documentos histórico-culturais em que baseou o seu estudo. E assim vamos percorrendo o caminho da criatividade demoníaca. É espantoso como crenças ou religiões de todos os géneros sentiram necessidade de criar entidades, pretensamente maléficas, para justificar o que não era ainda compreensível ou não tinha sido descoberto. E não foram poucos os que chegaram a espalhar como credível aquilo em que eles próprios não acreditavam. Razões muito obscuras para eventualmente exercerem domínio sobre os seus seguidores. Tudo isso é analisado com muito pormenor e com a referência às obras consultadas pelo autor ou à sua experiência pessoal. E desse modo conclui que não é de admirar que a ideia tenha prevalecido e até ainda subsista hoje em algumas das pretensões da chamada pseudociência. Carl Sagan aborda com muita profundidade o caso dos discos voadores, óvnis e extraterrestres que falsos cientistas chegaram a defender. Lembra-nos as estranhas visões presenciadas por muita gente nos mais diversos locais do mundo, mas sobretudo na América, que constituem um prolongamento da ideia da existência de demónios pois se alguns, como o célebre “ET”, não tinham más intenções, outros teriam vindo anunciar catástrofes mundiais e até mesmo o fim do mundo. Por mais estranho que nos possa parecer, a tendência para a irracionalidade criativa persiste. E apenas a verdadeira ciência a poderá combater. É a tal Luz na Escuridão. Por isso o autor aproveita também para falar no modo como hoje em dia se processa o ensino e se preparam as mentes dos jovens. Muito do que se passa nos tablóides ou é difundido por noticiários sensacionalistas pode ter, esse sim, um efeito maléfico para o aparecimento de futuras superstições. Mas o oportunismo político continua a deixar que esse aparatoso divertimento tenha lugar. Em nome da paz defende-se o nuclear. E este é um demónio da era moderna. Enfim, da invenção de Satanás aos testemunhos visionários do monstro de LochNess ou à defesa do nuclear, o caminho é necessariamente longo. Não nos é possível aqui descrever a variedade enorme e surpreendente dos casos citados. Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford e grande escritor de divulgação científica britânico, escreveu que “recorrendo a um manancial de referências históricas e culturais, assim como à sua vivência pessoal, Sagan demonstra com enorme clareza e rigor que a tentação da irracionalidade é não apenas um erro cultural crasso como um salto perigoso para a escuridão, que põe em risco as nossas liberdades mais básicas”. E como Sagan não deixa de referir com grande insistência a actualidade das tecnologias que endeusam actividades como o nuclear, Dawkins interroga-se se não “estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição”. E até confessa que gostaria de ter sido ele a escrever este livro. Como não foi, diz que o mínimo que pode fazer é aconselhá-lo aos seus amigos. O mesmo convite dirigimos nós aos que nos estão a ler neste espaço.
Para ler um excerto desta obra clique aqui.
O SEGUNDO FÔLEGO
Philippe Pozzo di Borgo
Editorial Presença
Em breve será colocada a minha apreciação.
Eis a sinopse:
Philippe Pozzo di Borgo é um aristocrata francês, director da conceituada casa de champanhes Pommery, que aos quarenta e dois anos vê o seu futuro comprometido quando um acidente de parapente o deixa tetraplégico. Deste acontecimento trágico decorre o encontro improvável entre Philippe e Abdel, um jovem rebelde dos subúrbios de Paris que é contratado como auxiliar para cuidar de Philippe. E do encontro entre estes dois homens, corn origens e percursos tão distintos, vem a nascer uma amizade espontânea e libertadora, alicerçada na solidariedade que naturalmente se estabelece entre dois seres ostracizados pela sociedade. 0 Segundo Fôlego, a autobiografia de Philippe, é o relato humanista e bem-humorado dos anos de convivência entre ambos e da forma como cada um enriqueceu e salvou a vida do outro. Inspirados por esta história veridica, Olivier Nakache e Eric Toledano realizaram um filme, intitulado Amigos Improváveis, que conta com Francois Cluzet e Omar Sy nos principals papéis.
Philippe Pozzo di Borgo
Editorial Presença
Em breve será colocada a minha apreciação.
Eis a sinopse:
Philippe Pozzo di Borgo é um aristocrata francês, director da conceituada casa de champanhes Pommery, que aos quarenta e dois anos vê o seu futuro comprometido quando um acidente de parapente o deixa tetraplégico. Deste acontecimento trágico decorre o encontro improvável entre Philippe e Abdel, um jovem rebelde dos subúrbios de Paris que é contratado como auxiliar para cuidar de Philippe. E do encontro entre estes dois homens, corn origens e percursos tão distintos, vem a nascer uma amizade espontânea e libertadora, alicerçada na solidariedade que naturalmente se estabelece entre dois seres ostracizados pela sociedade. 0 Segundo Fôlego, a autobiografia de Philippe, é o relato humanista e bem-humorado dos anos de convivência entre ambos e da forma como cada um enriqueceu e salvou a vida do outro. Inspirados por esta história veridica, Olivier Nakache e Eric Toledano realizaram um filme, intitulado Amigos Improváveis, que conta com Francois Cluzet e Omar Sy nos principals papéis.
A Medicina e a Música
Armando Moreno
Ed. Medilivro
Mais um livro do Professor Armando Moreno que temos o enorme prazer de saudar. O título que o autor dá a esta sua obra relaciona mais uma vez a Medicina, que ele naturalmente domina como médico de excelência que sempre foi, com algo de importante na história da humanidade. De facto, desde os tempos mais primitivos que a Música tem sido uma das Artes a que o homem se dedicou e tem sido ao longo dos séculos uma forma de expressar os seus sentimentos e reproduzi-los em sons, com maior ou menor harmonia mas sempre apreciados, mesmo que diversamente, por quem os ouve. Na sequência do processo utilizado no seu anterior livro “A Medicina e as Mitologias”, presente também neste espaço e que reuniu um merecido êxito da parte do público leitor, Armando Moreno apresenta A Medicina e a Música efectuando, como ele próprio escreve, uma viagem ao admirável mundo dos sons naquilo a que pode chamar-se um casamento entre essas duas actividades, a médica e a musical. Provado que está e observando que os médicos procuram entregar as suas horas de lazer à criatividade artística, eles chamam a si o protagonismo na literatura e nas artes plásticas enquanto que na Música eles são o epicentro atractivo para motivos médicos. De facto, nomeadamente durante o romantismo, a doença está presente em muitas das Óperas mais apreciadas. O médico Armando Moreno que frequentou um curso no Conservatório de Música do Porto, está portanto, mais do que qualquer outro analista, habilitado para o estudo das relações entre a Medicina e a Música. Mas se pode julgar-se que essa faceta seria apenas o relato de ocorrências várias ao longo da História comum, o autor vai muito mais além. Ele analisa de forma ao mesmo tempo crítica mas construtiva o diálogo possível entre essas duas actividades. E ficamos maravilhados mais uma vez, tal como já acontecera com a Medicina e as Mitologias, com aquilo que nos desvenda sobre as ligações e as razões que podem ter originado o nascimento de muitas das obras musicais, quer relacionadas com o próprio tempo ou época em foram apresentadas quer do próprio entusiasmo ou não como foram recebidas da parte do público de então. Não esquecer também a importância didática desta obra, na qual deparamos para além de uma verdadeira história da Música e sua evolução, não só a erudita como a popular, a Música de capa e batina, a Música de filmes e, entre outras secções, como não podia deixar de ser, a Musicoterapia. Todos estes temas são intensamente documentados de uma forma que só um autor que não desdenha um trabalho exaustivo na procura dos elementos mais completos para nos oferecer conclusões credíveis e sérias, como acontece com este reconhecido professor universitário, apreciado pelos seus pares e pelos seus alunos, nos poderia dar. São abordadas biografias, nomeadamente de compositores e instrumentistas que foram vítimas de doenças várias e não basta lembrar a surdez de Beethoven que – e isto dizemos nós - apesar de não lhe ter sido possível ouvir a execução de algumas das suas últimas obras diria momentos antes de morrer: “A vida é bela. Desejaria vivê-la mil vezes”. Armando Moreno conduz-nos pela via do conhecimento profundo que tem destas duas actividades, a medicina e a música. E isso é um privilégio que desejou não guardar para si. Expõe-nos as suas análises com a clareza que sempre caracterizou os seus estudos de divulgação a que não serão estranhos os prémios recebidos por trabalhos de investigação onde usou certamente do poder convincente das conclusões a que chegara. O autor não necessita portanto dos elogios que lhe poderia fazer quanto às suas variadas actividades no domínio da divulgação e da docência. O seu nome é um exemplo na história da Medicina em Portugal, juntando entre as suas obras mais elogiadas “O Mundo Fascinante da Medicina” (12 volumes) e “Médicos Escritores Portugueses” (3 volumes). Que mais poderíamos dizer, se é que tal fosse necessário, para aconselhar a leitura desta obra que agora figura entre as mais destacadas da actual criatividade literária.
Para ler excertos desta obra clique aqui
Armando Moreno
Ed. Medilivro
Mais um livro do Professor Armando Moreno que temos o enorme prazer de saudar. O título que o autor dá a esta sua obra relaciona mais uma vez a Medicina, que ele naturalmente domina como médico de excelência que sempre foi, com algo de importante na história da humanidade. De facto, desde os tempos mais primitivos que a Música tem sido uma das Artes a que o homem se dedicou e tem sido ao longo dos séculos uma forma de expressar os seus sentimentos e reproduzi-los em sons, com maior ou menor harmonia mas sempre apreciados, mesmo que diversamente, por quem os ouve. Na sequência do processo utilizado no seu anterior livro “A Medicina e as Mitologias”, presente também neste espaço e que reuniu um merecido êxito da parte do público leitor, Armando Moreno apresenta A Medicina e a Música efectuando, como ele próprio escreve, uma viagem ao admirável mundo dos sons naquilo a que pode chamar-se um casamento entre essas duas actividades, a médica e a musical. Provado que está e observando que os médicos procuram entregar as suas horas de lazer à criatividade artística, eles chamam a si o protagonismo na literatura e nas artes plásticas enquanto que na Música eles são o epicentro atractivo para motivos médicos. De facto, nomeadamente durante o romantismo, a doença está presente em muitas das Óperas mais apreciadas. O médico Armando Moreno que frequentou um curso no Conservatório de Música do Porto, está portanto, mais do que qualquer outro analista, habilitado para o estudo das relações entre a Medicina e a Música. Mas se pode julgar-se que essa faceta seria apenas o relato de ocorrências várias ao longo da História comum, o autor vai muito mais além. Ele analisa de forma ao mesmo tempo crítica mas construtiva o diálogo possível entre essas duas actividades. E ficamos maravilhados mais uma vez, tal como já acontecera com a Medicina e as Mitologias, com aquilo que nos desvenda sobre as ligações e as razões que podem ter originado o nascimento de muitas das obras musicais, quer relacionadas com o próprio tempo ou época em foram apresentadas quer do próprio entusiasmo ou não como foram recebidas da parte do público de então. Não esquecer também a importância didática desta obra, na qual deparamos para além de uma verdadeira história da Música e sua evolução, não só a erudita como a popular, a Música de capa e batina, a Música de filmes e, entre outras secções, como não podia deixar de ser, a Musicoterapia. Todos estes temas são intensamente documentados de uma forma que só um autor que não desdenha um trabalho exaustivo na procura dos elementos mais completos para nos oferecer conclusões credíveis e sérias, como acontece com este reconhecido professor universitário, apreciado pelos seus pares e pelos seus alunos, nos poderia dar. São abordadas biografias, nomeadamente de compositores e instrumentistas que foram vítimas de doenças várias e não basta lembrar a surdez de Beethoven que – e isto dizemos nós - apesar de não lhe ter sido possível ouvir a execução de algumas das suas últimas obras diria momentos antes de morrer: “A vida é bela. Desejaria vivê-la mil vezes”. Armando Moreno conduz-nos pela via do conhecimento profundo que tem destas duas actividades, a medicina e a música. E isso é um privilégio que desejou não guardar para si. Expõe-nos as suas análises com a clareza que sempre caracterizou os seus estudos de divulgação a que não serão estranhos os prémios recebidos por trabalhos de investigação onde usou certamente do poder convincente das conclusões a que chegara. O autor não necessita portanto dos elogios que lhe poderia fazer quanto às suas variadas actividades no domínio da divulgação e da docência. O seu nome é um exemplo na história da Medicina em Portugal, juntando entre as suas obras mais elogiadas “O Mundo Fascinante da Medicina” (12 volumes) e “Médicos Escritores Portugueses” (3 volumes). Que mais poderíamos dizer, se é que tal fosse necessário, para aconselhar a leitura desta obra que agora figura entre as mais destacadas da actual criatividade literária.
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QUANDO OS MACACOS SE APAIXONAM
George Stilwell
Esfera dos Livros
Seria quase impossível que este livro não chamasse a minha atenção e não viesse muito merecidamente figurar nesta galeria a que resolvi, com toda a verdade, intitular Amor pelos Livros. De facto, este tema tem sido por mim tratado e defendido por várias vezes em vários dos artigos que tenho publicado. E o título tem sempre assinalado a ideia que igualmente defendo de que “Eles também amam”. Não tendo exactamente a formação universitária de George Stilwell, mas tendo percorrido os caminhos das Ciências Biológicas, dediquei-me na profissão de Jornalista à área da Natureza e dos seres que nela habitam. Claro que não consegui observar todos aqueles que este autor descreve com o rigor científico a que se dedicou mas também tive oportunidade de perder muitas horas, dias e meses, observando o comportamento de certas aves ou pequenos mamíferos, peixes, répteis, batráquios e também muitas espécies de invertebrados, sobretudo insectos e não só. E o certo é que de facto também concluí na maior parte das observações que eles também amam. Decerto que à sua maneira, mas não deixam de demonstrar atitudes de verdadeira afeição quer pelos parceiros ou parceiras como pelos filhos. Relembro antes de falar deste livro, como é minha obrigação, o caso de uma cegonha que num incêndio em Delft, morreu no telhado incendiado, preferindo ficar no ninho a abandonar os filhos, incapazes de voar. Haverá maior demonstração de afecto do que o sacrifício, em face de um perigo de morte eminente, em não abandonar os próprios filhos, em vez de fugir para um lugar seguro? Vejamos então o que nos conta George Stilwell neste seu livro sobre a vida afectiva dos animais e tal como aparece em subtítulo, das pequenas formigas aos gigantes elefantes. E todas as histórias que nos conta são de facto verídicas, tendo eu próprio como disse atrás, a oportunidade de as presenciar e fotografar. Escrito com um forte poder descritivo, o livro está dividido em capítulos para mais facilmente podermos ter conhecimento das várias etapas ou modos de compreender os diferentes tipos de afectos demonstrados entre uma enorme variedade de animais. Desde aquilo a que o autor chama muito correctamente a Odisseia de escolher um parceiro às muitas amizades improváveis, passando pelas formas de gestação à espera do grande dia, os pais ou mães solteiras, mesmo os pais adoptivos e as tias que se ocupam dos cuidados da prole do grupo, a escola, o comportamento em grupo ou em sociedades, a defesa da família, há uma multidão de “estranhas formas de amor”. E mesmo que por vezes se possa estranhar um comportamento de certo modo agressivo contra a própria espécie, ele existe para garantir que a descendência não seja afectada na evolução do que se considera mais forte perante a adversidade. Tudo isso nos é explicado com as mais subtis observações do autor, baseadas naturalmente nos conhecimentos adquiridos pela sua formação em veterinária ao lado da de professor universitário que actualmente exerce. Mesmo que eu me alheasse do meu confessado entusiasmo pelo tema, considero esta obra muito importante para um melhor conhecimento da vida animal e da defesa dos restantes seres vivos que connosco devem habitar este planeta, o único que, ao que julgamos de momento, é o único em que podemos sobreviver e que devemos preservar para as gerações vindouras com tudo aquilo que nele herdámos ao longo da nossa evolução de milhares de anos. Recomenda-se portanto a leitura e duplamente tem o seu lugar reservado desde já no meu Amor pelos Livros.
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A Terra, Património da Humanidade
A.M.Galopim de Carvalho
Âncora Editora
Naturalmente que existem autores portugueses que deveriam estar aqui presentes neste espaço que criei mas tem faltado o tempo para o fazer e assim tenho privilegiado sobretudo os escritores que vão publicando obras mais recentes juntamente com as novas edições que vão aparecendo de alguns clássicos mundiais. Uma ou outra excepção a esta regra aparece de vez em quando. E eis que o lançamento recente de uma obra de Galopim de Carvalho que não se integra neste espaço que criei sem distinção de temas ou de ideias. Mas há muito que o nome de Galopim de Carvalho deveria ter aqui o seu lugar. Para além de uma das mais notáveis figuras da nossa comunidade científica actual, Doutorado em Geologia e professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi director do Museu Nacional de História Natural e impulsionador de numerosas acções de divulgação e conservação do nosso património natural. Todos o conhecem como o defensor dos vestígios da existência dos dinossáurios em Portugal e acérrimo lutador pela conservação desses vestígios. E, sendo verdade, é ainda muito mais do que isso. É um acérrimo defensor deste planeta e nomeadamente de tudo o que diz respeito a este recanto que é o nosso pequeno país mas enorme porque cheio de riquezas naturais incalculáveis. E a prova imediata é por exemplo este livro que escolhi entre as suas várias obras publicadas. “A Terra, Património da Humanidade” demonstra bem o quanto devemos amar este planeta. E é com os seus vastos conhecimentos que nos descreve o que nele existe de grandioso, como se foi formando ao longo da sua evolução, viajando no espaço “Como Bola Colorida”, evocando nesta frase o poeta António Gedeão, o Professor Rómulo de Carvalho, a quem o livro é dedicado. Ambos que somos admiradores do nosso grande professor, também Galopim de Carvalho demonstra nesta obra o seu poder de comunicação, divulgando aos leitores numa linguagem simples e acessível tudo, ou quase tudo, o que a ciência conseguiu até agora descobrir e explicar sobre os grandes momentos da história da Terra. É como se estivéssemos a assistir ao aparecimento de um primeiro corpo celeste, inerte, sem vida, no qual – e isso nos vai explicando – se foram dando sucessivas modificações, desde o seu núcleo à crosta externa, interacção com outros corpos provenientes do espaço exterior, formação de massas continentais e sua fragmentação, tudo aquilo que iria preparar a chegada de células muito simples que iriam mais tarde dar origem aquilo a que chamamos organismos vivos. Daí para frente, já o caminho é mais conhecido, quando a certa altura aconteceu a existência de água, e depois, a formação dessas pequenas células, seguindo-se a atmosfera que iria permitir que aparecessem seres mais complexos que se foram formando e diversificando. E depois a Terra, sempre a Terra, permitiu também que eles por ela se espalhassem e se desenvolvessem ainda mais. Portanto é todo o início desse complexo sistema, aquilo a que vamos assistir nesta obra de Galopim de Carvalho, repleta de explicações que de outra forma poderiam parecer confusas mas que com a sua incansável maestria vamos assimilando com todo o gosto, quase sem darmos por isso, como se de um simples conto se tratasse. E é essa a ciência deste insigne Professor de Geologia. É isso que tem feito em todas as suas inúmeras conferências e em todos os projectos de divulgação a que se tem dedicado, alguns deles a que assistimos pessoalmente. Ele conhece e ensina a conhecer. Para além da transmissão do saber, abre-nos um mundo de perspectivas ainda maiores, no Dicionário de Geologia, a obra mais recentemente publicada e que conclui um projecto iniciado, há 40 anos, pelo Professor Carlos Teixeira no então Centro de Estudos de Geologia da Faculdade Ciências de Lisboa.
Mais do que um Dicionário, a forma como está organizado e escrito, ajuda-nos a compreender a razão da existência de muitos termos, necessários para uma melhor compreensão deste maravilhoso conjunto de matéria que constitui o solo que pisamos a nossos pés, que nos fornece a energia para os nossos alimentos, que perfuramos para dela extrairmos riquezas incalculáveis ou onde vamos construindo e erguendo os símbolos edificantes da nossa civilização. Assim a saibamos conservar por muitos anos e respeitar, tal como infere o conceito de um património da Humanidade. Bem-haja o autor por nos conceder o privilégio de melhor conhecer esse património.Para ler um excerto desta obra clique aqui

CLARABOIA
José Saramago
Ed. Caminho
É curioso e talvez não que o último livro editado do nosso Prémio Nobel tenha sido afinal um livro escrito na sua juventude com apenas 31 anos de idade, mais propriamente o segundo, após ter escrito e publicado o primeiro, o romance “Terra do Pecado”. Portanto uma obra que deveria ter dado continuidade ao seu poder criativo, não fosse o editor a quem entregou o manuscrito nunca mais lhe ter dado qualquer informação sobre se quereria ou não publicá-lo e só 40 anos mais tarde o contacta para o fazer, ao que Saramago respondeu que já não lhe interessava publicá-lo e recolheu o manuscrito. Tomou então a decisão de não mais o publicar por o considerar ultrapassado, deixando para os que lhe sobrevivessem a decisão de o dar ou não a conhecer. Felizmente que Pilar del Rio, a Fundação e os restantes familiares, resolveram pouco depois do primeiro aniversário da sua morte entregá-lo para publicação à editora que nos permitiu usufruir da quase totalidade da sua obra. Zeferino Coelho que, para além de editor era um dos seus grandes amigos, diz a propósito que se trata de “um bom romance onde se encontram já esboços do que viriam a ser as suas obras seguintes”. Aliás o próprio Saramago referia-se ao seu manuscrito quando tal acontecia em conversas amigas dizendo que achava que ele não estava mal construído, um livro também ingénuo, mas que – e reproduzimos - “tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm a ver com o meu modo de ser.” De facto, trata-se de um verdadeiro romance que retrata a vida dos habitantes de um prédio de seis apartamentos numa zona modesta da cidade, cujas escadas recebem a luz através de uma clarabóia colocada ao nível do telhado. O autor terá vivido numa casa semelhante onde alugou um quarto a uma das personagens principais, neste caso do romance, um sapateiro que certamente muito teria a ver com o senhorio real. E são assim descritos os pequenos dramas, alguns mesmo de certo modo trágicos, vividos por aquelas famílias, numa forma que já é muito similar à que viria a ser utilizada mais tarde por Saramago e o levariam ao Nobel da Literatura. Não quero com isto dizer – e quem sou eu para o poder fazer – que não houve transformações na escrita e no valor das ideias expostas nas obras posteriores que o fizeram, com todo o mérito, atingir o lugar que passou a ocupar na literatura mundial. Mas existia, isso sim, já o sentido crítico e a afirmação pessoal das suas dúvidas quanto ao caminho que a humanidade já nesse tempo seguia, em que grande número de pessoas não sente a necessidade de se sentir responsável pelos seus actos e de fazer algo por aqueles que mais necessitam. Em Claraboia, Saramago será ainda talvez aquele rapaz que foge a tudo quanto pode constituir uma prisão e por isso quando sente que está a criar raízes resolve partir. Talvez aí já residissem muitas das suas dúvidas que mais tarde viriam a tornar-se certezas e pelas quais lutou pessoalmente e demonstrou nas obras que nos deixou e que mantém hoje uma actualidade indiscutível. Pese embora os ataques de que foi vítima por parte dos que não quiseram ou não souberam compreender a sua obra, será difícil aceitar que possam existir pessoas – mas existem – que se recusam a vê-lo como um homem excepcional, de grande literário, felizmente reconhecido muito para além das nossas fronteiras, com qualidades de grande valor humanitário em defesa dos mais fracos e desprotegidos. E sobretudo, nunca é demais dizê-lo, um lutador pela igualdade entre todos, quaisquer que sejam as suas ideias, na defesa dos direitos de todo e qualquer cidadão a seguir as suas ideias e os seus ideais. Infelizmente um certo poder dogmático nunca lhe aceitou que pensasse de maneira diferente das suas crenças e apresentasse livremente o seu modo de as analisar e verbalmente as combater, na forma oral ou escrita. Mas voltando a este romance, cremos que Claraboia merece de facto ser lido, até porque, como dizíamos atrás já se encontra nele muitas das ideias que mais tarde Saramago viria a desenvolver, de outra forma naturalmente, mas que aqui se compreendem naquela fase da sua juventude de modesto funcionário da previdência social mas já possuidor de um certo domínio da observação de tudo o que o rodeia, fazendo-o com a precisão e o sentido de ironia que haviam de vir a caracterizar as suas futuras obras. Afinal todo o valor com que foi reconhecido e ficará para sempre nos anais da história da Literatura. Embora também da minha parte, por razões que se sobrepõem à minha vontade, um pouco tardiamente, não podia deixar de colocar aqui esta “Claraboia” de luz sobre um livro e uma figura que passa a iluminar para sempre o meu Amor Pelos Livros.
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A ÚLTIMA TESTEMUNHA DE AUSCHWITZ
Denis Avey
com Rob Broomby
Clube do Autor
O autor viveu de facto os episódios trágicos descritos neste seu livro que escreveu em conjunto com o jornalista britânico do BBC World Service que fora em tempos correspondente em Berlim. Denis foi feito prisioneiro de guerra e de acordo com a Convenção de Genebra ficou num campo especial criado pelo regime nazi para o exército inimigo. Estava no entanto muito próximo do de Auschwitz e foi-lhe fácil constatar como eram tratados os judeus ali encarcerados, forçados a trabalhar até já não terem forças e conduzidos depois para as câmaras da morte. Ora não é de estranhar que Denis tenha sido distinguido numa recente cerimónia como um dos 27 heróis britânicos do Holocausto. Muitos de nós recordamos ainda de tudo o que soubemos sobre as perseguições e atrocidades dantescas cometidas pelo governo alemão durante a segunda Guerra Mundial. O Holocausto nos campos de concentração para judeus foi uma dos episódios mais vergonhosos levados a cabo pelo nazismo. Muitos de nós recordamos os filmes que foram feitos sobre esse período de verdadeiro horror na história recente da Humanidade. Conhecemos os nomes de muitos dos que lutavam para conseguir a fuga e a liberdade para o ocidente de homens, mulheres e crianças em permanente perigo de vida. Aristides Sousa Mendes que foi cônsul de Portugal em França, durante a ocupação, desafiou o governo português e salvou a vida de milhares de pessoas, das quais cerca de 10 mil judeus, tendo sido chamado de "o Schindler português", outro diplomata alemão que também salvou muitas vidas dentro de a própria Alemanha. Também conhecemos e lemos o célebre Diário de Anne Frank. O que nos conta Denis Avey é como, enquanto vigiava cuidadosamente o que se passava no campo vizinho de Auschwitz, conseguia ter uma vaga ideia do que ia acontecendo aos prisioneiros judeus. E por isso mesmo, no desejo de tomar pleno conhecimento daquilo que lhe chegava aos ouvidos, acabou por infiltrar-se no outro campo e trocar a sua espécie de farda pelas vestes de um judeu que se encontrava em perigo de vida devido à sua debilitante condição física e aos laços familiares que ao mesmo tempo o prendiam ao exterior. Com essa atitude, acabaria por salvar a vida do judeu mas viveu ele os horrores dos dias passados junto aos corpos dos que iam sendo enterrados meios vivos ou das cinzas que saiam das câmaras de incineração. Mais um livro sobre o Holocausto, poderão dizer alguns. Mas trata-se do relato dos horrores passados e funcionam como testemunho vivo daquilo que presenciou que aqui retrata. É talvez compreensível que não seja agradável reler ou voltar a relembrar o que se passou. Mas também convém que tudo isto não seja esquecido. Trata-se de um relato envolvente. Tudo ali foi vivido. É verídico. Uma obra a não perder para que a humanidade não volte a viver este tipo de episódios que colidem com os direitos fundamentais do Homem e com a dignidade da nossa existência, no respeito pelas ideias de cada um, contra a opressão e o racismo.
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O CIENTISTA DISFARÇADO
Investigando os pequenos acidentes do dia-a-dia
Peter j. Bentley
Publicações Europa-América
Peter Bentley é um caso paradigmático do cientista que está sempre disposto a comunicar com todos aqueles que anseiam conhecer o que a ciência faz e as explicações para que os fenómenos aparentemente fechados ao comum dos cidadãos se tornem claros e compreensíveis. E para essa acção de difusão do conhecimento, contribuem os seus livros, as suas conferências e até a capacidade das novas tecnologias mantendo um blogue com o título de O Mundo de Peter J. Bentley onde esclarece as dúvidas de quem o visitar. É de facto extraordinário como este homem doutorado em Genética Algorítmica e com uma licenciatura em Inteligência Artificial, responsável do departamento de Ciência Computacional do Colégio Universitário de Londres, colaborador permanente da Revista New Scientist e toda uma enorme actividade no ensino universitário, tenha conseguido tempo para nos descrever de uma maneira totalmente simples a natureza dos fenómenos que observamos no nosso dia-a-dia e aos quais dávamos até aí razões completamente aleatórias e sobretudo erradas. Não encontrávamos explicações para elas e portanto simplesmente aconteciam. Em grande parte dos casos, chegávamos a culpar-nos de isto ou aquilo nos acontecer ou então culpávamos a própria ciência. Como ele próprio diz, ainda podem existir pessoas que culpam os cientistas por terem inventado os computadores pois se o não tivessem feito não existiriam os respectivos vírus. E talvez outros pensem erradamente que se a ciência não existisse as nossas vidas seriam muito mais simples e portanto seríamos mais felizes. Ora é precisamente por estas e outras razões semelhantes que ele mantém uma actividade contínua a desmistificar a ciência e torná-la compreensível e acessível a todos. São igualmente suas as palavras em que reafirma que “a Ciência é nada mais, nada menos do que o melhor caminho para compreendermos o mundo à nossa volta”. Estivemos há momentos no seu blogue, que há pouco citámos, e encontrámos respostas muito recentes a perguntas que lhe foram feitas pelos visitantes das mais variadas classes e grupos etários. Um estudante faz-lhe uma pergunta sobre uma das suas últimas descobertas. Peter Bentley inventou recentemente uma forma de fazer um iPhone funcionar como um estetoscópio, aquele instrumento utilizado em medicina para observar as batidas do coração. O seu Iphone faz isso mesmo e até consegue um electrocardiograma. Extraordinário o que este homem consegue com os seus conhecimentos na área da Biologia e da Inteligência Articial! Já é um app da Aplle. Trazemos aqui um dos seus últimos livros a que deu o título de Cientista Disfarçado. Nestas páginas o autor investiga pequenos acidentes do nosso dia-a-dia, como por exemplo escorregar na casa de banho, deixar queimar uma torrada na torradeira e se a deve comer ou não. Alguém está cheio de pressa para sair de manhã e vai ao frigorífico e afinal o leite está azedo ou entrou na banheira demasiado cheia e a água saiu para fora (Lembra o grito soltado por Arquimedes na mesma situação quando afinal ele nem gostava de tomar banho, como está provado hoje em dia). E quantas vezes nos aconteceu parar de repente numa rua e perguntarmos a nós próprios: onde é que eu estou? Mas não, não se trata de Alzheimer. É algo muito comum que sucede repentinamente. O nosso cérebro estava, como é costume dizer-se, noutra onda. Ora para todas estas questões ou acidentes e muitos mais o Cientista Disfarçado tem uma resposta. Essa resposta é nos dada pela Ciência. Não existe nada de anormal. Explicado por Bentley, tudo se torna mais simples. Cada acidente é causado por uma falha tecnológica ou, mais habitualmente, por falharmos a nossa tecnologia, diz-nos com extraordinária clareza o autor neste sua obra que depois de começarmos a lê-la não paramos enquanto não chegarmos ao fim. É bom compreender a Ciência. Estou à vontade, não por querer arvorar em cientista, que o não sou, mas lembrando que durante vários anos realizei um programa de Rádio na Estação Oficial chamado “A Ciência ao Serviço do Homem”. Foram vários os debates a que assisti e coordenei. E com eles terei aprendido essa grande verdade. Tudo pode ser explicado (ou quase tudo) e quando é pela mão ou - melhor, neste caso – pelas palavras do autor deste livro, cientista de renome internacional mas que sabe falar ao público menos esclarecido, a Ciência torna-se algo que devemos respeitar e contribuir para que progrida sempre e nos revele aquilo que ainda temos de descobrir. O caminho será sempre em frente. Mais e mais, à descoberta dos segredos do Universo. Convido-vos a ler o livro.
Para ler um excerto desta obra clique aqui.
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